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quarta-feira, 17 de julho de 2019

A LEI, OS NEGÓCIOS E O CÓDIGO DE HAMURÁBI

                   A Babilônia tinha um bem desenvolvido sistema de finanças. Não tinham moeda cunhada, mas ainda antes de Hamurábi usavam, além do trigo e da cevada, lingotes de ouro e prata como padrões de valor e instrumentos de troca. O metal era pesado em cada transação. A menor unidade monetária consistia no shekel - meia onça de prata no valor de dois e meio a cinco dólares de hoje. Empréstimos eram feitos em mercadorias em metal como garantia e a altos juros, fixados pelo estado em 20% anuais para aqueles cuja garantia eram os metais e 33% para os em mercadorias; Cabia aos escribas a tarefa de enganar a lei e conseguir taxas mais altas. Não havia bancos; mas cestas famílias poderosas, entretanto, dedicavam-se tradicionalmente ao negócio de emprestar dinheiro; também negociavam com terras e empresas industriais; e as pessoas que tinham fundos em depósito com tal gente pagavam suas obrigações por meio de saques escritos. Também os sacerdotes emprestavam dinheiro, sobretudo para custeio da lavoura. Ocasionalmente a lei tomava o partido do devedor; se um camponês hipotecava suas terras e as via sem colheita por força de temporais ou "outro ato de Deus", não era obrigado a pagar os juros daquele ano. Mas quase sempre formulavam-se as leis com os olhos na propriedade, para garanti-la da melhor maneira; era princípio estabelecido na Babilônia que ninguém tinha o direito de tomar dinheiro sem por ele responsabilizar-se de maneira absoluta; o credor, portanto, podia escravizar o devedor, ou o seu filho, até que o débito fosse saldado, mas não por mais de três anos. A praga da usura assolou a indústria da Babilônia, como nos acontece hoje. 
           Era uma civilização essencialmente comercial. A maior parte dos documentos sobreviventes é de caráter comercial - vendas, empréstimos, contratos, sociedades, comissões, permutas, doações e legados, acordos, notas promissórias, etc. Nestas tabletas encontramos abundante prova da riqueza babilônica e um certo espírito materialista que, como em civilizações posteriores, conciliava a ganância com a piedade. Vemos na literatura muitos sinais de vida m ocupada e prospera, mas também, a cada passo, reminiscências de escravidão abaixo de todas as culturas. Os mais interessantes contratos de venda são os relacionados a escravos. Eram recrutados entre os prisioneiros de guerra, ou os apresados pelos beduínos errantes em suas incursões pelos estados próximos, e também produzidos pelo entusiasmo reprodutor dos próprios escravos. A maior parte do trabalho físico urbano era feito por eles, e também o serviço doméstico. As escravas viviam completamente à mercê de seus compradores, e tinham de os sustentar; estava subentendido que o senhor podia extrair delas a prole que quisesse, e as que não eram tratadas assim se sentiam desonradas. O escravo, com tudo que dele fosse, pertencia ao senhor; podia ser vendido ou empenhado por dívida; podia ser morto, se o senhor o achasse conveniente; se fugia, a ninguém era dado acoitá-lo, e havia recompensa para quem o capturasse. Do mesmo modo que o camponês livre, era o escravo sujeito ao serviço militar e aos trabalhos públicos forçados.  Em compensação o senhor pagava-lhe a conta do médico e conservava-o na doença, no desemprego e na velhice. Podia o escravo casar-se com mulher livre e nesse caso seus filhos nasciam livres; e ao morrer,  metade de suas propriedades iam para a sua família.  Podia ser posto em negócio autônomo, recebendo parte dos lucros, com os quais lhe era permitido resgatar-se; ou o senhor o alforriava por motivos de gratidão. Bem poucos tinham tal sorte. A grande massa se consolava com a reprodução, até se tornarem mais numerosos que os livres. Uma grande classe escrava movia-se subterraneamente e em ascensão, nos alicerces do estado babilônico.
                   Tal sociedade, sem dúvida, nunca cogitou alguma espécie de democracia; seu caráter econômico impunha uma monarquia sustentada pela riqueza mercantil e pelo privilégio feudal, e protegida por uma judiciosa distribuição da violência da lei. A aristocracia territorial, gradualmente deslocava pela plutocracia comercial, ajudou a manter o controle da sociedade e serviu como intermediaria entre o povo e o rei. O rei transmitia o trono a qualquer dos seus filhos, de modo que todos se consideravam pretendentes e mantinham claques de sectários empenhados em seu acesso. Dentro dos limites deste governo arbitrário a administração era conduzida pelos senhores e prepostos nomeados pelo rei. Tais homens recebiam conselho  e eram fiscalizados por assembleias provinciais de velhos ou notáveis, que procuravam manter, mesmo sob a dominação assíria, uma orgulhosa autonomia local. 
                  Cada administrador, e comumente o próprio soberano, reconhecia a autoridade do grande corpo de leis que lhes fora dado por Hamurábi e que, através de quinze séculos, apesar das mudanças, se manteve nas linhas essenciais.  O desenvolvimento legal era da sanção sobrenatural para a secular, da severidade para a leniência, e dos castigos corporais para as multas. Nos primeiros tempos esteve em uso o apelo aos deuses por meio do ordálio. O homem acusado de feitiçaria ou a mulher acusada de adultério tinham de lançar-se ao rio; se se salvavam, eram inocentes, e os deuses se punham sempre do lado dos bons nadadores. Se a mulher emergia viva, era inocente; se o "feiticeiro"morria afogado, o acusador herdava os seus bens; em caso reverso, era ele quem recebia os bens do acusador. Os primeiros juízes foram os "sacerdotes", e até o fim da história babilônica os tribunais se reuniam nos templos; mas já nos dias de Hamurábi se haviam tornado seculares e só responsáveis perante o governo.
               A penalidade começou com a Lex-talionis - ou a lei da equivalente retaliação. Se um homem quebrava um dente ou uma perna de outro, também lhe quebravam o mesmo dente e a mesma perna. Se uma casa saia e matava o comprador, o arquiteto tinha de morrer; se o acidente matava o filho do comprador, o filho do arquiteto tinha de morrer; se um homem ofendia uma rapariga ou a matava, sua filha tinha de passar pelo mesmo. Gradualmente essas punições foram sendo substituídas por multas e pagamentos de danos; um pagamento em dinheiro liberava o culpado da pena de talião. Assim, um olho podia ser esmurrado por sessenta sikels de prata, e o de um escravo pela metade disso. Porque as penas variavam não só com a gravidade do delito como ainda com a importância do ofensor e da vítima. Um membro da aristocracia era sujeito a penas mais severas do que as recaídas sobre o homem do povo, mas a ofensa a um aristocrata custava muito caro. O plebeu que feria outro plebeu pagava dez sikels; a mesma ofensa num nobre custava-lhe seus vezes mais. Disso passou a lei às bárbaras penas de amputação e morte. O filho que batia no pai tinha as mãos cortadas; o doutor cujo doente morria ou perdia um olho na operação, tinha os dedos cortados; a ama que substituía uma criança por outra,  perdia os seios. A morte era a pena para grande número de crimes: violência carnal, rapto, banditismo, roubo, incesto, morte do marido pela mulher para casar-se com outro, abertura da taverna, ou mesmo a entrada de uma sacerdotisa em taverna, acoitamento de escravo fugitivo, covardia nas batalhas, malfeitoria nos cargos, desleixo e esbanjamento caseiro, etc. Com esses bárbaros processos, através de milhares de anos, aquelas tradições hábitos de ordem e continência foram estabelecidos de modo a se tornarem base inconsciente da civilização. 
                 Dentro de certos limites o estado regulava os preços, salários e honorários. O que o médico podia cobrar estava previsto na lei; e no código de Hamurábi foram fixados salários para construtores, alfaiates, pedreiros, carpinteiros, barqueiros, pastores e trabalhadores agrícolas. Os filhos herdavam, não a viúva; esta recebia o seu dote e ficava na chefia do lar enquanto vivesse. Não existia o direito de primogenitura; os filhos herdavam com igualdade, e deste modo os grandes domínios  logo se subdividiam, o que embaraçava o acúmulo da riqueza. A propriedade privada em terras e bens era assegurada pelo código. 
               Não encontramos sinais de advogados na babilônia; os "padres" serviam como notários e os escribas como redatores de tudo, madrigais ou testamentos. O queixoso defendi-ase a si mesmo, sem nenhum luxo técnico. Nada de estímulo às demandas; o primeiros artigo do código reza com muita simplicidade: "Se um homem acusa outro de crime capital e não o prova, o acusador receberá a morte". Há sinais de suborno e da manipulação de testemunhas. Uma côrte de apelação, formada pelos "Juízes do Rei ", tinha assento na cidade; a decisão suprema cabia ao rei. Nada existe no código sobre os direitos dos particulares contra o estado; isso iria ser uma inovação européia. Mas os artigos 22 e 24 asseguravam proteção econômica. "Se um homem pratica banditismo e é capturado, que seja morto.; Se não é capturado, o prejudicado pode, na presença de "deus", declarar a sua perda, e a cidade e o governador, dentro de cuja jurisdição o fato se deu, o indenizarão da perda. Se houver perda de vida, a cidade e o governador pagarão uma mina aos herdeiros". Que cidade moderna se sente bem governada a ponto de reembolsar as vítimas da negligência publica? Progrediriam as leis desde o tempo de Hamurábi ou apenas se multiplicaram? 

