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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

AS ORIGENS DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA


               Enquanto a Europa, abalada pelas últimas guerra de religião, ia procurando endireitar suas condições políticas e espirituais, a Inglaterra preparava-se para enfrentar uma crise dinástica e parlamentar da mais alta importância. Fermento de origem de tanta confusão eram as idéias puritanas, isto é, aquela corrente religiosa, firmada na austeridade calvinista, que se formara aos poucos no seio da igreja anglicana. Os puritanos, já fortes nos últimos decênios do século XVI, e mantidos no freio somente pelo respeito que Elizabeth incutia em seus súditos, começaram a fazer ouvir sua voz, sob o reinado de James I, hostilizando-lhe abertamente a politica.
              Naturalmente, às provocações, Estado e Igreja responderam com perseguições, embora de maneira não grave; assim, muitos puritanos viram-se obrigados a tomar o caminho do exílio. Alguns resolveram isolar-se de vez do mundo civilizado, para ir fundar, em uma terra onde sobre a qual não pesassem séculos de história e de preconceitos, uma nova e livre sociedade humana; e vê-se, então, na primavera de 1607, um navio atravessar o Atlântico-Norte e desembarcar, na costa americana, pouco mais de uma centena de colonos ingleses. Quanto ao país em que desembarcavam, aqueles homens, certamente, possuíam apenas escassas e fragmentárias notícias. 
             O clima parecia clemente, os indígenas não perigosos; assim, aquele exíguo grupo de pioneiros se lançou espontaneamente ao trabalho e, bem cedo, na zona do desembarque - na praia de Chesapeake, à vista dos montes Alleghany - onde fizeram um acampamento britânico com barracas e uma pote de madeira, que serviria de trapiche. Nesse local surgiu depois a cidade de Jamestown - Virginia em 14 de maio de 1607.  
              Tão logo chegaram, os novos colonos perceberam que, se a primavera e o verão eram cálidos, naquelas terras o inverno era bastante rígido; nem todos os imigrantes eram moços e robustos, de maneira que o frio e as privações da primeira invernada ceifaram a metade dos pioneiros. Mas a primeira experiência estava realizada, a cabeça de ponte fora estabelecida, e a resistia; àqueles cinquenta sobreviventes vieram juntar-se muitos correligionários, de maneira que a nova colônia, a colônia da Virgínia, começou a expandir-se. 
               Naqueles primeiros anos, a imigração para a América era feita segundo um sistema nitidamente britânico; isto é, o governo entregava, sob condições, a companhias comerciais, um determinado espaço de terra, confiando-lhes a exploração e a defesa desse território, embora considerando os colonos como cidadãos ingleses no lato sentido do vocábulo. Depois d primeira experiência da Virgínia, as Companhias comerciais multiplicaram-se e, com elas, os novos postos ingleses; o rei da Inglaterra, por força da viagem de descobrimento efetuada por João Cabot, em 1497, tinha conquistado direitos de soberania sobre toda a imensa região compreendida entre Terra Nova, o Labrador e Flórida, de maneira que as colônias se difundiram gradualmente, ao longo de toda a costa atlântica da América setentrional. O maior fluxo ocorreu, porém, para aquela zona, que recebeu o nome de Nova Inglaterra. O maior centro de imigração puritana tornou-se, em 1620, a colônia de Massachusetts, onde surgiu a cidade de Boston. 
               Mas não só os Ingleses foram os colonizadores do Novo Mundo; um forte grupo de Holandeses, por exemplo, estabeleceu-se desde 1624, à foz do Hudson, ali fundando a cidade de Nova Amsterdã; parece que o primeiro governador da colônia comprara a península, em que depois surgiu a cidade, por sessenta florins de ouro. Sobre aquela pequena península, denominada, depois, Manhattan, está hoje concentrada a maior organização financeira e econômica do mundo: o centro de Nova York. Lá pela metade do século, os ingleses ocuparam pacificamente a cidade, importantíssima como meio de comunicação com a hinterlândia, dela fazendo o porto mais ativo de todo o continente. Como os ingleses basearam seu direito de posse nas descobertas de Cabot, assim os Franceses apresentavam direitos sobre vastos territórios do Novo Mundo descobertos e descritos por Giovanni da Verrazzano, a quem Francisco I fornecera os recursos para a viagem; destas tão discutidas pretensões, nasceram as muitas guerras que, por quase dois séculos, se viram empenhados os Franceses, que se haviam estabelecido ao longo do Mississípi e Ohio, e os ingleses da Nova Inglaterra. Os verdadeiros senhores das terras, os índios, assistiam impotentes àqueles choques; em seguida, acabaram por se dividirem entre os dois campos, procurando obter, na discórdia entre os invasores, qualquer modesta vantagem para suas tribos. Contra os Europeus, os índios não  demonstraram, porém, a princípio, nenhuma hostilidade; se mais tarde, os combateram foi somente para defender seus pastos e seus direitos da indiscriminada sede de rapina dos brancos. Povo de tradições altivas e independentes, eles se recusaram, todavia, a trabalhar nas plantações coloniais, a soldo dos bancos, e, por isso, estes trataram de engajar, nada mais nada menos do que, como escravos, outros homens de cor, ou sejam, os negros, que se podiam "comprar" por pouco dinheiro, dos chefes de tribo africanas. Em 1619, desembarcaram, nas costas  da Virgínia, os primeiros negros; o tráfico de homens de cor assinala o início da prosperidade americana, mas trouxe consigo a chaga, ainda hoje, mais do que nunca aberta, do ódio de raça e do escravagismo. 

terça-feira, 31 de julho de 2018

HISTÓRIA DE ROMA E O RAPTO DAS SABINAS - Por Nicéas Romeo Zanchett


                 Para entender melhor o rapto das sabinas, vamos relembrar um pouco da história de Roma. 
                  Ela começa por um período mais ou menos clássico ou lendário, durante o qual reinaram sete reis sucessivos (de 754 a 510 a.C.). 
                    A República foi proclamada em 510, quando a população romana era, então, resultante da fusão dos romenes (latinos), dos ticienes (sabinos) e dos luceres (etrusco). A implantação da República deu lugar à criação de novas funções, tais como o Consulado e  a Ditadura. As lutas entre patrícios e plebeus duraram até o ano 300 da nossa era. Após consolidar seu interior, Roma passou à conquista da Itália (296 a 270) e, de 264a 201, travou as duas guerras púnicas contra Cartago, que só terminaram com a destruição dessa grande rival, em 146 (terceira guerra púnica). A seguir, Roma^reduziu a Grécia a província romana, intervindo no Oriente, mas passando a receber a influência benéfica dos helenos derrotados. Em breve tempo, Roma se tornou senhora do mundo de então e, em 31 a.C, Otávio, seu grande general, foi proclamado imperador (imperatur), sob o nome de Augusto. Com a morte deste (em 14 depois de  Cristo) o poder supremo passou aos Césares (Tibério, Calígula, Claudio, Nero, etc.) e depois aos Flavios (Vespasiano, Tito, e Domiciano). 
                   A história mais antiga dos povos e das cidades se confunde geralmente com a lenda. Essa lenda se entrelaça com aquela da famosa guerra de Troia, cantada também pelo poeta Homero, na Ilíada, que foi travada mais de mil anos antes de Cristo, na longínqua Ásia Menor. 
                 Conta-se que, quando os Gregos, vencedores, conquistaram e arrastaram aquela cidade, todos os heróis troianos foram massacrados, com exceção de Enéias, filho de Aquiles e, da deusa Vênus. Ele conseguiu fugir da cidade em chamas, com seu filhinho Iulo e o velho pai. Aquiles e, depois de uma longa e aventurosa viagem, chegou às costas do Lácio, onde vivia o povo dos latinos. Com a ajuda de outros povos locais, combateram contra aquele e em particular contra os Rútulos, cujo rei, Turno, queria desposar Lavínia, filha do rei dos Latinos. Também Enéias aspirava à mão daquela princesa e, por desejo de Turno, homem forte e violento, realizou-se um duelo. Enéias, certo de seu destino de herói, atacou impiedosamente seu adversário e em breve sua espada caiu sobre Turno e matou-o. Enéias casou-se com Lavínia, tornando-se rei dos latinos. Iulo, seu filho, fundou uma cidade, denominada Alba, que, devido às suas casas dispostas em longa fileira, foi depois chamada de Alba-a-Longa. 
               Desta cidade não tivemos notícias até o século VII a.C., quando, segundo a lenda, subiu ao trono de Alba-a-Longa Númitor. Amúlio, irmão do rei, mediante uma conspiração, depôs Númitor do trono e declarou-se rei de Ala-a-Longa, obrigando Rea Sílvia, única filha do irmão, a tornar-se Vestal. As Vestais, inteiramente consagradas ao culto da deusa Vesta, não podiam casar, sob pena de morte. E esta foi a sorte de Rea Sílvia, quando Amúlio soube que ela tivera dois filhos do deus Marte. Segundo os usos daquela época, a mulher foi enterrada viva e os dois gêmeos atirados ao Rio Tibre. 
              Mas o servo, que devia executar a ordem, pusera o cesto, onde se encontravam os dois meninos, sobre as águas do rio. O cesto encalhou entre os caniços das margens e os pequenos foram encontrados por uma loba, que, ao invés de dilacerá-los, amamentou-os. 
                Mais tarde, o pastor Fáustolo recolheu-os, levou-os para sua choupana e criou-os como filhos. Ao chegarem a idade adulta, Remo e Rômulo conheceram sua origem e em seus corações acendeu o desejo de vingar-se do usurpador. Mataram Amúlio e reconduziram ao trono Númitor, que desde longos anos mofava prisioneiro. 
               Em agradecimento, Númitor doou aos sobrinhos uma área de terra juntoà margem esquerda do Tibre, não distante do ponto em que o pastor os encontrara. Os dois irmãos puseram mãos a obra, traçando, antes de tudo, o sulco que iria limitar a nova cidade. Era o dia 21 de abril do ano 753 a. C. Como ambos desejassem dar o próprio nome à cidade, resolveram interpretar a vontade dos deuses, estabelecendo que aquele dos dois que visse voando maior número de pássaros seria o escolhido. Subiram a dois morros diferentes: Remo foi para o Aventino e viu sete abutres e Rômulo, sobre o Palatino, avistou doze . A cidade, de Rômulo, passou a chamar-se Roma. Isto é o que conta a lenda. Mas é provável que o nome Roma significasse "a cidade do rio", e,  em tal hipótese, dever-se-ia conjeturar que o nome de Roma não deriva de Rômulo, mas vice-versa, Rômulo e Roma: Romulus, o mítico fundador da cidade, o primeiro cidadão romano. 
                 Remo, despeitado, devido à vitória do irmão, ultrapassou, em gesto de desprezo, o sulco; e Rômulo, tomado de cólera, matou-o, demonstrando, assim, que a ninguém era permitido ultrajar Roma. 
                  Quando tudo ficou pronto Rômulo acolheu os primeiros habitantes em seu pequeno povoado: eram bandidos salteadores, obrigados a fugirem de suas terras, pastores sem morada fixa, homens rudes e ferozes. Foram esses os primeiros romanos, os progenitores daquele povo que iria conquistar o mundo. 
                 Dessa forma, Rômulo foi o primeiro rei de Roma, e conduziu várias guerras contra as aldeias vizinhas. Isso feito, dedicou-se também às tarefas de paz. Dividiu a população em tribos e fez-se assistir por uma assembléia, denominada "senado", porque constituída de cidadãos já de idade avançada. 
               Mas a população da cidade era formada exclusivamente por homens; então (sempre segundo a lenda), Rômulo organizou uma festa em honra de Netuno e convidou para esta, as famílias de um povo limítrofe, os Sabinos. E, quando os jogos estavam mais animados do que nunca, Rômulo fez um sinal aos romanos, e estes atiraram-se para cima das moças sabinas e, entre o espanto dos Sabinos, levaram-nas rapidamente para sua cidade. 
                 Os sabinos tomaram armas contra os romanos, mas as mulheres sabinas se intrometeram entre os pais e os maridos, os quais acabaram confraternizando e resolveram fundir-se num só povo, embora conservando cada qual seu próprio rei. Tito Sácio, que era rei dos sabinos, foi morto, e Rômulo passou a reinar sozinho. Estava, porém, convencionado que, ao morrer este, seria eleito um rei sabino. E isso aconteceu quando, durante uma revista militar, desabou um tremendo temporal e Rômulo desapareceu misteriosamente. Espalhou-se a notícia de que ele tinha sido assassinado pelos seus inimigos políticos, mas os senadores afirmaram que o deus Marte o raptara em um carro de fogo, levando-o para o céu.  
              Rômulo foi, então, considerado um deus e adorado sob o nome de Quirino. O novo rei Sabino foi Numa Pompílio; religioso e pacífico, ele deu sábias leis ao seu povo, dividiu o ano em doze meses e erigiu um templo em honra ao deus Jano, cujas portas permaneceriam fechadas durante o tempo de paz e abrir-se-iam em tempo de guerra. 
               O terceiro rei, Túlio Ostílio, foi, ao invés, belicoso. Mandou arrasar Alba-a-Longa, depois do combate entre os Horácios e os Curiácios. Os primeiros, três irmãos romanos, deviam enfrentar, em combate, os segundos, três irmãos curiácios. Dois dos Horácios já haviam tombado. O supérstite fingiu fugir, e os adversários passaram a persegui-los. Assim, ele pode enfrentá-los isoladamente e matá-los. 
                 Anco Márcio, que sucedeu a Túlio Hostílio, era neto de Numa Pompílio. Foi um rei sábio e pacífico. Mandou construir a cidade e o porto de Ostia, a ponte Sublício e o cárcere Mamertino. 
                     Os últimos três reis - Tarquínio Prisco, Sérvio Túlio e Tarquínio, o Soberbo - foram etruscos. O primeiro, após haver usurpado o trono de Anco Márcio, derrotou os latinos e os sabinos. Mandou construir aquedutos, o Circo, o Fórum e a Cloaca Máxima. Sérvio Túlio foi o primeiro a criar moeda, por meio de cunhagem. Ampliou Roma, dando-lhe novas muralhas e deu ao povo uma constituição menos dura, o que lhe valeu a inimizade dos patrícios. Aproveitando-se do descontentamento, o genro, Tarquínio, assassinou-o e tornou-se o último rei de Roma, sob o nome de Tarquínio, o Soberbo. Mandou matar muitos cidadãos e senadores e rodeou-se de um corpo de guardas armados daqueles fasci littri que, de origem etrusca, permaneceram para sempre como símbolo de autoridade e de justiça. 
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Nicéas Romeo Zanchett 

