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sábado, 24 de agosto de 2013

A VIDA DE CAMÕES - Por Nicéas Romeo Zanchett


A VIDA DE CAMÕES 
Por Nicéas Romeo Zanchett
                 Ninguém sabe ao certo onde ele nasceu, nem a data exata; os historiadores dizem apenas que foi no ano de 1542. Se ele tivesse sido um português comum, ninguém estaria preocupado com isso. Mas ele é, e tudo indica que sempre será, o maior poeta português de todos os tempos. 
                  Lisboa reivindica para si, dizendo-se o berço natal do grande poeta. O mesmo fazem Coimbra, Alenquer e Santarém. Cada uma dessas cidades lusitanas quer para si a glória de ser a terra de nascimento do cantor dos "Lusíadas". 
                  Quando ainda era menino, morava na capital do reino. Seus pais, pertencentes a uma nobre família galiciana, estavam estabelecidos em Lisboa. Ali passou a infância e na juventude foi para Coimbra, onde funcionava, havia muito tempo, a célebre Universidade, um dos grandes núcleos do Velho Mundo.  Naquela irriquieta "cidade dos estudantes", também estudou. Foi ali que fez seu curso de humanidades. 
                  Luiz de Camões era um moço elegante, forte, rijo, com belo rosto e brilhante inteligência. 
                  Ainda em seu inicio estudantil, já compunha primorosas poesias. Sabia se expressar muito bem, falando com desenvoltura e arrojo. Era muito hábil em medir os versos e sonorizar as rimas com vigor e arte. Como sempre acontecia, além de admirado era invejado. Tinha amigos sinceros, amigos fingidos e inimigos declarados, que, não raro, o provocavam. Como o jovem poeta não era de levar desaforos para casa, sempre se metia, mesmo sem querer, em rixas e pugilatos.  
                  Depois de ter completados os estudos em Coimbra, voltou a residir com sua família em Lisboa.
                  Portugal estava sob o reinado de D.João III, filho de D. Manuel, "O Venturoso".  A Corte desse monarca resplandecia de luxo e riqueza. Por ser um nobre homem de letras, teve logo entrada nos esplendorosos serões do palácio real, entre outros nobres e damas da mais alta hierarquia. 
                  No paço de D. João III cultivava-se a arte com decididos ardores. A poesia, principalmente, era acolhida com entusiasmo, que a própria época - a Renascença - acendia na alma da gente culta. 
                  Nesses elegantes saraus palacianos, tocava-se música, havia representações, recitavam-se poemas e sonetos. 
                  A figura esbelta e vigorosa de Luis de Camões tinha realce entre aqueles nobres cortesões. Seu talento era ofuscante. Sua coragem extrema e suas maneiras viris atraiam as atenções, criando amigos,  admiradores e inimigos invejosos.  Recitava suas composições com sabedoria e graça. 
                  Naquele ambiente luxuoso conheceu uma linda moça, Catarina de Ataíde, que apaixonou-se por ele.  Ele também apaixonou-se por Catarina, mas por inveja, foi caluniado e incompreendido,  a ponto da família dela opor-se ao seu casamento. 
                  Enojado com as intrigas da Corte, as hipocrisias e maldades que se tramavam nos salões e corredores do paço, Camões abandonou os saraus de arte, afastou-se das luxuosas reuniões, não frequentando mais o palácio de D.João III. Apesar disso sua amada Catarina continuava fiel e esperançosa. 
                  Foi justamente naquele momento que surgiu a guerra na Africa entre lusos e mouros. Em Lisboa abre-se o voluntariado.  Camões, desiludido com a vida que levava, alista-se marcha para o continente Africano. Seu pai o acompanhou nessa aventura incerta. 