OS VERDADEIROS BERÇOS DA CIVILIZAÇÃO - Nicéas

                Onde começou a civilização? Se confiarmos nos geólogos, as áridas regiões da Ásia central já foram mais úmidas, temperadas e nutridas por grandes lagos. A recessão da última onda de gelo lentamente ressecou essa área, e a falta de chuvas já não permitiu ali a expansão do homem em cidades e estados. As cidades existentes foram abandonadas, à proporção que os Homens refluíam em várias direções em procura de água; semienterradas no deserto jazem ruínas como as de "Bactra", que devia ter esfervilhado de população dentro da sua área de 22 milhas de circunferência. Em 1868 uns 80.000 habitantes do Turquestão ocidental foram obrigados a emigrar; suas terras estavam sendo inundadas de areia solta. Muitos estudiosos admitem que essas regiões, hoje mortas, assistiram aos primeiros desenvolvimentos do que constitui a civilização. 
                  Em 1907 Pumpelly desenterrou em Anau, ao sul do Turquestão , vasos e outros remanescentes duma cultura possivelmente datável de 9.000 a. C e também possivelmente exagerada de quatro mil anos.  Cultivavam-se os cereais, usava-se o cobre, domesticavam-se animais e ornavam-se os vasos em estilo que sugere muita tradição anterior. Aparentemente a cultura do Turquestão já era velha em 5.000 a.C. Talvez possuísse historiadores que investigavam o passado, na vão procura das origens da civilização, e filósofos que eloquentemente lamentavam a degeneração duma raça de cadente. 
                 Deste centro, um povo tangido pela seca emigrou em três direções, levando consigo suas artes e sua civilização. Essas artes foram ter à China, à manchúria , à América do Norte; ao sul da Índia; e a oeste, a Elam, à Suméria, ao Egito e mesmo à Índia e a Espanha. Em Susa, na antiga Elam (moderna Pérsia), foram encontrados restos tão semelhantes aos encontrados em Anau que a hipótese de migração muito se afirma. Um igual parentesco de artes e produtos sugere idêntica ligação histórica entre o Egito e a Mesopotâmia. 
                      Não podemos ter certeza sobre qual destas culturas aparecem em primeiro lugar, o que, aliás, pouco importa. Se aqui voltarmos honrosos procedentes e colocarmos Elam e a Suméria antes do Egito, não o faremos por espírito de inovação, mas porque a idade destas civilizações asiáticas, comparada com as da África e da Europa, aumenta às proporção que o nosso conhecimento a respeito cresce. Todas as probabilidades são hoje de que o rio delta dos rios da Mesopotâmia fosse o espectador das mais velhas cenas do drama histórico da civilização.
                  É certo que provavelmente já existiram muitas civilizações que por razões diversas desapareceram. Não podemos deixar sem menção as lendas correntes sobre as civilizações destruídas por catástrofes da natureza ou por guerras e que deixaram traços visíveis atrás de si; O recente desaparecimento das civilizações de Creta, Suméria e do Iucatã vem dar apoio a essas lendas. 
                O Oceano Pacífico acumula as ruínas de, pelo menos, uma dessas perdidas civilizações. A gigantesca estatuária da Ilha de Páscoa, a tradição polinésia  de poderosas nações que em tempo remotíssimo se formaram na Samoa e no Taiti, a capacidade artística e a sensibilidade poética de seus atuais habitantes, indicam uma glória passada, mostram um povo que não se está erguendo para a civilização, mas que decaiu da civilização para um estado inferior. É no Oceano Atlântico, da Islândia ao Polo do Sul, a elevação central marítima dá algum apoio à lenda que Platão de modo tão fascinante nos transmitiu, da civilização florescida num continente situado entre a Europa e a Ásia e que de súbito foi tragado por uma subversão geológica. Schliemann, o ressuscitador de Troia, admitia que a Atlântida fosse a ligação entre as culturas da Europa e do Iucatã, e que a civilização egípcia proviera da Atlântida. Talvez a própria América fosse parte da Atlântida, e alguma cultura pré-maia estivesse em contato com a Europa e a África nos tempos neolíticos. Possivelmente cada descoberta é uma redescoberta.
                 Também muito provável, como o admitiu Aristóteles, que várias civilizações se formaram, com grandes  invenções e luxo, e foram destruídas e obliteradas da memória humana.  A história, disse Bacon, é um palco de naufrágios; o que se salvou do passado é muito menos que o que se perdeu. Nós nos consolamos com o pensamento de que assim como a memória individual perde a maior parte das experiências  do homem por motivos de sanidade, ou insanidade, assim também a raça humana só preservou das suas experiências culturais o que era mais vivido - ou mais bem fixado. Mesmo que essa herança racial fosse apenas um decimo mais rica do que é, ninguém poderia absorvê-la toda. A história já cheia demais. 
                  O homem moderno, mais do que nunca corre o risco de extinção. Três fatores estão presentemente ameaçando a raça humana e também os demais seres vivos que com ele coabitam. Vírus que ameaçam dizimar populações inteiras, como é o caso do Ebola;  as superbactérias, para as quais o ser humano não está conseguindo antídoto eficaz; o aquecimento global que, pouco a pouco, está invadindo as terras juntos ao mar; a poluição ambiental que irá transformar o organismo dos atuais seres vivos. A, cada dia mais presente, ameaça de um cataclismo nuclear.  Certamente daqui a mil anos uma civilização bem avançada irá estudar o que aconteceu com a nossa atual civilização. 