sábado, 28 de julho de 2018

A REPRESSÃO SEXUAL DA IGREJA


                                              A REPRESSÃO  SEXUAL DA IGREJA 
                Desde os primeiros anos do cristianismo ocidental, a mulher é considerada como "impura" e constitui, então, para o homem, um obstáculo no caminho da santidade.  Essa visão da "pecadora" não nos foi dada por Cristo; foi proposta por São Paulo, que pregava a nova religião numa sociedade de costumes particularmente corrompidos. 
                Historicamente a Igreja Romana sempre desprezou o sexo. Santo Agostinho, o mais célebre dos Padres da Igreja, considerava incompatíveis com Deus e a Natureza, numa perspectiva sobrenatural. Essa atitude profundamente arraigada torna difícil a adaptação da Igreja à nova sociedade que, após ter reabilitado a sexualidade, a liberta e exalta. 
                A aspiração a uma revisão dos valores, a uma reabilitação  dos princípios de prazer, surgiu num Ocidente próspero. Foi engendrada pela própria prosperidade. Entretanto, esse tema ainda é tratado com superficialidade, tanto nas pesquisas como nas discussões, por grande numero de pais, professores e responsáveis pela nossa sociedade. 
                Duas idéias governam os textos bíblicos que tratam da sexualidade: a primeira é que o sexo é um mistério que é preciso cercar de respeito; a segunda é que o casamento é a forma desejada por Deus para as relações sexuais. Entretanto, os judeus das origens do cristianismo aceitavam que os prazeres da vida fossem vividos plenamente. No antigo testamento não existe nenhuma proibição às relações sexuais antes do casamento, como também, nenhum trecho da bíblia rebaixa a mulher para exaltar o homem. Foi apenas depois do exílio que o povo judeu  desenvolveu a ideia  de que os prazeres, particularmente o prazer sexual, deviam ser condenados.
                A Igreja considera o corpo, especialmente  da mulher, como instrumento privilegiado da tentação. A incessante exaltação do celibato por São Paulo, revela seus profundos problemas pessoais em relação à sexualidade. Alguns religiosos, apaixonados por psicanálises, acreditam ver em seus propósitos uma homossexualidade latente e reprimida. São Paulo marca o ponto de transição entre a atitude sadia e positiva para o corpo, que caracterizava o Antigo Testamento e o próprio Jesus, e a atitude dualista e negativa que não parou de se expandir no Ocidente.  Ele aconselhava os cristãos preocupados com a saúde e seguirem  seu exemplo e não se ligarem a nenhuma mulher. 
              A moral cristã foi, aos poucos, se edificando em volta da convicção de que a sexualidade devia ser evitada como o "mal essencial", à exceção do mínimo que considerava necessário para manter viva a raça humana. A prática sexual só foi desculpável na procriação. Com isso a Igreja considerava que tinha encontrado o ponto de equilíbrio declarando que o ato sexual em si não era condenável, condenável era o prazer que dele tiravam os indivíduos. 
             Os moralistas escolásticos editaram um código que regulamenta no menor detalhe a vida sexual. Dele, em nenhum estágio, o pecado é totalmente excluído, pois que a paixão necessária para desencadear o ato criador constitui um pecado, mas a gradação do pecado atinge o extremo. Para homens e mulheres casados criou-se camisas que permitiam conceber com um contato reduzido entre os corpos. Entretanto, as poluções noturnas  involuntárias são classificadas como pecados. Fazer amor em sonhos, durante o sono, ainda é considerado crime que deve ser declarado no confessionário. Na sombra do confessionário, os padres escutam as consciências e, como policiais, interrogam aquilo que consideram pecados da carne. 

Nicéas Romeo Zanchett 

A EPOPEIA DE GILGAMESH - Por Nicéas Romeo Zanchett



           Não podemos julgar uma civilização pelos simples fragmentos que se salvaram do naufrágio. Esses fragmentos são sobretudo litúrgicos, mágicos e comerciais. Seja por acidente, seja por pobreza cultural, a Babilônia, bem como a Assíria e a Pérsia, pouco nos legaram em literatura, em comparação com o Egito e a Palestina; o que dela recebemos confina-se ao campo comercial e às leis. 
                 Os babilônios escreviam em cuneiforme, sobre tabletas de argila mole, com um estilete ou lápis apontado em forma de cunha, ou prisma triangular; depois secavam-nas e coziam-nas, obtendo assim duráveis manuscritos de tijolo. Se o escrito era uma carta, polvilhavam-na e colocavam-na em envelope também de argila, sempre marcado com o selo do remetente. Tabletas em vasos classificados e dispostos em prateleiras enchiam numerosas bibliotecas nos templos e palácios da babilônia. Essas livrarias perderam-se; mas uma das maiores, a de Borsippa, foi copiada e conservada na biblioteca de Assurbanípal, cujas 30 mil tabletas foram a principal fonte dos nossos conhecimentos sobre esse admirável povo. 
                A decifração da língua babilônia quebrou a cabeça dos estudiosos durante séculos, mas em 1802 Georg Grotefend, professor de grego na Universidade de Gottingen, expôs à Academia dessa cidade os seus trabalhos.
                   Depois dessa publicação, tudo parecia parado e esquecido; mas em 1835, quando apareceu Henry Rawlinson, diplomata inglês a serviço da Pérsia, e desconhecedor dos trabalhos de Grotefend, igualmente leu os nomes de Histaspes, dario e Xerxes numa incrição em Velho Persa, derivada do cuneiforme babilônico; e com essa base conseguiu decifrar o documento inteiro. Mas aquilo não era babilônico; Rawlinson teria, como Champollion, de encontrar a sua Pedra de Roseta - alguma inscrição ao mesmo tempo em língua persa e babilônica. E finalmente encontrou nas montanhas da media: Dario I fizera gravar a memória das suas guerras e triunfos em três línguas - persa, babilônia e assíria. 
               Os babilônios não se interessavam por literatura; seus escritos eram um instrumento para facilitar os negócios. Apesar disso foram encontrados  fábulas em verso, hinos divididos em linhas e estâncias; uns tantos versos profanos; rituais religiosos que pressagiavam o drama, embora não chegassem até ele; além de toneladas de historiografia. As crônicas oficiais memoravam a piedade e as conquistas dos reis, as vicissitudes de cada templo, e os acontecimentos notáveis da cidade.
           Dose tabletas quebradas da biblioteca de Assurbanípal, hoje no Museu britânico, revelam a poesia épica da Mesopotâmia - A Epopéia de Gilgamesh. Como a Ilíada, é uma concreção de histórias soltas, algumas das quais revertendo à Suméria de 3.000 a.C.; ali se conta a história do Dilúvio. 
                Gilgamesh foi um lendário rei de Uruk ou Erech, descendente do Shamash-napisthtim que se salvou na arca e ficou imortal. Gilgamesh entra em cena como uma espécie de Adônis-Sansão - alto, macio, poderosamente belo e forte. 
"Deus por dois terços
E um terço homem,
 Ninguém iguala a forma do seu corpo...
Todas as coisas viu, esmo as dos confins da terra, 
Tudo arrostou, tudo aprendeu; 
Devassou todos os segredos 
Através do manto que os esconde. 
Viu tudo que era oculto
E o que era coberto descobriu
Dos tempos antes do dilúvio trouxe notícia; 
Foi para muito longe
Dando-se a todos os trabalhos e azares; 
Escreveu então numa pedra a história de sua obra."