                  Na África, Luiz e seu pai lutam lado a lado. Ali travava-se uma batalha horrível. Nos turbilhões do embate, entre espadas, lanças, azagaias e cimitarras, que soltam faíscas, cortam, furam e decepam. Setas mouriscas, muitas envenenadas, riscavam os céus  e uma delas dirigia-se ao peito do seu progenitor. Camões, em sadio impulso de amor filial, antepõe o escudo. A seta ricocheteia e lhe vasa um olho. Assim foi que perdeu uma vista, mas seu pai saiu sem nenhum ferimento. 
                     Em 1549, Camões vota a Lisboa.  Continua a escrever poesias, mas já não tem os mesmo júbilos de antes, pois a visão defeituosa e a desesperança de casar-se com Catarina, o tornam recolhido e melancólico. 
                     Sentindo necessidade de alguma distração, é visto frequentemente passeando sozinho pelas ruas de Lisboa. 
                     Nesse tempo, como ainda hoje, havia em Lisboa do dia do Corpo de Deus (Corpus Christi), que se comemoravam em grandiosa procissão. 
                     Numa dessas manifestações de fé, quando ia em meio à procissão, trava-se uma forte rixa entre lacaios de um fidalgo e os do coche do rei. Luiz de Camões presencia a rixa a certa distância. Mas, vendo que a razão estava do lado dos lacaios do fidalgo, desembainha sua espada (que como nobre tinha o direito de usar) e fere com ela um lacaio real. Embora fosse um "gentil-homem" e tivesse agido com justiça, apesar de violenta, foi detido, e dias depois condenado. 
                    Na escuridão de uma infecta masmorra, põe-se a ler a Primeira Década do historiador João de Barros, seu contemporâneo, obra em que são narrados  os feito militares  dos portugueses nas terras do Oriente. Foi ai que despertou em seu espírito a ideia de escrever, a respeito, um poema épico sobre esses sucessos e que daria o nome de "Lusíadas". 
                    Assim começa, na prisão, a escrever os seus extraordinários versos. Não pode, porém prosseguir na obra sem conhecer os lugares que serviram de teatro aos heroicos feitos lusitanos. As imagens escritas por João de Barros fervilhavam em sua imaginação. 
                    Tão logo saiu da prisão, em 1553, embarcou cheio de esperanças e  idéias para a Índia, aportando em Goa. Nessa possessão portuguesa, Camões, que tomara parte nas lutas contra os inimigos de Portugal, é mal visto pelos nativos que costumavam hostilizar os colonizadores lusitanos. 
                     Mesmo com alguma dificuldade, retoma sua produção poética e escreve a peça "Filodemo",  para ser levada à cena nas festas da posse de D. Francisco Barreto no cargo de Governador da Índia Portuguesa. 
                     Em 1558, Camões é nomeado para um cargo oficial - o de provedor mor de defuntos e ausentes - para a remota colônia de Macau, colônia portuguesa encravada na China. 
                     Foi em Macau que teve tempo para escrever mais assiduamente. Todas as tardes, após o trabalho, recolhia-se a uma gruta (a Gruta de Camões - como passou a chamar-se depois) e ali passava para o papel os vigorosos e empolgantes versos do seu extenso poema, a sua obra prima e máxima da língua portuguesa. 
                     Mas, o brilho de sua inteligência não tardou a despertar inveja e maldade; a calunia o perseguia.  Foi injustamente denunciado de apropriar-se do dinheiro do povo. 
                     Diante dessa injustiça, e para defender-se da acusação, embarca sem perda de tempo para Goa. Mas, ao chegar à Indo-China, junto ao rio Cambodja, sua embarcação sofria com o mar agitado e ondulado acabando por naufragar. 
                     Sem perder tempo, Luiz pegou os originais de seu poema  atirando-se ao mar revolto; com a mão esquerda  segurava sua obra acima das águas agitadas e com a direita dava braçadas, e assim foi nadando até a praia. 
                     Com sua obstinação e coragem salvou sua obra prima, "Lusíadas",   que o tornou conhecido como o maior poeta português. 
Nicéas Romeo Zanchett 
               



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