A GRANDE MURALHA DA CHINA - Nicéas

             Um imperador obcecado pelo medo das invasões dos bárbaros, sacrificou uma geração de seu povo para construí-la.
             Dois mil anos mais tarde, na época da Revolução Francesa, a Inglaterra era o país mais poderoso e adiantado do mundo; entretanto, um cientista daqueles tempos relativamente modernos disse que a Grande Muralha tinha mais tijolos e pedras que todos os edifícios então existentes nas Ilhas Britânicas. Um matemático calculou que com os materiais empregados na sua construção se poderia erguer um muro de 2,40 metros de altura por 90 centímetros de largura, que daria a volta à terra pelo equador.
          A Grande Muralha começa às margens do mas e termina no Planalto do Tibete, conhecido também pela denominação de "Teto do Mundo". 
                 Se você estivesse na Lua, talvez a única obra realizada pelo homem que poderia ver de lá sem telescópio seria a Grande Muralha da China, que, após 22 séculos, permanece de pé como o maior feito do homem. 


                    Na verdade, as primeiras muralhas chinesas não foram construídas como defesa contra inimigos exteriores; a sua construção foi provocada por assuntos internos dos chineses. Foi desta forma que o Estado Tchu nos princípios do século VI a.C. se protegeu por meio de uma muralha fronteiriça, doas ataques dos estados vizinhos do norte,  e nos séculos seguintes os Estados Tchi e Vei seguiram seu exemplo. Por volta do ano 320 a. C., o mesmo fizeram os Chin, e uns dez anos mais tarde juntaram-se exemplos históricos os Tchau e os Yen. Em geral os muros teriam sido feitos de terra, com torres de vigilância.  
                   O Imperador Tchi Huang-ti (221 - 210 a.C.) foi o primeiro a promover a construção de uma Grande Muralha com defesas viradas para o exterior; o  principal objetivo era manter os "bárbaros" e os "demônios" fora de seu território. As  tores tinham cerca de 10 metros de altura por 6 metros de largura e eram ocupadas por sentinelas. Este imperador empregou seu próprio exército nesta construção. Segundo conta a história tradicional ele empregou cerca de 300.000 soldados na grande obra. Conta-se também que, para aumentar a rapidez da obra, mandou abrir as prisões e, assim, ladrões, assassinos e todo o tipo de criminosos conseguiram sua parcial liberdade. Mesmo assim não foi o suficiente para chegar ao objetivo (rapidez) pretendido e então ele determinou que a população participasse. Centenas de milhares de trabalhadores forçados morreram de esgotamento ou de febre. 
                 No ano  209 a.C. houve uma grande revolta popular devido aos maus tratos e às mortes em escala industrial. Soldados e trabalhadores forçados abandonaram o território fronteiriço; por essa razão o hunos, em pouco tempo, conseguiram conquistar os terrenos insuficientemente protegidos pela Grande Muralha. As reações bélicas dos chineses não tiveram sucesso. Também de nada adiantava pagar tributos aos hunos; foi necessário promover casamentos entre as princesas imperiais e os chefes hunos. 
                  O plano para construção de uma nova e mais duradoura muralha, de 3290  quilômetros ("va-li-tchang-tchen") parece ter ocorrido somente no século XIV. 
               Para se ter ima ideia mais precisa sobre o tamanho da Grande Muralha seria imaginar que se pudesse esticar uma corda de um extremo a outro; levando esta corda para a Europa e estendendo-a aí, ela cobriria ma distância que vai de Paris até quase ao centro da Ucrânia (1840 km), e ainda se acrescentasse mais corda para compensar as curvas da Muralha, e em seguida a esticasse outra vez de Paris, iria além da cidade de Bagdá. 
                                No Egito o povo (escravos e prisioneiros) sofriam semelhante ambição pela ignorância religiosa  que, sobre intensa tortura, eram obrigados aos mais terríveis sofrimentos na construção das imensas pirâmides. 
                A mente que idealizou essa "monstruosa construção" foi a do imperador Chi Huang-ti. Chi era filho de uma "bailarina ambulante",  de quem um príncipe se havia enamorado. Subiu ao poder depois da morte do pai, no ano 246 antes de Cristo, com a idade de 13 anos.  Na época a China era um reino de Estados separados, que estavam sempre em pé de guerra. O jovem e ambicioso imperador empreendeu a tarefa de unificar esses Estados para assim formar um império poderoso. Esse jovem possuía um dom especial para escolher excelentes generais e primeiros-ministros inteligentes. Em sete anos, com o auxílio destes, subjugou todos os seus vizinhos.  Desde os limites do norte da China moderna até ao rio Iã-tsê e deste o Mar Amarelo até a Província de Szechwam, no Oeste, a sua palavra era lei. 
                 Como todo o Rei paranoico, vivia em permanente pânico, sentindo-se ameaçado por tudo. A fim de impedir que seus velhos inimigos tramassem a sua deposição, Chi levou os mais ricos e poderosos dentre eles para sua capital, Hsienyang. Aí eles viviam no esplendor total, como senhores da corte, mas afastados dos seus fiéis seguidores. Chi construiu para eles palácios exatamente iguais aos seus. Esses palácios estavam situados num terreno que media 500 quilômetros quadrados, obedecendo a um desenho que reproduzia na Terra o caminho celestial das estrelas da Via-Láctea. 
                 Apesar disso, o imperador vivia inquieto, sempre com medo da morte. Um oráculo previra que sua queda seria provocada por "Hu", vocábulo que, entre outras coisas, significa bárbaro. Chi estava certo de que o vidente se referia aos bárbaros do Norte, que desde 500 anos antes eram o terror dos lavradores chineses. Deu tratos á imaginação procurando uma forma segura de proteger o império e assim nasceu a ideia fantástica de construir uma gigantescsa muralha intransponível. 
                    Ninguém pode negar que trata-se de uma maravilhosa engenharia, mas que exigiu enorme sacrifícios do povo, e muitos pagaram com a própria vida. 
            Quase todas as pessoas fisicamente aptas foram recrutadas para trabalhar na construção da Grande Muralha. Obrigados sob constantes chicotadas dos capatazes, os operários, atemorizados, eram forçados a cavar dois fossos paralelos separados 7,50 metros, nos quais assentavam depois blocos de granito e tijolos até a altura de seis metros. Enchiam de terra o espaço entre os fossos. Finalmente, levantavam um parapeito de 1,50, em cima da Muralha. 
                    Nos primeiros 500 quilômetros quase não encontraram um trecho de terreno plano, e os operários tinham de arrastar pesados blocos por encostas muito íngremes. Mesmo nos cumes mais distantes as chicotadas dos capatazes garantiam que o corte e o acabamento dos blocos de granito fossem feitos com tanto esmero como se destinassem ao palácio imperial de Chi. Engenheiros modernos afirmam que a Grande Muralha dificilmente poderia ser sobrepujada atualmente em sua construção. 
                Os mensageiros enviados pelas famílias dos que trabalhavam na muralha, levando-lhes roupas e víveres, só muito raras vezes chegavam ao seu destino. Muitos ao chegarem no destino  não mais encontravam seus familiares, pois estes já haviam morrido. Outros nem chegavam até o destino pelo  medo de também serem forçados a trabalhar.  Os trabalhadores que ofereciam resistência ao recrutamento para trabalhar eram arrastados até a Grande Muralha e enterrados vivos nela. Como alimentos escassos e as roupas transformadas em farrapos, quase apodrecendo em vida, muitos adoeciam e morriam. Seus corpos iam ficando pelo chão, confundindo-se com a terra da Muralha, até que a transformaram no maior cemitério do mundo. Isto acontecia com a maior naturalidade, pois ninguém perdia tempo em fazer um sepultamento digno. Os corpos simplesmente passavam a fazer parte do aterro da Muralha. 
                   No oeste de pequim encontraram um terreno que que era um barreiro. Aí, em vez de granito, tinham que amarrar entre si troncos muito pesados, com os quais formavam muros paralelos, enchendo de terra o espaço entre eles. Uma longa fila de operários, cada um carregando às costas um bambu com duas grandes cestas de terra suspensas  das extremidades enchia o caminho, enquanto outros socavam a terra. Ao terminar cada seção, retiravam os troncos e continuavam a obra, sucessivamente, em todo o percurso. A Grande Muralha mantinha-se em pé, toda feita de barro comprimido. 
                À medida em que parte da Grande Muralha ia sendo concluída guerreiros eram colocados sobre ela. 
                 Ao londo de toda a muralha e a intervalos de 1.500 metros construíam-se fortins, instalando-se um batalhão de soldados em cada um destes. Sempre havia arqueiros alerta com suas flechas nas torres salientes. Cada  guerreiro tinha sob sua guarda 200 metros em ambos os lados; havia oito sentinelas cada quilômetro e meio. Uma grande guarnição achava-se permanentemente aquartelada atrás de todos os setores terminados. Reunidos, esses soldados formaram o primeiro exército regular do mundo, que alcançava um total de três milhões de homens. A cada um destes eram concedidas áreas de terreno pelos serviços prestados, as quais eles se dedicavam a lavrar nos intervalos livres de trabalho na Muralha. 
                 A Muralha terminada percorria, em curvas atrevidas, a superfície da Terra; escalava montanhas de quilômetro e meio de altura, descia vales profundos, subia gargantas e atravessava rios. Sua construção terminava à beira de um precipício de 60 metros e à vista de um rio com águas de espumas brancas. 
               Não se sabe exatamente quanto tempo demorou a construção da Muralha. Chi empregou uma quantidade enorme de trabalhadores e, além disso, incorporou-lhe muitos quilômetros de outras muralhas já construídas. Há um historiador que supõe ter a obra durado cerca de 18 anos; outros asseguram que só foi terminada por imperadores sucessivos. 
                A Grande Muralha impediu as invasões durante mais de 1400 anos. E, então, no século XIII, surgiu o grande Gengis-cã. Esse guerreiro mongol, um dos conquistadores mais terríveis que o mundo já conheceu, tomou de assalto a Grande Muralha e invadiu a China; mas nem mesmo ele conseguiu conquistá-la definitivamente. 
                   Aos mongóis sucederam no poder os imperadores da dinastia "Ming". Durante 300 anos, estes reforçaram e acrescentaram novos trechos á Muralha . Os manchus, outro povo mongol, procedente do Norte, abriram brechas em seus muros, em 1644, após um cerco de 30 anos, apoderando-se da China. O que resta, hoje, é, em parte, a muralha original do Imperador Chi e a maior parte dela é a que foi construída pela dinastia dos "Ming". Há setores que estão otimamente conservados, mas algumas das partes antigas foram reduzidas pelos ventos do Oeste a simples montões de terra. 
                 Essa incrível Muralha, que custou o sacrifício e a vida de uma geração, mas que, também, é certo, salvou uma centena de gerações, perdura e assim continuará por muito tempo. 
                 