                  Gilgamesh é um poema do quarto milênio antes de Cristo, que conta a epopéia do homem sumeriano. Ele é um herói - um terço homem e dois terços divino - que faz uma viagem em busca da vida eterna. Ele consegue, mas torna a perdê-la. Poema da criação, do dilúvio, da angústia humana e do dilema da razão em frente do inevitável. Tal como o homem moderno, Gilgamesh profanou a natureza ao matar o guardião da floresta. Nesse momento ele perdeu a parte divina e tornou-se um simples mortal.
                    Conta a história que há muitos e muitos anos, um homem príncipe, e assim aclamado na cidade de Uruk, onde nasceu. Lá, onde reinava a raça humana sob a morada de Anu, viveu e cresceu Gilgamesh, o príncipe. Seus poderes eram tão prodigiosos que encantava as crianças, subjugava as mulheres e dominava os homens. por isso, os varões roeram-se de inveja. E reunindo-se foram queixar-se aos deuses. 
                Os deuses levaram a queixa a Aruru e à grande Deusa, aquela que sabe produzir a semente do humano. Imploraram: 
                - "Somente tu, misericordiosa, que formaste Gilgamesh e toda a raça, saberás criar um novo ser com força igual, para que a nossa cidade santa tenha paz."
                 E para comprazer algumas divindades, que uniam seus pedidos aos pedidos dos varões, a divina Aruru fez do barro um novo ser, que foi saudado com o nome de Enkidu.
                Esse novo ser era coberto de pelos, com uma formosa e áspera cabeleira. Era livre, tão livre que caminhava tranquilo nos desertos, comendo saborosas ervas com gazelas e bebendo água das fontes como gado. 
                Seu coração exultava quando estava junto rebanhos e se alegrava andando com as manadas. Era o protetor dos animais; e para afastar os caçadores, Enkidu desviava o curso dos rios, e para defender seus companheiros construía fossas cruzadas. Sua força só poderia ser igualada a uma uma das forças de Bel, o senhor da atmosfera, aquele que é deus do furacão.
                 Receosos, os caçadores começaram a se afastar daquela região, e já ninguém mais se aventurava a transpor as primeiras entradas do deserto. 
                  Não tardou para que Gilgamesh tomasse conhecimento do que estava acontecendo. Certo da existência de um novo ser vivente no deserto, para atraí-lo, o príncipe usou uma armadilha. 
                 Chamou uma sacerdotisa de Ishtar, iniciada na arte do amor, e amada dos deuses, propondo-lhe que seduzisse Enkidu. Esta, rápida como o vento, correu para o deserto levando sua arte. 
                    Gilgamesh mandou que o caçador acompanhasse a sacerdotisa ao encontro com Enkidu:
"Ei-lo, mulher! 
Abre teu cinto, 
Descobre teus encantos
 Para que ele te fareje!
Não hesites, apanhá-lo! 
Quando ele te vir, há de apaixonar-se. 
Abre então a tua veste para que ele se deite sobre ti!
Excita-lhe o êxtase, esse trabalho da mulher. 
Então ele se tornará estranho aos seus animais, 
Aos que nos campos cresceram com ele. 
Seu peito se apertará contra o teu."


                 Ao vê-la, Enkidu, cujos cabelos parecia ramos de videira, no princípio ficou assombrado, mas depois foi dominado pela Filha do Prazer e a ela se uniu. 
Então a sacerdotisa desapertou o cinto, 
Desvendou seus encantos
Para que ele a farejasse. 
Ela não hesitou, tomou-o, 
Abriu as vestes para que ele a cobrisse, 
E excitou nele o êxtase, trabalho da mulher. 
Seu peito apertou contra o dela
E Enkidu esqueceu onde havia nascido. 

                  Durante seis dias e sete noites Enkidu permanece com a mulher sagrada. Quando se cansa do prazer, procura seus amigos animais e, como não é reconhecido entristece-se. Muitas foram as vezes que Enkidu tentou ser recebido entre os companheiros, mas os seus joelhos o traíam e seu corpo ficava paralisado como a pedra. Por fim, vencido, Enkidu voltou para junto da mulher e sentou-se aos seus pés e ouviu dela: -"Tu és belo, Enkidu. Tu és um deus. És o rei dos desertos. O mais ágil dos reis. Porque não vais para Uru, a terra de Gilgamesh, aquele que pode fechar seus seus braços ao touro mais terrível? Porque a Filha do Prazer conhecia as artes para dominar e cativar, Enkidu ouviu a mulher e deixou-se conduzir. A sacerdotisa o censura dizendo: "Tu que és soberbo como um deus, por que vives entre os animais dos campos? Vem, vou conduzir-te a Uruk, onde está Glgamesh, cujo poder é supremo". Enkidu segue-a dizendo:  "leva-me para onde está Gilgamesh. Lutarei com ele e demonstrarei minha força, para que os deuses e os maridos de agradem."
                  Durante aqueles dias, Gilgamesh viu em sonhos um homem de prodigiosa força que o vencia.  Ao alvorecer o príncipe procurou sua mãe Ramabeli, que tudo sabia, e lhe confiou a sua inquietação. 
                  Ramabeli confortou seu filho, revelando-lhe que o homem forte era Enkidu, o novo ser, e que isto significava a profunda amizade que os uniria.
                 E assim foi, pois quando Enkidu chegou ao palácio, Gilgamesh o recebeu como a um irmão. 
                  Gilgamesh o vence, primeiro em força, depois em bondade; fê-lo sentar-se ao seu lado e deu-lhe um magnífico leito. Enkidu foi vestido com vestes reais. À esquerda do príncipe sentou-se em trono admirável, diante do qual os reis da terra se curvavam. 
                 O os homens de |Uruck respeitaram e honraram  aquele que era companheiro e amigo inseparável do príncipe.    
                 Uma noite, Enkidu teve um sonho funesto: um ser crepuscular  levava o seu corpo, por entre nuvens sombrias, à treva moradia de Nergal, de onde ninguém jamais voltara, tal como contavam os velhos magos.
                 Ao despertar Enkidu descreveu a sua visão dos infernos a Gilgamesh, e o príncipe, ansioso por conhecer os seus significados, encheu o pote de jade com leite e mel e o ofereceu a Shamash, o deus que ilumina todos os seres viventes.  
                   Pareceu a Glgamesh que se revelava uma resposta que supôs divina, dizendo: 
                 - Deves deixar o teu palácio, e ir combater Humbabá. 
                Em Uruk, contavam que morava além das montanhas de cedro um feros guardião chamado Humbabá. 
                 Ramabeli, ao saber do projeto do filho, revestiu-se com seus ornamentos sagrados e subiu as sete escadarias do templo. lá, no centro do santuário, ante o fogo mantido com incenso oferecido a Shamash, ela apresentou suas súplicas de mãe: 
                 - Shamash! Meu deus e deus da minha casa! Tu deste ao meu filho um coração que não dorme e permitiste que ele fosse tocado pela ambição. Eis que ele se prepara para ir lutar contra Humbabá. Por longínquos caminhos, ele enfrentará o desconhecido. Toma-o sob a tua proteção, ó meu deus! Shamash! Shamash! Meu deus e deus da minha casa!O povo de Uruk temeu pelo príncipe, mesmo os varões, que antes o invejavam, falaram dos perigos a que se expunha: Humbabá era um monstro horrendo, e para atingir as altas montanhas era preciso fazer uma jornada de muitas e muitas luas. 
                    O dois amigos partem com destino ao reino de Humbabá. 
                    Os perigos foram muitos; na viagem tiveram de enfrentar muitos animais selvagens. Lado a lado, sem descanso e sem medo, três zodíacos vividos, chegaram aos montes onde se erguia a insondável floresta; haviam verdes cedros na profundeza da verde floresta, domínio de Humbabá. 

          O monstro era mesmo terrível; sua voz era como uma tempestade; seu hálito desencadeava os ventos e sua floresta se fechava misteriosamente sobre o temerário que ousasse aproximar-se dali.  Enkidu tentou deter seu companheiro, sussurrando-lhe: 
                 - Não entres! Minhas mãos estão trêmulas e minhas costas pesam! Não entres!
               Mas Gilgamesh já não ouvia mais, pois - maravilha - em deliciosas sombras e luminosos caminhos, abrindo-se em mais cedros perfumados, santuário de deuses e reino de Inaná, a floresta surgia ante seus olhos deslumbrados. 
                 Gilgamesh, no entanto, lançou seu desafio à terra, chamando pelo horrendo monstro, cuja presença o guardião Silêncio encobria. E para armar suas forças, Gilgamesh celebrou os ritos guerreiros de sua raça; cravou um círculo fundo na escura terra e ofertou 12 grãos do mais perfeito cereal. Assim ele consagrou aos mortos, entoando pungente e fúnebre lamentação que encheu os ares. Depois, galgou o cimo mais alto da mais alta montanha, ali invocando Shamash: 
                 - Ó, deus! Tu que conduzes o dia por sobre a larga terra! Tu, senhor, que permitiste que aqui chegássemos! Shamash! Senhor! Manda um sonho a Enkidu! 
                 Então, quando o sono de Enkidu já percorrera a metade da noite, ele acordou, as vestes umedecidas pelo terror. E vendo Gilgamesh curvado sobre ele, lamentou-se: 
                 - Quem me acordou! Quem me tocou? Por aqui passou um deus! Minha carne ferida! Os céus clamaram e a terra gemeu! Na treva uma luz brilhou. Mas ela se fez fogo e a morte feita escura chuva transformou o fogo em negras cinzas!
                Mais de uma vez, como os homens comuns, Gilgamesh interpretou o sonho através das nuvens criadas pela sua desmedida ambição.  Viu o sonho como um sinal de vitória no combate e a ele se atirou, chamando a si as forças telúricas para que o protegessem. E os elementos se fizeram vivos: o furacão, o vento do norte, os ares glaciais e o turbilhão. 
                  Nove ventos vieram do horizonte, desvendando a face do Guardião. Humbabá não podia recuar e não podia avançar. 
                 Tendo-o sob o seu domínio, Gilgamesh teve ímpetos de poupá-lo, pois que de suas mãos fora feita toda a classe de portentos. Mas Enkidu, o que tinha sido tocado pelo amore pela morte, lembrou ao príncipe o perigo extremo a que se expunha deixando o monstro viver. 
                    Seguindo o conselho dado pelo amigo, Gilgamesh, vencendo o seu primeiro impulso, decepou de um só golpe a monstruosa cabeça, tomando, então, posse da montanha. 
                   Dessa forma foi destruído o santuário de Inaná, a Grande, e Gilgamesh atraiu sobre si a maldição de Bel, que é senhor de toda a natureza, pois o orgulho não lhe permitia sentir a desordem desencadeada e a blasfema profanação. 
                  Voltam triunfantes e felizes. Gilgamesh desfez o emaranhado dos cabelos, retira seu arnês de guerra, veste-se de branco, enfeita-se com real insígnia e põe o diadema. E assim, engrandecido, sentindo-se purificado, foi visto do alto pela insaciável deusa Ishtar, tomada de amor, ergue para ele os seus grandes olhos e diz: 

Gilgamesh! Vem e sê meu amante!
Teu amor, dá-me como presente; tu serás meu esposo e eu serei tua esposa.
Eu te porei numa carruagem de lápis-lazúli e ouro, com rodas douradas, montadas em oxis; 
Serás puxado por grandes leões, e entrarás em nossa casa dentro do incenso do cedro... 
Toda a terra perto do mar abraçará teus pés, reis se curvarão diante de ti, e te trarão, como tributos, os dons das montanhas e das planícies. 

                   Os olhos de Ishtar eram belos e misteriosos como o segredo da noite, mas a deusa era inconstante e seu amor podia atrair infortúnios sobre o amado e amante. Gilgamesh repele-a, e recorda o duro fado por ela infligido a diversos amantes, inclusive Tammuz, um falcão, um garanhão, um leão e um jardineiro. E disse-lhe: "Tu me amas agora, depois tu me baterás, como fizeste a este. Rejeitada e irada Ishtar pode ao grande deus Anu que crie um touro selvagem capaz de matar Gilgamesh. Mas Anu recusa-se e repele-a: "Não te calarás, nem agora que Gilgamesh enumerou tuas infidelidades e ignominias? "
                  Revoltada Ishtar ameaça Anu dizendo que, se não a atendesse, iria suspender em todo o mundo o desejo carnal, e assim destruiria todas as coisas vivas. 
                  - Ó divino pai! Não ignoro quão imenso é teu poder e se te tenho servido cada noite, ouve a minha súplica! Gilgamesh ousou me ofender! Temerário, ele revelou meus segredos de desígnios! Castiga o imprudente! Que o touro celeste o ataque multiplicando a força com que ofendeu a tua filha!
                 Anu, então, cede e cria o feroz touro; Ao vê-lo, Enkidu vem logo em socorro do amigo. Célere, ele colhe o touro pela cauda e, girando-o acima da cabeça, lança-o contra a dura terra. Ainda irado, Enkidu vislumbra Ishtar sobre os muros do Uruk, lamentando-se diante das suas sacerdotisas. Então, estraçalhando o animal vindo do céu, volta-e para as muralhas da cidade santa e lançou a cabeça do touro sobre a sagrada face da deusa. Gilgamesh rejubila-se, orgulhoso, porém, tomado de tardios receios, fez escorrer um denso óleo dos cornos do touro e, ali mesmo, o Ofertou a Lugalbanda, o que mora na raiz do reino vegetal. Depois lavou as mãos nas águas sacras, e iniciou com Enkidu a volta ao reino de Uruk. Pelas estradas ecoavam as exclamações dos povos agradecidos: 
                 -" Tu brilhas entre todos os homens, Gilgamesh! brilha entre os príncipes da terra! "
                 Quando chegam ao palácio de Uruk, Gilgamesh narrou seus feitos em reunião solene. Mas Ramabeli, a que tudo sabia, mãe do soberbo por quem se inquietara tantas luas, do seu orgulho desmedido muito se compadeceu.
                 Gilgamesh, porém, ao receber as homenagens, mal se advertia da piedade materna. No entanto, Ishtar, a divina tão duramente ultrajada, não dormia. E já um novo castigo a deusa engendrara.
                  Por suas artes mágicas, Enkidu foi envolvido por nuvens e um horrível mal apareceu nele. Durante o curso de 12 funestas noites, sua poderosa natureza lutou contra a morte, mas foi vencido. No décimo-terceiro dia, depois de mais uma noite vigilante, Enkidu expirou nos braços do irmão e companheiro amado Gilgamesh, o invencível príncipe guerreiro. Então, o soberbo lamentou sua sorte: 
               - Amigo! Irmão! Tigre dos desertos! Tu que comigo desceste a todos os abismos e comigo subiste os mais altos montes, a que te submetes? O que te mantém como sombra do que eras e não permite que me respondas? 
                   Em desespero, ele respirou sobre o amigo, procurando ainda escutar-lhe o coração. Tocou-lhe o peito com ternura extrema. Mas Enkidu estava morto. E sentindo-se perdido, Gilgamesh fugiu do palácio, pois a morte também estava dentro dele, pois já não era mais imortal.
                Atravessou planícies e vales. E por onde passava, erguiam-se as cruéis indagações: 
               - Por que a visão da morte destruiu a tua força? Por que ela elidiu a tua face? Partiu-se o teu coração e transformados foram os teus traços. O terror corroeu as tuas entranhas. A dor e a tristeza plasmaram outra face! 
                 E Gilgamesh, fugindo lamentava-se: 
                 - Eu fujo pelos campos pois Enkidu, amigo e irmão de armas, tigre dos desertos, que comigo destroçou os leões e enfrentou todas as provas, foi confirmado em seu destino. Foram 13 as noites e 13 foram os dias que sobre ele derramei meu pranto. Eu fujo da morte. Meu amigo, que jamais foi igual à lama da sua origem, despareceu. E eu, que me deitei ao seu lado, sou incapaz de construí-lo outra vez!
                 Gilgamesh medita sobre o mistério da morte. Ninguém escaparia, então, àquela dolorosa fatalidade?  E o medo abriu caminhos para os pés de Gilgamesh. 
                 Depois de muito meditar, tomou conhecimento de que um homem chamado Shamash-napishtim devia saber o segredo da imortalidade. Gilgamesh resolve procurá-lo, e achá-lo, nem que tenha de viajar o mundo inteiro. O caminho que toma leva a uma montanha guardada  por dois gigantes, cujas cabeças tocam o céu e cujos peitos chegam ao Hades. Mas eles o deixam passar, e Gilgamesh caminha doze milhas por um túnel escuro. Emerge na praia dum grande mar e vê sobre as águas o trono de Sabitu, a deusa virgem dos oceanos. Chama-a para que venha ajudá-lo a transpor as águas; "se não vieres, se eu não puder fazer isso, deitar-me-ei na terra e morrerei." Sabitu, apiedada, permite-lhe que atravesse as águas em quarenta dias de tempestade, até alcançar a Ilha Feliz, onde vive Shamash-napishtim, o imortal. Guilgamesh pede-lhe o segredo da imortalidade e Shamash-napishtim responde com a longa história do dilúvio, e de como os deuses, arrefecendo-se da ira destruidora, fizeram-no imortal por ter ele salvo a humanidade. E oferece a Gilgamesh uma planta cujo fruto rejuvenesce a quem o come; e Gilgamesh, feliz, volta da sua longa jornada. Mas havendo parado no caminho para banhar-se, uma serpente lhe rouba a planta. (A serpente era adorada por muitos povos como símbolo da imortalidade, por causa do seu aparente poder de escapar à morte com a mudança da pele.)
                     Aquele lugar de  delícias era a morada de Sabitu, a que reina na extremidade da terra, onde começam as águas. 
                      Ao ver Gilgamesh vestido de fera - que para os deuses a roupagem dos mortais é feita do íntimo do humano - a deusa oculta-se rapidamente em sua morada.
                      Mas o desvairado, Gilgamesh ameaçou destruir os quícios (dobradiças) e arrombar a porta que se fechava. Diante de tal audácia e furor, a deusa consentiu em ouvi-lo. Mas, ao saber da ambição do príncipe, o advertiu: 
                    - Porque percorre terras e mares? A vida tal como a procuramos não existe para o homem. Quando os deuses criaram o ser humano,deram-lhe a vida, mas retiveram nas mãos a eternidade. Satisfaz teu ventre! Rejubila-te nas noites e nos dias, e cada manhã será de festa! Que as tuas vestes alvas e a tua fronte clara! Lava-te nas águas e considera quão miúdo é aquilo que a tua mão pode conter. Assim a tua amada se alegrará demorando em teu peito! Quanto à eternidade, jamais encontrarás o caminho, pois nunca - desde os tempos mais recuados - pés humanos atravessaram o grande mar. Difícil é andar sobre as suas águas e impossível nelas abrir rota precisa. Secretas e profundas são as águas da vida eterna! Como tu atravessarias os escuros mares se a boca dos abismos espera e traga o ser tantas vezes quantas a vida na carne se lhe conceder?  - Mas, obstinado, Gilgamesh implora à deusa e tanto suplica que dele a Sabitu se apieda, aconselhando-o a procurar Urshanabi, barqueiro do magnânimo Utnapistim, intrépido nauta da mais atroz navegação. 