terça-feira, 16 de julho de 2019

O AMOR DE ANITA E GIUSEPPE GARIBALDI -

Uma história de amor e guerra

                No recente século XVIII as ricas planícies do norte , de Veneza a Milão estavam nas mãos do Império Austro-Húngaro. O Papa controlava a Itália central de mar a mar. A Itália meridional e a ilha da Sicília eram governadas pelo "Rei Bomba", assim chamado por mandar jogar bombas sobre os seus súditos. Só no semi-livre Reino da Sardenha governava um rei italiano de nascimento. . 
                  Naquele dias sombrios os patriotas italianos lutavam, sem plano definido, pelos seus sonhos de uma Itália livre e unida. O homem que viria a dirigi-los mais tarde era nessa época ainda um jovem marinheiro que percorria os portos de Mediterrâneo. Garibaldi ouviu boatos sobre um movimento clandestino denominado "Itália Jovem", liderado pelo patriota excilado Mazzini. Numa noite escura, em Marselha, procurou esse Mazzini e dele recebeu informaçõesmais seguras sobre o Risorgimento.
                  Ao jovem marinheiro foi então confiado um papel no plano de Mazzini: o de tirar o trono do Rei da Sardenha. Cabia-lhe juntar-se à Marinha Sarda e, com seus confederados, apossar-se de uma nava e bombardear as fortificações de Gênova. Mas o movimento malogrou totalmente, antes de estourar. Garibaldi escapou de ser preso porque conseguiu atravessar a fronteira da França. Aí soube que uma Corte Marcial o condenara à morte. 

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Exílio -A nida para o Brasil
               Foi assim que Garibaldi, com apenas 29 anos de idade, tornou-se apátrida. Em 1836 decidiu tentar a sorte no Novo Mundo. No Rio de Janeiro obteve uma velha embarcação de 20 toneladas, apresentou-se para a navegação costeira e batizou-a de Mazzini. 
                Duas revoluções lavraram, então, no Sul do Brasil. Tendo os estados de Santa catarina e Rio Grande do Sul declarado sua independência do Imperador do Brasil.  Garibaldi ofereceu os seus serviços à revolução. Sofreu abalroamentos, foi ferido à bala, e até sofreu torturas, mas só conseguiu êxitos reais quando deteve navios mercantes brasileiros e se apossou de seus carregamentos e tripulações. 
               Certo dia, perscrutando a terra com um óculo de alcance, o Capitão Garibaldi, avistou uma bela jovem. Imediatamente mandou arriar o seu escaler: descobrira de repente que a marinha necessitava urgentemente de provisões... A primeira pessoa que encontrou em terra foi o Sr. Ribeiro, negociante de cordoalha, que o convocou para ir a sua casa. A moça que serviu-lhe o café era filha do negociante, Anita, de 18 anos de idade, a jovem vista através do óculo de alcance. 
            Ali mesmo Garibaldi pediu a mão da moça. O pai recusou, e Anita foi trancada no quarto, com os irmãos montando guarda. Parece, contudo, que os irmãos tomaram o seu partido, pois os namorados começaram a manter correspondência. Certa noite , quando um escaler da pequena marinha rebelde aportou à praia. Anita já lá se encontrava, à espera .  Ao por do sol o pé a bordo, abandonava para sempre as praias da segurança.  
                Pouco depois, os navios de Garibaldi em fuga foram bombardeados por três belonaves brasileiros; o impacto lançou Anita sem sentidos sobra uma pilha de cadáveres. Logo que voltou a si, começou a tratar os feridos, enfaixando-os com tiras de sua própria saia; e quando o artilheiro que estava a seu lado foi pelos ares aos pedaços, ela tomou lugar atrás do canhão, sob o  comando de seu capitão. Foi essa a sua lua de mel. 