                  E indo à sua procura, Gilgamesh o encontrou. E ele lhe pediu 120 toras de madeira resistente para construir um barco. E depois de construí-lo, partiram. 
              Por muitas luas eles enfrentaram o mar revolto até atingir as águas da morte que cercam o paraíso de Utnapistim, impedindo qualquer aproximação. Mas Urshanabi, conhecendo o perigo, conseguiu evitar o contato mortal dos galhos e longas varas que eram ciladas para os incautos. Na centésima vara, a passagem foi aberta. 
                   E mostrou-se Utnapistim em toda a sua glória imóvel, na serenidade quieta dos que gozam a vida eterna. 
                  Em face da ânsia de imortalidade que o príncipe experimentava, o imortal patriarca assim falou:  
           - Foi por homens como tu que trabalhamos para construir a Grande Casa? Para criaturas semelhantes, os montes e vales brilham a cada aurora? A forma menor só escapa à prisão da substância para se integrar no sentido que criou. A voz foi dada ao ser humano para que cante em júbilo com os deuses, a cada novo dia. 
                 Nessa tarefa, que parece mínima, participam do divino, e preservada se faz a tarefa dos deuses. Homem algum, ser criado na forma, jamais pode vencer a própria morte. Samu, o sentido divino, escreve todos os destinos, mas o Annunaki, demônios engenhosos, dificultam o caminho verdadeiro que leva até os céus. Eis porque não e dado aos mortais criados adivinhar, em cada união vital, os seus momentos finais. Se Utnapistim se tornou imortal e venceu a lei da morte transpondo o castigo do dilúvio imposto àqueles  que viveram presos aos seus próprios e únicos desejos, foi por benevolência do deus depositário desse privilégio, que no patriarca reconheceu apenas o desejo santo de preservar em vida os seres dos dois reinos. Imensa e poderosa é a força da lei e nela eu te proponho apenas uma prova, ó príncipe: -se o sono é a imagem da morte, que tu, herói, não durmas durante seis dias e seis noites. 
              A assim foi que Gilgamesh tentou manter-se vigilante, mas dias antes do prazo prescrito o seu corpo oscilou como a árvore sob os golpes de um machado. E o patriarca, ante a confirmação de sua fraqueza, novamente lhe falou: 
               - Tu te achavas um forte, desejoso de vida eterna, mas o sono, como um furacão, soprou sobre teu corpo. 
                 E tendo assim falado, impassível se calou. Então o príncipe desesperado compreendeu que só lhe restava retornar a Uruk, convencido da inutilidade de sua viagem. 
            Mas, ao vê-lo quase sucumbido, a mulher  de Utnapistim, compadecida, revelou a Gilgamesh o maravilhoso segredo: no fundo dos mares, nos profundos abismos, desabrocha uma planta oculta e delicada. Recoberta de espinhos que ferem e cortam, assim ela se defende daqueles que tentam recolhe-la em seu mistério. Seu secreto nome diz que o velho, comendo-a, retorna à mocidade e que o jovem conserva eterna a juventude que ela contém. 
                 Ao ouvir essa informação, o príncipe animou-se e partiu agradecido. 
                Urshanabi levou-o através do mar até o horizonte mais distante. E lá, onde o céu e as águas se confundem brandamente, Gilgamesh, atando pesadas pedras aos pés, atirou-se e submergiu nas remotas profundezas. 
               Com cuidados extremos, nas mãos que sangravam, o homem colheu a misteriosa planta que encontrou. Enfim, a imortalidade era dele! 
                  Assim, Gilgamesh subiu à barca do intrépido barqueiro e quando o barco chegou à margem, despediu-se agradecido, inciando, tranquilo, em pleno regozijo, outro caminho. 
                 Aconteceu, no entanto, que estando Gilgamesh no meio do caminho de volta, deparou com uma fonte que manava dentre pedras e, detendo-se, ele se curvou para saciar a sede. E ao se inclinar - incomparável maravilha - pode ver tesouros inauditos a rebrilhar no fundo. 
                Então depôs delicadamente à margem das águas, a planta que colhera nos abismos tenebrosos. E mergulhou na água em busca da miragem deslumbrante, tentando alcançar as formas coloridas que a ele pareciam um tesouro. 
               E ainda na água viu uma serpente azul, atraída pelo odos da planta mágica, aproximar-se pela terra, rastejando até a pedra onde a colocara, e em pássaro metamorfosear-se ao tocá-la. E colhendo-a velozmente em seu bico, fugir para os céus com o precioso ramo. 
                  Emergindo, Gilgamesh atirou-se à terra e, assistindo a ave distanciar-se, impotente, soluçou: 
                - Meus braços estão cansados. O sangue em meu corpo já circula lento. Nunca mais poderei realizar ação maior?  Ó deus, apiedai-vos de mim! 
                   Em prantos ainda, depois de muito errar, chegou ao seu reino e mais odiosa então lhe pareceu a morte porque Ramabeli, sua mãe, já não mais vivia e nem mesmo viviam seus velhos servidores. 
               Fechado em seu palácio, sua única companheira era a tristeza. E o nome  de Enkidu, irmão amado, era por ele repetido mil vezes em voz baixa, nas noites de solidão. Uma tarde, por fim, no salão em que escondia a sua dor, vislumbrou na escuridão que o envolvia, uma sombra, imagem do amigo que se fora. 
                   E a voz de Enkidu, gemendo, o advertiu: 
              - Gilgamesh! Irmão! Agora estou no reino de Nerga! Em treva permanente me encontro aprisionado e nem as feras, os animais cruéis, que juntos combatemos, gemiam como eu, quando feridos. O caminho para os céus ou para os infernos se inicia no coração do homem. As paixões do homem alimentam a serpente que o sufoca depois. Essa é a lei. Se de mim, que sou sombra, se alar um lume que através de ti, em espiral, alcance o céu, sete vezes por sete luas, perdoado eu estarei. Tu foste o meu irmão e meu exemplo no orgulho do clarão que me cegou! Alça-te, amigo! Transmuta as injúrias, os ódios e os temores! Transforma teus sentimentos e memórias em luz que ilumine os que passam antes de ti e os que virão depois. Este é o caminho... 
                  Gilgamesh indaga a situação dos mortos. Enkidu responde: -"Não posso dizer; se eu descerrasse a terra diante dos teus olhos, se eu dissesse o que vi, o terror te empolgaria e tu cairias. Mas Gilgamesh, símbolo dessa heróica estupidez chamada filosofia, iniste na pergunta. - "Sim, o terror me empolgará, eu cairei por terra - mas dize! Enkidu, então, descreve as misérias do hades - e com essa nota triste o fragmento da epopeia termina. 
              A sombra dissipou-se. E desde então Gilgamesh tentou, no silêncio, alcançar a distância que une os céus à terra. Muitas vezes o sol brilhou. Até que pudesse perceber a vida que há na terra como na água, no fogo e no ar. Só depois, o homem ouviu, sereno e sem cuidados, o pássaro que canta e canta oculto, em cada ser. 

NOTA FINAL
                A história de Gilgamesh é quase a única amostra pela qual podemos fazer ideia da literatura babilônica. Que na babilônia um agudo senso estético, senão profundo espírito criatdor, sobrepairou as comercialismo, podemos ver do que se salvou das artes menores. Ladrilhos pacientemente vidrados, finos trabalhos de bronze, pedra, ferro, marfim, prata e ouro, bordados, tecidos de ricas tinturas, luxuosos tapetes, mesas, cadeiras e camas de pés ornamentados - isso empresta graça, senão maiores méritos, à civilização da Babilônia. A joalheria  abundava profusamente, mas sem a finura da arte egípcia; a preocupação maior era a da exibição. Havia muitos instrumentos musicais - flautas, harpas, gaita de fole, liras, trombones, tropas, trombetas  e tamborins. Orquestras e cantores tocavam e cantavam, em coro ou individualmente, nos templos e palácios e nas festas dos ricos moradores. 
                 A pintura babilônica era uma arte subsidiária; decorava as paredes e as estátuas, sem tentar uma independência. 
               A arquitetura babilônica não pode ser julgada, porque o que resta mal se eleva a alguns pés acima do solo; portanto, não podemos saber que forma tinham seus palácios e templos. 

Nicéas Romeo Zanchett 


quarta-feira, 11 de julho de 2018

A MORALIDADE SOCIAL - Nicéas Romeo Zanchett


              Uma das funções da família é a transmissão do código moral aos seus membros. Já se disse que a criança, em seus primeiros anos, é mais animal que humana; a humanidade tem que lhe ser embutida dia após dia. 
                Biologicamente a criança nasce mal equipada para a civilização, pois seus instintos  são primitivos e só lhe proporcionam reações para as situações tradicionais ou básicas. No início da vida suas reações são mais propícias para a vida nas florestas do que em agrupamentos urbanos. Cada vício que tem já foi uma virtude indispensável na luta pela sobrevivência; suas virtudes passam a ser vícios depois que as condições que eram indispensáveis desapareceram. Portanto, um vício não é mais que uma nova forma de conduta, mas em geral um retorno a situações naturais que deixaram de existir.
                  O propósito do código moral consiste em ajustar  os naturais impulsos humanos que  geralmente não mudam, ou quando mudam o fazem de maneira muito lenta. 
                  Durante tantas gerações a gula, a cobiça, a desonestidade, a crueldade, e a violência foram impulsos tão úteis aos animais e aos homens, que todas as nossas leis, toda a nossa educação, e todas as nossas morais e religiões não conseguem abafá-los completamente; e alguns deles mostram ainda hoje algum valor de sobrevivência, isto é, revelam-se favoráveis à vitória do indivíduo nessa sociedade de consumo. O animal entope-se de alimentos porque não sabe se vai comer no dia seguinte; esta incerteza dá origem à cobiça. Os yakuts comiam vinte quilos de carne num dia; e semelhantes façanhas também são atribuídas aos esquimós e australianos. A segurança econômica é muito recente para já ter eliminado este impulso natural; podemos ver isso na moderna avidez com que os nossos homens e mulheres acumulam ouro e coisas que, em dado momento, possam transformar em alimentos, como o dinheiro, por exemplo. A avidez por bebida não é tão costumeira como por alimento, porque os grupos humanos sempre se formaram em torno dum bom suprimento de água. Não obstante, a ingestão de álcool é quase universal; não por motivo de alguma antiga bebida, mas porque os homens procuram no álcool o calor, ou o esquecimento das mágoas - ou ainda porque a água que lhes dão não é boa para beber. 
                  A desonestidade não é tão antiga como a voracidade, isto ocorre porque a fome é mais velha que a propriedade. Os "selvagens" mais simples parecem ser os mais honestos. "Sua palavra é sagrada," eles nada sabem da corrupção, da má conduta e da má fé que reina em todo o mundo civilizado. 
            À medida em que as comunicações locais e mundiais melhoraram, a ingênua honestidade dos primitivos povos africanos simplesmente desapareceu; o mundo dito "civilizado" lhes ensinou a arte da má fé. 
                       A desonestidade emergiu, no mundo todo, com a civilização, porque nesta há mais lugar para a "diplomacia", mais coisas para roubar - e a educação torna os homens mais hábeis. Quando a propriedade se desenvolveu entre os primitivos, a mentira e o furto entraram em cena. 
                   Os crimes com violência são tão velhos como a voracidade. A luta por alimento, por terras ou companheiras mais belas e interessantes, sempre foram motivos suficientes para ensopar o planeta de sangue; até hoje a nossa débil educação ou civilização não foi instrumento capaz  de suprimir da sociedade essa estranha forma de viver socialmente. O homem primitivo era cruel porque tinha de ser assim para sobreviver aos constantes perigos. Matar, roubar, destruir já estava incutido em sua natureza individual. A mais negra página da antropologia é a história da tortura primitiva, e do prazer que causava a dor alheia.  Muito desta crueldade estava associada à guerra; dentro da tribo, mesmo os homens mais violentos revelavam-se menos ferozes, e tratavam uns aos outros com certa civilidade e bondade. Mas desde que estivessem na guerra tinham de matar vigorosamente, aprendiam também a matar a paz; porque, para na mentalidade primitiva, nenhuma disputa chega ao fim antes que um dos disputantes caia morto. Entre muitas tribos o homicídio causava menos horror do que causa hoje a nós. Os fueguinos castigavam o homicida com o exílio até que seus companheiros de tribo ou clã esquecessem o crime. Os cafores consideravam o assassino "sujo", e obrigavam-no a andar com a cara preta de carvão para sempre ser reconhecido; mas depois de algum tempo, se ele se lavava, era novamente recebido na sociedade. Os selvagens de Futuna (como também na América) , olhavam para o homicida como para um herói. Em várias tribos nenhuma mulher se casava com homem que já não houvesse matado outro; daí a prática da "caça às cabeças", que ainda sobrevive nas Filipinas. Os que caçavam maior número de cabeças tinham preferência na escolha das melhores moças da tribo; estas se mostravam ansiosas dos seus favores, sentindo que com tal marido podiam tornar-se mães de filhos valentes. No nosso mundo "civilizado" quem tem mais dinheiro, ou patrimônio - mesmo que seja roubado - tem a preferência e admiração.   
                   Onde o alimento é escasso a vida perde seu valor. Os filhos dos esquimós, ainda hoje, matam os pais quando estes ficam velhos e inúteis; quando o filho não faz isso é considerado descumpridor do dever filial. A própria vida do homem primitivo não tinha valor para os demais; matava-se com muita facilidade. Isso, ao que podemos perceber, volta a acontecer nos dias atuais.
                  Os japoneses são considerado homens honrados e,por vergonha muitos se matam. Se um homem ofendido por outro mata-se ou mutila-se, o ofensor tem que fazer o mesmo ou tornar-se um pária; muito velho é o "haraquirí". Qualquer pretexto justifica o suicídio; algumas índias norte-americanas matavam-se quando seus homens as ralhavam;  conta-se que um jovem nativo da ilha de Trobriand suicidou-se porque a mulher gastou todo o seu fumo.
                 Transformar voracidade em poupança, violência em argumento, matança em litigio e suicídio em filosofia, constitui uma das tarefas da civilização. O fato de consentir o forte em roubar ou tirar do fraco de acordo com a lei representa, para alguns, um grande progresso. Nenhuma sociedade pode sobreviver, se permite que os seus membros se conduzam, em relação aos outros, como se comportam com os membros dos grupos inimigos; a cooperação interna é a primeira lei da competição externa. A luta pela existência não termina com o auxílio mutuo; mas incorpora-se, transfere-se ao grupo. A capacidade de competir com grupos rivais será proporcional à capacidade de se combinarem os indivíduos e famílias entre si. Daí o fato de cada sociedade incutir um código moral e de introduzir no coração do indivíduo disposições sociais mitigadoras do furor da luta pela vida; a sociedade encoraja-o, considerando virtudes, as qualidades individuais que redundam em vantagens para o grupo, e deixam de estimular as qualidades contrárias  - que passam a ser vícios. Deste modo, o indivíduo se socializa de fora para dentro, e o animal se faz cidadão. 
               Foi menos difícil gerar sentimentos sociais na alma do "selvagem" do que é elevá-los no coração do homem moderno. A luta pela vida alenta o comunalismo, mas a luta pela propriedade intensifica o individualismo. O homem primitivo foi talvez mais pronto no cooperar com os seus companheiros do que o faz o homem moderno; a solidariedade social ganhou-o mais facilmente desde que ele tinha mais interesse e perigos em comum com o grupo, e menos posses para separá-lo do resto. O homem natural foi voraz e violento; mas também bondoso e generoso, pronto a compartilhar com estranhos o que tinha, e a presentear seus hospedes. Todos sabemos que a hospitalidade primitiva chegava ao ponto de oferecer ao hospede a esposa ou uma filha para passar a noite juntos. A recusa de tal oferta constituía ofensa grave, não só para o hospedeiro como para a mulher dele; foram estes os maiores perigos com que se defrontaram os missionários. Muitas vezes o mau tratamento dado aos hospedes originava-se destas recusas. O homem primitivo tinha senso  de propriedade, mas nenhum ciúme sexual; não se perturbava com o fato de sua mulher ter tido relações sexuais com outros homens antes do casamento, ou de dormir com seus hospedes; mas, como dono dela, não tolerava copulasse com outro homem sem o seu consentimento. 
               As regras da cortesia eram, em muitos povos, bastante complexas, ou tão complexas como nas nações mais adiantadas. Cada grupo tinha modos especiais de saudar e dizer adeus. Dois indivíduos ao se encontrarem esfregavam-se os narizes, ou cheiravam-se, ou mordiam-se amavelmente; mas desconheciam o nosso beijo, beijo civilizado. Algumas tribos mostravam-se mais polidas que a média dos homens modernos; os dyaks, caçadores de cabeças, eram amáveis e pacíficos na vida do lar, e os índios da América Central consideravam o falar alto e os modos brutos do homem branco como sinais de má educação. 
                Quase todos os grupos concordavam em ter os demais grupos como inferiores a si próprios. Os índios americanos olhavam-se como o povo eleito, especialmente criados pelo "Grande espírito" como exemplo para o gênero humano. Uma tribo se chamava si mesma "Os Homens Únicos"; outra "Os Homens  dos Homens"; e os índios caribios diziam: "Só nós somos gente". Os esquimós acreditavam que os europeus iam à Groenlândia para aprender boas maneiras e virtudes.  Consequentemente, raro ocorria ao homem primitivo estender a outros grupos as restrições morais em vigor no seu; francamente admitia que a função da moral era fortalecer o seu grupo contra os outros. Mandamentos e  tabus aplicavam-se só aos da tribo; com os outros, exceto quando hospedes, era permitido agir à vontade de cada um.  Mas quando olhamos para o nosso "mundo civilizado" só vemos opressão ou tentativa de opressão entre os povos de diferentes culturas.
                 O progresso moral na história não está tanto no melhoramento do código moral como no alargamento da área em que ele é aplicado. As morais dos homens modernos não são superiores às dos primitivos, embora os dois grupos de códigos defiram consideravelmente no conteúdo, na prática e no emprego; mas as morais modernas são, em tempos de paz e normalidade, estendidas - embora com menos intensidade - a muito maior número de criaturas do que antes; embora o alcance do código moral tenha diminuído muito depois da Idade Média, em consequência do surto do nacionalismo. 
                À medida em que as tribos se reuniram em unidades mais amplas, denominadas estados, a moralidade extravasou dos limites tribais; e à medida que as comunicações permitiram reunir e assinalar estados, as morais atravessaram as fronteiras e começaram a aplicar seus mandamentos a todos os europeus, americanos e demais povos chamados brancos e,  por fim, a todos os homens do planeta. 
                   Talvez sempre tenha havido idealistas desejosos de estender o amor a todos os homens, e talvez em cada geração se ergam vozes, clamadoras no deserto, contra o nacionalismo e a guerra. O número desses homens provavelmente tenha crescido. Não há moral na diplomacia e se existe ética no comércio internacional é simplesmente porque semelhante atividade não pode viver sem umas tantas restrições, regulamentações - e sem a confiança. 
                   O comércio surge com a pirataria e culmina em moralidade. Poucas sociedade se contentam de repousar a sua moral sobre bases econômicas e utilitárias. Porque o indivíduo não é por natureza dotado de nenhuma disposição para subordinar os interesse s particulares aos do grupo, ou para obedecer a irritantes regulações que não vê apoiadas na força. A fim de dar à moral um invisível "compelidor" e fortalecer os impulsos sociais contra os impulsos individualistas por meio de compreensão abstrata, as sociedades utilizam-se das religiões. O antigo geógrafo "Estrabão" expressou ideias muito adiantadas a este respeito, ha dois mil anos. Disse ele: 
"No lidar com uma multidão de mulheres, ou com uma massa promíscua, o filósofo não consegue influenciá-las pela razão, exortando-as à reverência, à piedade, à fé; não; faz-se necessário o medo religioso, e este medo não pode ser criado sem mitos e maravilhas. Porque trovões, escudos, tridentes, archotes, cobras, lanças, tirsos - (armas dos deuses) - são mitos, e isto em toda a velha mitologia.  Mas os fundadores de estados deram sua sanção a essas coisas, como a papões que amedrontam os espíritos simples. E como esta é a natureza da mitologia, e como ela tem seu lugar no plano da vida social bem como na história dos fatos reais, os antigos agarravam-se aos seus sistemas de educação de crianças e aplicavam-nos aos homens de idade madura; e por meio da poesia supunham poder satisfatoriamente disciplinar todos os períodos da vida. Mas agora, depois de longo tempo, a escrita da história e da filosofia vieram para frente. A filosofia, entretanto, é coisa para poucos, ao passo que a poesia é própria para as massas."
               As morais, portanto, passaram a ser apoiadas pelas sanções religiosas, porque o mistério e o sobrenatural fornecem um suporte que por si mesmas não possuem as coisas empiricamente conhecidas e geneticamente compreendidas; os homens são mais facilmente governados pela imaginação do que pela ciência. Mas seria essa utilidade moral a fonte ou a origem da religião? 
Nicéas Romeo Zanchett 