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As guerrilhas
                Quando a revolução fracassou, Garibaldi e seus homens fugiram para ops pampas. Ali se abrigaram nas ruínas de uma fazenda abandonada, onde Anita teve o seu primeiro filho.  Três meses depois, através das florestas das montanhas, fugiram para o Uruguai. A pequena família fixou residência na Capital, Montevidéu, e viveu em paz. Então, eis que, em 1843, o Uruguai foi invadido pelo ditador Rosas, da Argentina. Cinco anos mais tarde o Exército Argentino ainda estava paralisado nas cercanias de Montevidéu. Rosas culpava um bando de demônios de camisas vermelhas. Embora muito inferior em número, o bando derrotou Rosas duas vezes em campo aberto. 
       Esses "Camisas Vermelhas" intitulavam-se Legião Italiana. Eram voluntários arregimentados por Garibaldi para defesa da terra que os acolhera. À cata de uniformes, encontraram por acaso, num armazém, um lote de pano vermelho salvo de um incêndio. Anita e as outras esposas italianas atiraram-se à tarefa de cortar e coser. A partir desse dia a camisa vermelha foi o uniforme de batalha de Garibaldi e de todos que o seguiam. 
                Suas incursões garantiram a liberdade do Uruguai e retumbaram pelo mundo a fora. O comandante recebeu uma espada como homenagem da Sociedade da Nova Itália. Ao passar os dedos pela lâmina afiada, Garibaldi deve ter sentido saudades de sua terra natal.  

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A luta Pela Liberdade
           Assim, em 1848 Garibaldi pisou o solo italiano mais uma vez, com 60 Camisas Vermelhas. A sentença de morte ainda pesava sobre a sua cabeça. Foi, porém, recebido com aclamações do povo e um apele cordial do Rei da Sardenha, que se via ameaçado pelo Imperador da Áustria. Quando o Rei se recusou a dar-lhe uma patente no exército, Garibaldi dirigiu seus camisas Vermelhas num ataque independente com os austríacos. Quando as tropas regulares do Rei foram derrotadas perto de Milão, e a Sardenha pediu paz, a pergunta de Garibaldi foi: 
                 - E agora, onde vamos lutar? 
                A resposta  veio do coração da Itália - de Roma. O povo insurgia-se, o Papa fugira indo pedir proteção ao Rei Bomba de Nápoles. Depois de 1800 anos, renascia a República Romana, outrora tão gloriosa. Contra ele enfileiraram-se não só o Império Austríaco, o Rei Bomba e a Espanha, mas agora também a França. Pois Luiz Napoleão desembarcou subitamente na costa, perto de Roma, 10.000 homens de sua tropa de elite. 
                  Em defesa de Roma correu Garibaldi, seguido dos seus Camisas Vermelhas. Atrás ia a infantaria, em sua maioria composta de adolescentes, elegantemente uniformizados de azul-escuro com caudas de galo ondulando nos chapéus. Depois iam civis, operários com os seus aventais de trabalho, camponeses, pequenos comerciantes, velhos e crianças. 
              Esse estranho exército composto de uns 2.000 homens foi destacado para defesa do Monte Janículo, fora dos muros da cidade. No dia 30 de abril, Garibaldi avistou 7.000 brilhantes baioneta francesas que avançavam. Numa manobra ousada, investiu com seus homens ocupando posições entre as roseiras e pinheiros dos jardins das vilas circunvizinhas. A "Batalha da Rosas" durou do meio-dia até o escurecer, quando então um general francês, pálido e trêmulo, suplicou um armistício. 
             Surgindo do sul, vieram então as tropas do Rei Bomba, e Garibaldi recebeu ordens de retardá-las. Em vez disso, repeliu-as para o território napolitano. 
                Os franceses novamente assestaram seus canhões contra o Monte Janículo e mais uma vez os garibaldinos foram destacados para a defesa. Durante um mês os italianos repeliram ondas de ataque, sob constante bombardeio. 

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A Retirada
               A República de Roma finalmente rendeu-se, mas não Garibaldi. Jurou que continuaria a luta, instalado nas colinas. Seguiam-no 4.000 homens, envergando todos as famosas Camisas Vermelhas que agora os marcavam para a morte... ou para a glória. 
            Essa retirada através da Itália é até hoje uma epopeia nacional. Havia uns 65.000 homens espalhados em rede para capturar esses patriotas sem pátria. Ziguezagueando pelos ásperos Apeninos, Garibaldi conduziu seus homens através das malhas dessa rede.  Parecia estar em toda parte ao mesmo tempo, inspirando, assim, rumores de que havia vastas forças sob seu comando. A verdade era que, ao fim do escaldante mês de Julho, apenas 1.500 homens desesperados se encontravam, com seu comandante, diante das portas de S. Marinho. 
                Durante ´seculos, essa pequenina república dera asilo a todos os refugiados políticos. Garibaldi pediu abrigo para suas tropas exaustas. Mas ele próprio não se demorou, nem tampouco Anita e um punhado de bravos. Fugiram através das linhas inimigas e, atravessando o Rubicão como César já o fizera, atingiram a costa perto da foz do rio Pó. Mais um pouco e poderiam navegar para Veneza. 
           Mas, durante todo aquele último dia. Anita havia delirado, atacada da malária. Garibaldi carregou-a até os barcos que os aguardavam, mas não tardou que os austríacos avançassem vindos da praia. O navio de Garibaldi escapou, mas foi logo desviado para a terra; Garibaldi carregou a esposa agonizante das sombras dos pinhais. À noite Anita faleceu. Foi sepultada nas dunas de areia, 

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Nova oportunidade
                Assim findara, pensou o mundo, o belo sonho de ima Itália livre e unida. Entretanto, um 1849, o trono da Sardenha passou para o jovem Vitor Emanuel II. Garibaldi veio a saber no exílio que o novo rei estava disposto a permitir o seu regresso à pátria. Assim, em 1855, o viandante comprou uma fazenda na pedregosa ilhota de Caprera, à altura da Sardenha, onde passou a viver uma vida serena e solitária. 
               Mas por toda a Itália a esperança acelerava-se como um rufar de tambores. O Primeiro Ministro nomeado pelo jovem Rei da Sardenha foi o Conde Cavour, que veio a conseguir que Luiz Napoleão, Imperador da França, se aliasse á Itália em uma nova guerra com a Áustria. Quando Garibaldi conversou com o Conde, compreendeu que os italianos se uniram sob uma monarquia reinante. A partir de então serviu à Coroa e, assim, à sua pátria. 
              O Sul, porém, ainda continuava acorrentado. Ali Francisco, o filho de !"Bomba!", abarrotara as p´risões de patriotas. Cavour e Vitor Emanuel não ousavam levantar o dedo contra o Rei Francisco. As condições eram: Garibaldi terias de arranjar seus navios, recrutar seus voluntários. Se fracassasse ,pagaria sozinho; se vencesse, a vitória seria do Rei.
            Recrutou suas forças clandestinamente. Eram apenas 1.000 - "Os Mil". Audaciosamente desembarcaram na Sicília e desfraldaram a bandeira verde, branca e vermelha da liberdade italiana. 
                Os Sicilianos uniram-se a eles. Cortaram linhas telegráficas, dominaram sentinelas, interceptaram abastecimentos, desbarataram o exército do Rei Francisco e conduziram Os Mil, por trilhas escusas, runo ao seu objetivo - Palermo. 
                  Mas nas montanhas bravias Os Mil foram de súbito surpreendidos por 4.000 homens das bem adestradas tropas reais. Lutando ferozmente montanha acima, Garibaldi via seus homens caírem feridos em toda a extensão da encosta, entre eles o jovem Menotti, o filho que Anita lhe dera nos pampas do Brasil. E uma pergunta angustiosa repercutiu através dos montes ensanguentados: 
                  - General, que fazemos?
                  - Aqui ou construímos a Itália ou morreremos! - respondeu Garibaldi. 
               Seus homens ouviram, o inimigo ouviu, a Itália ouviu, o mundo inteiro ouviu. Saltando para a frente, espada desembainhada, Garibaldi comandou a carga e pôs em fuga uma força muito superior. 
           Outro exército foi mandado às pressas para o campo de batalha, para enfrentar Garibaldi. Deixando acesa as fogueiras de campanha para despistar o inimigo, Garibaldi passou despercebido por trás dele e entrou como um furacão em Palermo. Em três dias de lutas de rua capturou uma cidade defendida por 20.000 soldados. Depois atravessou o Estreito de Messina e, marchando rumo ao norte, foi conquistando o reino do rei Francisco, impelindo na sua frente um exército de 100.000 homens. 
               A Itália inteira era uma fogueira de entusiasmo, e a 7 de novembro de 1860 o primeiro Rei da Itália, com Garibaldi a seu lado, entrava triunfalmente em Nápoles. 
             Generosamente, Vitor Emanuel cumulou o Libertador de ofertas; um título, um castelo. Garibaldi recusou todos os prêmios. Servir a Itália fora a sua recompensa.  

A HISTÓRIA DA ESCRITA E A CIVILIZAÇÃO- Nicéas R. Zanchett

                 A história escrita tem pelo menos seis mil anos. Durante metade desse período o centro dos negócios humanos, ao que sabemos, foi o Oriente Próximo. Por essa expressão aqui significamos todo o sudoeste da Ásia ao sul da Rússia e do mar negro, e também o oeste da Índia e do Afeganistão e do Egito. A agricultura e o comércio desenvolveram-se nesse palco esfervilhante de populações, e também o cavalo e o carro, a cunhagem de moedas e as letras de crédito, as artes e as indústrias, a lei e o governo, as matemáticas e a medicina, o calendário, o relógio e o zodíaco, o alfabeto e a escrita, o papel e a tinta, os livros, as bibliotecas e as escolas, a literatura e a música, a escultura e a arquitetura, a cerâmica vidrada e o belo mobiliário,  e a poligamia, os cosméticos e a joalheria, o xadrez e os dados, o jogo da bola e o imposto sobre a renda, as amas de leite e a cerveja. É donde as culturas europeias e americanas derivam , via Grécia e Roma. Os arianos não criaram a civilização - tomaram-na da Babilônia e do Egito. A Grécia não começou a civilização - herdou-a, foi o receptáculo de três milênios de arte e ciências trazidas do Oriente Próximo pelo comércio e pela guerra. Portanto o povo do Oriente Próximo foi o grande fundador da civilização ocidental. 
                    De fato, para fazermos justiça ao falar em civilização, precisamos nos curvar à sabedoria sumeriana a quem muito devemos. 
                 Em meio a muitas lutas, essas variadas cepas raciais misturavam-se inconscientemente, talvez involuntariamente, e cooperavam para produzir a primeira grande civilização da história - e uma das mais criadoras e originais. 
              A eximação dessa esquecida cultura é um dos romances da arqueologia. Para os gregos, romanos e judeus era desconhecida. O próprio sábio Heródoto não a menciona. Berosio, historiador babilônico de 250 a.C., entreviu a Suméria sob um véu de lenda. Descreve-lhe o povo como uma raça de monstros, chefiada por um Oanes vindo do golfo Pérsico, que introduziu a agricultura, a metalurgia e a escrita;" todas as coisas que melhoram a vida", diz ele, "foram introduzidas por Oanes, e desde esse tempo nenhuma outra invenção apareceu". Em 1850 Hincks admitiu que a escrita cuneiforme proviera dum povo de língua não-semita; e Oppert deu a esse hipotético povo o nome de "Sumérios", Por esse tempo Rawlinson encontrou nas ruínas da Babilônia tabletas com vocabulário da língua sumeriana, com tradução interlinear em velho babilônico. Em 1854 dois ingleses descobriram o sítio de "Ur", Eridu e Uruk; e exploradores franceses revelaram os remanescentes de Lagash, com tabletas em que vinha a história dos reis sumerianos. Há pouco tempo o americano Woolley e outros exumaram a cidade de "Ur", em que os sumérios alcançaram alta civilização em 4.500 a.C. Os trabalhos continuam e é de esperar que a exumação da Suméria se aproxime, em proporções, da do Egito - tão opulenta em achados. 