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

O MAIS BELO POEMA DE CHARLES CHAPLIN


Quando comecei a amar-me 
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Em 16 de Abril de 1959, Charles Chaplin completou 70 anos. Com tanta experiência de vida, num momento de profunda reflexão e inspiração, ele escreveu este lindo poema. 
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Quando comecei a amar-me,
 eu entendi que em qualquer momento da vida, estou sempre no lugar e certo na hora certa.
Compreendi que tudo o que acontece está correto. 
Desde então, eu fiquei mais calmo. 
Hoje  sei que isso se chama CONFIANÇA. 
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Quando comecei a amar-me, 
entendi o quanto pode ofender alguém
quando eu tento impor a minha vontade sobre esta pessoa, 
mesmo sabendo que não é o momento certo e a pessoa não está preparada para isso, 
e que, muitas vezes, essa pessoa era eu mesmo. 
Hoje sei que isto significa DESAPEGO.
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Quando comecei a amar-me 
eu pude compreender que dor emocional e tristeza são apenas avisos para que eu não viva contra minha própria verdade. 
Hoje sei que a isso se dá o nome de AUTENTICIDADE.
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Quando comecei amar-me, 
eu parei de ansiar por outra vida e percebi que tudo ao meu redor é um convite ao crescimento.
Hoje eu sei que isso se chama MATURIDADE.
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Quando comecei a amar-me,
 parei de privar-me do meu tempo livre 
e parei de traçar magníficos projetos para o futuro. 
Hoje eu faço apenas o que é diversão e alegria para mim, 
o que eu amo e o que deixa meu coração contente, 
do meu jeito e no meu tempo. 
Hoje eu sei que isso de chama HONESTIDADE.
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Quando comecei a amar-me, 
tratei de fugir de tudo o que não é saudável para mim, 
de alimentos, coisas, pessoas, situações
 e de tudo que me puxava para baixo e para longe de mim mesmo. 
No início, pensava ser "egoísmo saudável", 
 hoje sei que trata-se de AMOR PRÓPRIO. 
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Quando comecei a amar-me 
parei de querer ter sempre razão. 
Dessa forma, cometi menos enganos. 
hoje eu reconheço que isso se chama HUMANIDADE.
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Quando comecei a amar-me, 
recusei-me a viver no passado
e preocupar-me com o meu futuro. 
Agora vivo somente este momento onde tudo acontece. 
Assim que eu vivo todos os dias 
hoje eu sei que isto se chama CONSCIÊNCIA. 
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Quando comecei a amar-me, 
reconheci que meus pensamentos pode me fazer feliz e doente.
Quando eu precisei da minha força interior, 
minha mente encontrou um importante parceiro. 
hoje eu chamo esta conexão de SABEDORIA DO CORAÇÃO.
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Não preciso mais temer discussões, 
conflitos e problemas comigo mesmo e com os outros. 
pois até as estrelas às vezes chocam-se umas contra as outras
e criam novos mundos. 
hoje eu sei que isso é a VIDA. 
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Pesquisa e postagem: Nicéas Romeo Zanchett 




quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O CIDADÃO DE UMA DEMOCRACIA - Discurso de Teodoro Roosevelt


O PAPEL INDIVIDUAL DO CIDADÃO
Este discurso foi pronunciado na Universidade de Paris em 1910. 
               Hoje ocupar-me-hei do papel individual do cidadão, assunto que entre todos é de uma importância capital para vós, meus auditores, para os meus compatriotas e para mim, porque vós e nós somos cidadãos de grandes repúblicas democráticas. Uma republica democrática  como cada uma das nossas - que faz esforço para realizar, com toda a força da expressão, um governo do povo pelo povo, e para o povo, - representa a mais gigantesca de todas as experiências sociais possíveis, aquela que, por muitos motivos, tem o dom de conduzir ao maior dos bens ou ao pior dos males. 
               O sucesso ou o insucesso de republicas como a vossa  ou como a nossa, é o triunfo ou a desgraça da humanidade; e para vós como para nós, a questão da qualidade do cidadão considerado como indivíduo, domina todas as outras. Sob outras formas de governo, sob o domínio de um homem ou de um reduzido número de homens, a qualidade dos governantes é a primeira de todas. Se, em tais governos o número desses últimos é suficientemente elevado, o país pode conhecer durante gerações uma carreira brilhante e aumentar a massa do que marca no mundo, por mais medíocre que possa ser o nível do cidadão ordinário; porque o cidadão ordinário é uma quantidade quase desprezível na elaboração dos resultados a que conduz este tipo de grandeza nacional. 
               Mas para vós e para nós o caso é diferente. Para vós aqui, e para nós no meu país, o sucesso resultará, no fim de contas, da maneira como o homem vulgar, a mulher vulgar cumprem o seu dever, primeiro nas situações quotidianas e habituais da vida, mais tarde na hora destas grandes crises que reclamam o concurso das virtudes heroicas.
               Afim de que as nossas republicas alcancem bom êxito é preciso que o cidadão vulgar seja nelas um bom cidadão. 
               A corrente não será capaz, em circunstâncias normais, de se elevar mais alto que a sua fonte originária, e a fonte originária da potência nacional e da grandeza nacional acha-se no valor médio do cidadão. Convém pois que nada  descuremos para que o nível do cidadão vulgar fique elevado, e este nível não pode ser elevado senão quando o dos chefes o é muito mais ainda. 
              Em todas as repúblicas, em todas as democracias acontece que uma grande proporção entre os chefes provém, muito naturalmente, das classes representadas hoje neste  auditório; mas com a condição que estas classes possuam a simpatia do povo e a dedicação a um ideal superior. Vós, e aqueles como vós, tendes gozado de vantagens especiais; tendes-vos encontrado todos em situação de receber uma educação intelectual; tendes podido, na maior parte, aproveitar a vida mais largamente do que a massa dos vossos concidadãos. A vós e àqueles que como vós muito tem sido dado; muito deve ser de vós esperado.  Ha algumas vezes certos desânimos contra os quais convém que os homens  de instrução e de cultura, os homens que herdaram uma fortuna e uma posição social, se ponham eles mesmos em guarda, porque a isso são eles os mais naturalmente inclinados ; e se eles cedem, as suas possibilidades - as vossas possibilidades - de ser uteis, ficam reduzidas a nada. 
               Que o homem de saber, que o homem de ócios letrados, se defenda da singular e mesquinha  tentação de tomar diante dos olhos e diante de si próprio atitudes de cínico, de homem que se elevou acima das emoções e das crenças, e para quem o bem e o mal é tudo a mesma coisa. A pior maneira de encarar a vida é encará-la com a zombaria nos lábios. Há muitas pessoas que tiram um orgulho doentio do seu cinismo, muitas pessoas que não sabem fazer outra coisa senão criticar a maneira como os outros realizam o que eles próprios não se arriscariam sequer a tentar. 
              Não há ser menos são; não há homem menos digno de respeito do que aquele que observa ou finge observar uma atitude de desdém irônico a respeito de tudo o que é grande e elevado, seja pelos resultados atingidos, seja pelo nobre esforço que, mesmo no caso de insucesso, vem em segundo plano, logo a seguir ao êxito pleno 
               Hábitos cínicos de pensamento e de palavra, uma constante disposição a criticar a obra que o crítico não tenha nunca executar, um intelectualismo distanciado que não seria capaz de aceitar o contato com as realidades da vida; todos esses traços são outros tantos sinais, não de superioridades, como o seu possuidor poderia julgar, mas de fraqueza... São a marca das pessoas incapazes de cumprir  como homens o seu dever na austera batalha da vida, e que procuram, afetando o desprezo pelo que os outros realizam, dissimular aos outros e a si próprios a sua própria debilidade. O papel é fácil, nenhum o é mais, salvo no entanto o do indivíduo que zomba ao mesmo tempo do crítico e do homem de ação. 
               Não é o crítico que marca; não é o indivíduo que mostra como o homem forte deu um mau passo ou como o autor de ações teria podido dá-los melhores. O crédito  pertence ao homem que desceu com a sua pessoa à arena, cujo rosto sujo da poeira, do suor e do sangue; que luta energicamente, que erra, sofre um revez, e outro ainda, porque não há esfôrço, sem acompanhamento de erro ou falta; mas que se esforça de maneira a fazer o que deve ser feito, que conhece os grandes entusiasmos, as grandes  abnegações, que se gasta por uma causa digna, que no caso de pleno sucesso conhece finalmente o triunfo da grande obra realizada, e que se acontece o pior, e sofre um novo revez, pelo menos naufraga no decurso dum vasto esforço; de tal modo que o seu lugar não será nunca ao lado destes seres tímidos e insensíveis que não conhecem nunca a vitória nem a derrota. Maldição ao homem  de gosto cultivado que deixa a sutileza de espírito produzir nele um desdém que o torna impróprio às rudes tarefas de um mundo laborioso! Entre os povos livres  que se governam por si próprios não há senão um campo de utilidade muito restrito para as pessoas de vida claustral a quem repugna o contato das outras pessoas. Há menos lugar ainda para aqueles que zombam ou depreciam a obra dos que suportam o peso da vida; ou para estes outros ainda que declaram constantemente que gostariam de se entregar à ação, se as condições da vida não fossem o que elas são. Irônico, pretensioso ou voluptuoso, todo o indivíduo incapaz de ação faz na história a mesma figura mesquinha. Nada há que fazer do indivíduo cuja alma tíbia ignora as grandes e generosas emoções, os grandes orgulhos, as crenças severas, o entusiasmo dos homens que subjugam o raio e dominam a tempestade. Felizes estes homens se conseguem vencer; menos felizes, mas felizes ainda, se sossobram, porque, pelo menos, ter-se-ão 
aventurado nobremente, com toda a sua força. É Hotspur, gasto pela guerra, esgotado pelo rude combate, Hotspur, de erros numerosos e de fim valoroso, de quem nos é grato evocar a recordação na nossa memória, e não o jovem Lord que , se não fosse estes vis canhões, teria sido soldado. 
               A França deu muitas lições  aos outros povos; seguramente uma das mais importantes é a que resulta de toda a sua história, isto é, que um alto desenvolvimento artístico e literário é compatível com uma notável mestria na ciência das armas e na do governo. O brilho da bravura do soldado francês é proverbial desde séculos, e durante estes séculos, em todas as côrtes da Europa os "franc-maçons da moda" adotaram o francês como língua comum, enquanto que todos os artistas, homens de letras e de ciência capazes de apreciar este maravilhoso instrumento de precisão que é a prosa francesa, se voltavam para a França, pedindo-lhe apoio e inspiração. Alonga duração desta superioridade nas armas e nas letras é singularmente  manifestada pelo fato que a mais antiga obra-prima que conta qualquer das línguas modernas, é a esplêndida epopeia francesa narrando a catástrofe de Rolando e a vingança de Carlos Magno, no dia em que os chefes do exército franco caíram em Roncesvales. 
              Que aqueles que tem o conservem, que aqueles que não tem se esforcem por atingir um alto grau de cultura e de instrução. Mas não esqueçamos que comparados a outros bens, estes não vem senão em segundo lugar. É preciso que o espírito seja são e o corpo mais ainda. Mas acima do espírito e acima do corpo há o caráter, aquilo em que se confundem as qualidades que nos vem  ao espírito, quando falamos a força e da coragem de um homem, da sua retidão e da sua noção de honra. Eu tenho fé nos exercícios físicos, contanto, bem entendido, que não esqueçamos que o desenvolvimento físico é um meio e não um fim. 
              Estou convencido, evidentemente, que uma boa educação deve compreender, além do saber tirado dos livos, muitos elementos para ser verdadeiramente boa. Não devemos esquecer que nenhuma acuidade  ou sutileza de inteligência, nenhuma delicadeza de maneiras, nenhuma habilidade poderia compensar a falta das grandes qualidades fundamentais. O domínio de si mesmo, o poder de constranger, o senso comum, a faculdade de aceitar a responsabilidade individual e no entanto proceder de colaboração com os outros, a coragem e a resolução; eis as qualidades pelas quais se reconhece um povo soberano. Sem elas nenhum povo se pode reger a si mesmo, nem a si mesmo evitar que seja regido de fora. 
               Eu dirijo-me a um auditório brilhante, falo no recinto  de uma grande universidade que representa a flor do mais alto desenvolvimento intelectual, Diante da inteligência  e diante de ensinamentos especiais e aperfeiçoados que recebe aqui a inteligência, eu me inclino. E não obstante isso tudo, eu sei que terei o assentimento  de todos vós que me escutais, se  acrescentar que de maior importância ainda são as qualidades comuns e as virtudes de todos os dias. 
                Estas qualidades comuns e de todos os dias compreendem a vontade e o poder de trabalhar, de combater se for preciso, e de ter muitos filhos saudáveis, A necessidade para o homem médio de trabalhar é tão evidente que não é preciso insistir nela. Em qualquer país há poucas pessoas nascida em tais circunstâncias que possam levar vida de qualidade. 
                 Estas mesmas podem desempenhar um papel útil se mostrarem, pelo seu exemplo, que a ausência  dum modo de vida não é sinônimo de ociosidade; porque uma parte do trabalho mais preciso de que a civilização tem necessidade não assegura nenhuma retribuição à queles  que a ele se dedicam, e é preciso naturalmente que eles sejam primeiramente tirados dos meios onde vivem os que não precisam se preocupar com as questões de retribuição. 
                Mas o homem médio deve ganhar sua vida. Deve ser educado com este objetivo e educado de maneira a compreender que fica numa situação digna de desprezo, se proceder de outra forma; que não é objeto de inveja se foram ocioso, qualquer que seja o grau de escala social que ocupe, mas um objeto de desdem, um objeto ridículo.