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                Sem dúvida, o mais importante passo para a civilização foi a escrita. Fragmentos de cerâmica da era neolítica mostram linhas pintadas que os estudiosos interpretam como sinais. Achamos a interpretação bastante duvidosa; mas é possível que a escrita começasse com marcas na argila mole, para identificação do produto. Nos primitivos hieroglifos da Sumeriana pictografia de pássaros mostra sugestiva semelhança com a decoração também de pássaros da antiga cerâmica de Susa, em Elam;  e a mais antiga representação pictográfica do grão vem diretamente da geométrica decoração granária dos vasos de Susa e da Suméria. A escrita linear da Suméria (3;600 a.C.) é aparentem,ente  uma forma abreviada dos sinais e pinturas da primitiva cerâmica da Mesopotâmia  e de Elam. A escrita, como a pintura e a escultura, foi na origem um produto da cerâmica; começa sob a forma de desenho e gravação, e o mesmo material do oleiro, do escultor e do construtor, passa a ser usado pelo escriba. Destes começos à escrita cuneiforme da Mesopotâmia, o desenvolvimento aparece logico e intangível. 
                  Os mais velhos símbolos gráficos são os que Petria encontrou nos vasos e pedras dos túmulos pré-históricos do Egito., da Espanha e do Oriente próximo, aos quais ele dá a idade de sete mil anos. Esta "Sinaria Mediterrânea" compunha-se de trezentos sinais, pela maioria os mesmos em todas as localidades. Não passavam de marcas mercantis - Marcas de propriedade, de quantidade e outras; não eram letras, mas representações de palavras inteiras ou ideias, muitas se assemelham extraordinariamente às letras do alfabeto fenício. Conclui Petrie que nos tempos primitivos um "vasto corpo de sinais foi gradualmente entrando em uso para vários propósitos. O comércio os espalhava de terra em terra... até que um conjunto de doze sinais triunfou e se tornou propriedade comum dum grupo de comunidades mercantes, enquanto outros permaneceram locais e por fim desapareceram. Que esta "sinaria" foi a fonte do alfabeto constitui uma interessante teoria - que o professor Petrie tem a honra de sustentar sozinho. 
                  Qualquer que tenha sido o desenvolvimento dos primeiros símbolos comerciais, deles saiu uma forma de escrita, ramo do desenho e de pinturas, destinada a transmitir ideias por meio de representações gráficas. Os rochedos do Lago Superior ainda conservam restos das rudes pinturas com que os índios americanos orgulhosamente narravam a travessia dos grande lago. Uma similar evolução do desenho em escrita parece ter ocorrido no mundo mediterrâneo no fim da Idade Neolítica. Em 3.600 a. C., e talvez antes, Elam, Suméria e o Egito desenvolveram um sistema de símbolos, idéias ou Hieroglifos, assim chamados por serem de uso sacerdotal. Sistema  similar aparece em Creta, em 2.500 a.C. Veremos adiante como estes hieroglifos, representando ideias, foram, pela corrupção do uso, esquematizados e reduzidos a silabários, isto é, a uma coleção de sinais indicando sílabas; e como, por fim, os sinais passaram a indicar apenas letras, ou o som inicial da sílaba. Tal escrita alfabética data de antes de 3.000 a. C., no Egito, e em Creta aparece apenas em 1600 a.C. Os fenícios não criaram o alfabeto - espalharam-no; levaram-no do Egito a Creta e outros centros do Mediterrâneo.  No tempo de Homero os gregos estavam assimilando esse alfabeto "fenício!, ou aramaico, passando a conhecê-lo pelo nome semítico das duas primeiras letras (Alfa e Beta -ou em hebraico, Aleph e Beth). 
               A escrita parece ser um produto da conveniência comercial; aqui e ali a cultura percebe o quanto deve ao comércio. Quando os sacerdotes organizaram um sistema de desenhos com que fixar suas fórmulas mágicas e a isso se restringiram, os seculares, sempre em conflito, ligaram-se por um instante e criaram a coisa mais fecunda para os destinos humanos depois da fala. O desenvolvimento da escrita criou a civilização com o prover o meio de fixar e transmitir os conhecimentos - e só assim a civilização poderia encetar a sua marcha para frente. 
                    Os humanos sempre tiveram o desejo de deixar suas marcas para conhecimento das futuras gerações. 
                   O homem pre-histórico figurou, com  desenhos mais ou menos rudes, executados nas paredes das cavernas, suas caçadas, seus combates, seus ritos. Estes desenhos foram a primeira forma de escrita, que nos transmitiram nossos ancestrais. 
                 Na mente do homem primitivo surgiu vivo o desejo de deixar aos pósteros, os traços de sua passagem pela vida terrena e, então, ele recorreu aos símbolos, para descrever os fatos mais importantes de sua existência e, a pouco e pouco, encontrou, na escrita, o meio mais adequado de expressão. 
                 Quando os egípcios descobriram a possibilidade de escrever nos papiros, deram início a uma nova forma de escrever, mais simples e mais rápida: a escrita hierática. 
                 Muito fraca, de fato,  é nossa memória, para que a ela se possa confiar a veracidade dos fatos, das nossas ideias, de nossos sentimentos. Entretanto, comunicar com os homens que vivem em nossa época e que viverão depois de nós, vencer o tempo e a distância, dando forma  duradoura ao pensamento, é uma das necessidades que, em primeiro lugar, se manifestou nos homens. O miraculoso prodígio, que faz com que os mortos sobrevivam na recordação dos vivos e que os distantes se aproximem, transpondo a barreira do tempo e do espaço, foi conseguido pela escrita. Nós, homens modernos, que desde tanto tempo possuímos o segredo de escrever, na forma mais exata, aquilo que sabemos dizer. não podemos deixar de sentirmo-nos, ao pensar nos primeiros homens que se empenham na busca de uma forma de escrita e no trabalho daqueles antiquíssimos ancestrais nos parece heroico e benéfico ao mesmo tempo. O homem primitivo, para traduzir de maneira indelével o próprio pensamento, não escreveu, mas desenhou;nas paredes das cavernas, nas rochas expostas à intempéries, nas lajes de pedra dura, ele representou, por meio de um desenho mais ou menos rude, os fatos mais importantes de sua vida: suas caçadas, seus combates, seus ritos; em seguida, aos poucos, firmou-se em sua mente a ideia de transcrever tais fatos de maneira mais rápida e mais concisa.  Seu cérebro, nesse ínterim, já evoluíra, sua linguagem se enriquecera notavelmente e muitos pensamentos não se podiam representar, agora, com apenas símbolos. Para significar "manhã", por exemplo, desenhou um sol radioso; para exprimir a ação de comer, serviu-se da figura de um homem levando a mão á boca; para dizer "nada", representou um homem de braços abertos, e para dar maior clareza ao próprio pensamento, não lhe era mais preciso representar a cena inteira, mas sim, apenas indicar o gesto do homem numa certa circunstância. Poucas figuras bastavam, assim, para transmitir uma narrativa, para sugerir ops versos ao cantor, ou para ensinar ao caçador as operações que deveriam ser executadas durante a caçada. Depois, também esta forma de escrita mudou, tornando-se ainda mais rápida e complexa; para escrever "caminhar", por exemplo, não foi mais necessário representar um homem andando, mas apenas desenhar um pé; a princípio, fiel ao verdadeiro, e, depois simplificados, isto é,. estilizado. 
                   As grandes civilizações da era antiga usaram este tipo de escrita "simbólica"; empregaram-na todos, Chineses, Sumerianos, Hititas e Egípcios, embora os sinais por eles usados fossem diferentes, porque diferente era sua linguagem e o material empregado para escrever e sobre o qual escrever; os Sumerianos e os Assírios, por exemplo, a diferença dos Chineses e dos Egípcios, em pleno florescer de sua civilização, confiaram suas memórias á pedra e a  certos tijolos de argila, secos ao sol ou cozidos ao fogo, e inventaram, portanto, a escrita "cuneiforme", própria para ser "incisa" na pedra. os Egípcios, ao invés, quando descobriram a possibilidade de escrever em papiro, modificaram sua escrita de "hieróglifos", própria também para a pedra, e deram forma a um novo processo, mais simples e rápido: a escrita hierática. A escrita hieroglífica surgiu, no Egito, entre os VI e IV milênios a. C.; antes também os Egípcios representavam o homem, suas ações, os animais e os vegetais, de modo bastante real; em seguida, recorreram aos símbolos e, mais tarde, foram além, dando o primeiro passo para a escrita fonética, ou seja, aquela que usamos. Eis aqui um exemplo que explicará isso melhor: para simplificar "casa", um homem primitivo esforçar-se-ia por desenhar uma casa; o egípcio não traçou uma figura semelhante á casa, mas estabeleceu um sinal que indicasse porém, (em artigo egípcio = casa). Como os Egípcios não usavam sinais para as vogais, mas somente para as consoantes, este sinal ficou tendo o valor de "pr". Necessitando de escrever outras palavras que iniciassem ou contivessem o grupo "pr", o Egípcio recorreu ao símbolo que, antes, indicava apenas a palavra "casa" , até obter o "som" da palavra  desejada. Com os Egípcios, chegou-se pois, a uma escrita composta de sílabas, não em simples consoantes e vogais, como hoje fazemos; o mérito da descoberta do alfabeto cabe a outros povos, talvez aos Fenícios, que o aprenderam, provavelmente, do povo hebraico, e que o ensinamento aos Gregos e aos Itálicos.  
                A escrita chinesa moderna, que conta cerca de 40.000 sinais, é assas semelhante à escrita chinesa antiga. 
                 Os Maias representavam os números desenhando cabeças; cada cabeça representava um número. É de se imaginar o quanto deveria ser complicada uma simples soma. 
                  A escrita modificou-se sempre mais, os sinais transformaram-se, tornaram-se mais fáceis, mais claros, mas diferentes entre si, porque os homens logo lhe compreenderam a importância. 
                À amorosa e paciente diligência dos monges beneditinos, na Idade Média,  devemos a transcrição e a conservação de numerosas obras literárias da antiguidade. 
                 A escrita modificou-se sempre mais, os sinais transformaram-se, tornaram-se mais fáceis, mais claros, mais diferentes entre si, porque os homens logo lhe compreenderam a importância. Na época moderna, na Renascença e no século XVII, sobre tudo, os homens dedicaram-se, com grande empenho, á escrita, este meio tão importante para comunicar e instruir, para transpor os limites que o tempo e o espaço nos impõem. E chegou-se, assim, ao moderno alfabeto, ao nosso tipo de escrita. 
                Deixar um traço de nossa passagem pela terra, essa necessidade que o homem sentiu e que sentirá sempre, encontrou, na escrita, o meio mais  adequado, mas rápido e mai difuso de expressão. 
                Em nossas escolas elementares, a criança é inciada nos mistérios, passando, tais como nossos pais, dos sinais mais simples às letras. 
            