OS DEVERES PARA COM A NAÇÃO 
               O home de bem, por outro lado, deve ser forte e destemido, isto é, capaz de combater, de servir o seu país como soldado se se apresentar a ocasião. Há filósofos de boas intenções que declamam contra a iniquidade da guerra. Tem razão contanto que seja somente contra a iniquidade que eles insistem. A guerra, é uma coisa horrível, e uma guerra injusta é um crime contra a humanidade, mas é  um crime porque é injusta e não porque é guerra. A escola deve ser sempre a favor do direito, quer a alternativa seja a paz ou a guerra. A questão não deve ser simplesmente: Vai haver paz ou a guerra? A questão deve ser: o bom direito deve prevalecer? As leis da justiça serão mais uma vez observadas? E a resposta de um povo forte e viril será: "Sim. seja qual for o risco." Nenhum esforço honroso deve nunca ser omitido para evitar a guerra, da mesma maneira que nenhum esforço honroso nunca deve ser omitido pelo indivíduo, na vida privada, para evitar uma questão e conservar-se afastado de disputas; mas nenhum indivíduo que se respeita, nenhuma nação que se respeita, devem submeter-se à injustiça. 
                Enfim, de maior importância ainda que a capacidade de trabalho, de maior importância que a capacidade de combater se for preciso, é, para todas as nações a lembrança de que nenhuma vantagem é comparável para ela, há de deixar herdeiros do seu sangue para ocupar a sua terra. 
                Era a benção suprema nos tempos bíblicos e é-o ainda hoje. O pior de todos os flagelos é o flagelo da esterilidade, e as mais rigorosas de todas as condenações devem perseguir a esterilidade voluntária. A mais essencial de todas as necessidades, em qualquer civilização, é que o homem e a mulher sejam pai e mãe de filhos robustos, de maneira que a raça cresça em lugar de decrescer. Se não acontece assim, se sem nenhuma culpa da sociedade, falta o aumento de população, é uma grande desgraça. Se esta falta é de vida a causas calculadas e voluntárias, não é então simplesmente uma desgraça, é um destes crimes de relaxação, de egoísmo, de temor pelas dificuldades, pelo esfôrço e pelo risco, que, com o tempo, a natureza pune mais duramente do que nenhum outro. Se nós, homens de grandes repúblicas; se nós, nações livres, que nos lisonjeamos por nos termos emancipado do jugo da injustiça e do erro, atraímos sobre as nossas cabeças a maldição que fere a esterilidade voluntária, será para nós o mais vão gasto de palavras vangloriar-mo-nos dos nossos altos feitos, e celebramos as obras que temos realizado. Nenhum refinamento de vida, nenhuma delicadeza de gosto, nenhum progresso material, nenhum amontoado sórdido de riquezas, nenhum desenvolvimento encantador da arte e das letras pode,a qualquer respeito, compensar a perda das virtudes fundamentais, e destas virtudes fundamentais a maior é o poder da raça de se perpetuar. 
                O caráter deve transparecer da maneira como o homem cumpre o seu dever para consigo mesmo, e seu dever para com o Estado. O primeiro dever do homem diz respeito a ele e à sua família, e não pode cumpri-lo senão ganhando a sua vida e fornecendo aos seus o indispensável para o  bem estar material; é somente depois que pode esperar construir sobre sólida fundação material  uma alta superestrutura; é somente depois que ele pode ajudar  aos movimentos para o bem geral. Deve encarregar-se, em primeiro lugar, do seu próprio fardo, e só depois disso , o excedente da sua força poderá servir para o conjunto do público. não há nenhum proveito em provocar este riso amargo que significa desprezo, e o desprezo é o que nós experimentamos para com o indivíduo cujo entusiasmo em socorrer a humanidade é tal, que se torna pesado aos outros;que entende fazer grandes coisas pela humanidade em geral, mas é incapaz de assegurar o conforto da sua mulher e a educação dos seus filhos. 
                 Não obstante isto, e dando toda a importância a este ponto, e não somente constatando, mas insistindo no fato de que deve haver, para o indivíduo e para a nação, uma base de bem estar material, insistamos não menos fortemente sobre este outro ponto que o bem estar material não é mais do que uma fundação, e que a fundação, ainda que indispensável, não adquire o seu valor senão quando se lhe constrói em cima a superestrutura de uma vida mais alta. É por este motivo que eu me recuso a reconhecer o multimilionário, considerado em mesmo, o homem que não é senão riqueza, como o valor no ativo de qualquer país, e especialmente do meu. Se ele ganhou ou empregou a sua riqueza de uma maneira que faz dele um homem proveitoso e útil, e é muitas vezes o caso, então, evidentemente, figura no ativo da nação. Mas é a maneira como a riqueza foi ganha e empregada, e não a riqueza por si mesma, que lhe assegura este mérito. 
                  São precisas em negócios como em quase todas as formas da atividade humana, grandes inteligências diretoras. 
                  Nenhum número de inteligências menores poderia substituir aquelas. 
                  Convém que os seus serviços sejam amplamente reconhecidos e recompensados. Mas fujamos de atribuir à recompensa a admiração que devemos ao ato recompensado; e se o que deveria ter sido uma recompensa existe sem que o serviço tenha sido prestado,  a admiração virá então apenas das pessoas de alma inferior. 
                  A verdade é que, depois que uma certa porção de sucesso ou de recompensa material foi obtida, a questão de a aumentar diminui constantemente de importância em comparação com o resto que há de fazer na vida. É mau para uma nação oferecer à vista e admirar um falso gênero de sucessos, e nenhum outro há mais falso do que supor que a divinização do bem estar material em si mesmo e por si mesmo, ofereceria um exemplo a seguir. 
                  O homem que, por qualquer motivo que lhe seja imputável, deixou de prover às suas necessidades e às das pessoas que dependem dele, deve ter presente que falhou lamentavelmente no primeiro dos seus deveres. Mas o homem que, depois de ter ultrapassado o limite do que é necessário para o corpo e o espírito de si mesmo e dos seus, amontoa uma vasta fortuna, para a aquisição ou conservação da qual ele não assegura em troca, a favor da nação, nenhuma vantagem equivalente, esse homem deveria ser forçado a compreender que longe de ser na comunidade um cidadão invejável, é um indigno; que não pode ser admirado nem invejado; que os seus compatriotas de pensamentos retos o colocam muito abaixo na escala dos cidadãos e o abandonam à admiração daqueles cujas aspirações são de um nível ainda mais baixo do que as suas. 
                 De fato, é essencial, sob o ponto de vista da boa qualidade do cidadão, que seja bem compreendido que há certos méritos que nos outros, membros duma democracia, somos levados a admirar em si mesmos e por si mesmos, quando com verdadeira justiça ser julgados dignos de admiração ou o contrário, somente segundo o uso que se faz deles.  Em primeiro lugar entre estes colocarei dois dons muito importantes: o dom de saber ganhar dinheiro e o dom oratório. Do primeiro, do ganho material já falei. 
                 É uma qualidade que, restrita a limites modestos, é essencial. 
                 Também pode ser útil elevada a um alto grau, mas somente quando for acompanhada por outras qualidades; e sem o predomínio destas últimas, aquele que a possui tende a tornar-se um os menos simpáticos que uma democracia moderna pode possuir. 
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BREVE BIOGRAFIA DE Teodoro Roosevelt
             Teodoro Roosevelt, escritor e estadista norte-americano, nasceu em Nova York a 27 de Outubro de 1858 e faleceu em 06 de Janeiro de 1919. Tomou parte na assembléia do Estado Republicano de Nova York (1882 x 1884); em 1886 viu derrotada a sua candidatura à Governador do Estado de Nova York; de 1880 a 1895 foi comissário do serviço civil dos Estados Unidos; de 1895 a 1897 exerceu a presidência do Conselho Superior de Comissários de Polícia; de 1897 a 1898 foi Secretário-Suplente da Marinha. Tenent coronel do primeiro regimento voluntário de Cavalaria  (Rough Riders), combateu em Guasimas a 24 de Junho de 1898 e em São João a 1 de Julho daquele ano, sendo promovido coronel em 8 de Julho do mesmo ano. Eleito finalmente Governador de Nova York em Novembro de 1898 e vice-presidente dos Estados Unidos  em 1900; e pela morte do presidente Mac Kinley, assumiu a presidência em 1901.  Em 1904 foi eleito para continuar na presidência por mais quatro ano, recudando-se a se recandidatar em 1908. Entre outras obras escreveu: A Guerra Negra de 1912 e as Notas de Tomás H. Benton e do Gouverneur Morris. 
Nicéas Romeo Zanchett