segunda-feira, 15 de julho de 2019

A HISTÓRIA DA IMPRENSA E SUA IMPORTÂNCIA - Nicéas

             Graças à invenção dos caracteres móveis e do prelo tipográfico, o homem rompeu o círculo em que se encontravam aprisionados suas ideias e seus parcos conhecimentos para entrar na luz do saber e da linguagem universal. Hoje a imprensa é a real e máxima expressão do pensamento social. 
                Antigas lendas, transmitidas a nós através dos tempos, atribuem ora a um ora a outro país da Europa a origem da imprensa, fazendo-a derivar de sinetes e moldes de ferro para imprimir figuras e palavras sobre pergaminhos, encadernações de couro e cartas de baralho, ou de imagens e manuscritos gravados sobre madeira. Mas tudo isso é apenas impressão e nada tem a ver com aquela arte que conseguiu, mediante o emprego de caracteres (letras móveis), compor e depois imprimir as palavras,  os livros e os jornais. Sabe-se que o conhecimento desse processo já era, há séculos e séculos atrás, patrimônio do Oriente, e que da China a prática passou para o Japão. Existem, ainda, livros impressos na Coréia, com caracteres móveis, cerca do ano 1330. 
             Agora, pelo que diz respeito à arte tipográfica do Ocidente, já está pacificamente reconhecido por certo que ela nasceu na Alemanha, lá pelo ano de 1450, e que dali passou primeiro para a Itália, depois Suíça, França, Holanda e Bélgica. 
               O mérito da invenção, considerada a mais importante para o progresso da civilização, é atribuído a João Gensfleisch, mais conhecido pelo sobrenome materno GUTEMBERG, nascido em Mogúncia, cerca do ano 1400. 
              Gutemberg, hábil fabricante de espelhos, devido a um revés da fortuna, emigrara para a Holanda, a fim de começar vida nova. 
              Certo dia, viu um artesão gravando letras numa pequena tábua. "Se eu recortar todas as letras dessa tabuinha", pensou, "e depois as reunir de maneira diferente, poderei compor qualquer palavra, qualquer frase, e até uma página inteira..."
                 A primeira ideia de imprensa nasceu assim, e daqui até à sucessiva aplicação de caracteres móveis (a princípio de madeira e depois de metal fundido) não se deveria esperar por muito tempo. Resulta, de fato, de documentos e testemunhos, que, em 1439, Gutemberg tinha estado em Estrasburgo, onde, parece, ensaiava as primeiras experiências tipográficas. Cerca de dez anos depois, retornava à pátria e, ajudado por Johaann Füst, começou a imprimir. 
               O primeiro documento tipográfico é uma folha de papel, cujo texto é uma carta de indulgência concedida pelo Papa Nicolau V àqueles que haviam contribuído para a  Cruzada contra os Turcos. Segue-se o primeiro livro:  a grande Bíblia, conhecida pelo nome de Bíblia Mazarina, a qual já constitui uma obra-prima de arte tipográfica. Mas este livro, terminado por Gutemberg pelos fins de 1455, ou princípios de 1456, precede outro livro impresso, maior celebridade cabe ao Psalterium editado em Mogúncia (Alemanha) em 1457, por Johann Füst e Peter Snöeffer, porque se trata da primeira edição tipográfica que traz impressa a indicação do ano em que foi feita e o nome do tipógrafo. 
                Neste ponto, devemos acrescentar que outra fonte atribui a invenção da imprensa ao médico Pafilo Castaldi da Feltre (que viveu entre 1398 a 1479). Sugundo tal suposição, os folhetos por ele impressos, em a461, aparecem antes que se tivesse notícia, na Itália, da invenção alemã. Parece, realmente, que só em 1465 o cardeal espanhol Torquemada, encontrando-os em Subiaco, convidou para irem visitá-lo, no mosteiro, alguns impressores alemães, que ali compuseram belissimas obras. Está positivado, todavia, que Castaldi foi o primeiro a exercitar, a serviço da Sereníssima, essa arte na Itália. A península pode gabar-se, portanto, de ter servido de berço aos mais famosos tipógrafos do mundo, entre os quais cabe o primeiro lugar a Aldo Manúzio, nascido em Bassano, em 1449. Manúzio, verdadeiro príncipe e aperfeiçoador dessa arte, imprimindo, em sua própria oficina, em Veneza, maravilhosos volumes, compostos com caracteres de sua criação, denominados, ainda hoje, aldinos, derivados do nome do inventor. 

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               Já vimos que o vocábulo imprensa é sempre mais comumente empregado para definir, indiferentemente, vários processos de impressão, tais como aqueles sobre tecidos, madeira, couro, metal etc., ao passo que se deveria empregar, em cada um destes casos, termos mais apropriados (calcografia, litografia, xilografia etc.) A arte de imprimir, real e própria, é aquela que se explica com duas bem distintas preparações: a a composição e a impressão. Em cada tipografia, seja particular (isto é, de proporções reduzidas) ou industrial, existem duas seções separadas: aquela para a composição (a  cargo dos linotipistas e tipógrafos) e aquela da impressão (a cargo dos impressores). A composição é feita, em alguns casos, ainda em nossos dias, a mão e, em outros, a máquina. Na composição manual, são empregados tipos obtidos, geralmente, com uma liga metálica, composta de chumbo, antimônio e estanho. Os caracteres, mais comumente chamados tipos, (isto é, modelos de letras avulsas) são móveis. Além das letras sigelas, os tipos compreendem, também, os números isolados, os sinais de pontuação e os chamados espaços tipográficos, os quais servem para espacejar palavras, e os brancos, que servem para distanciar as linhas entre si e enquadrar a composição. os tipos, que são fundidos nas respectivas matrizes, podem ser de várias espécies, ou seja, de várias formas, tamanho e espessura, mas cada série consta de uma coleção completa de caracteres, que garante a uniformidade de uma determinada impressão.  Os tipos são produzidos por fábricas especializadas, chamadas Fundições de Tipos. Cada tipo consta de um minúsculo bloco retangular, bastante alongado, e que, sobre uma extremidade chamada "olho" traz em relevo, uma letra, feita em sentido inverso ao normal para que, uma vez impressa, se possa lê-la no sentido exato, ao passo que a outra extremidade se denomina pé. (Dê uma olhadinha num caringo, que é muito comum e certamente você tem em casa, e assim ficará mais fácil entender.) Num dos lados, se encontra uma minúscula cavidade que serve ao compositor para reconhecer o verso, assim que todos os tipos estejam voltados para o lado certo. 
                     O operário compositor apanha, com o pólice e o índice da mão direita, da caixa de tipos, as várias letras de que precisa para formar as palavras. Estas, convenientemente espacejadas, formam uma linha. O comprimento ou "exatidão" de cada linha é estabelecido com precedência e calculado em "pontos". Mais linhas, regularmente distanciadas e postas em colunas, constituem a composição que deverá, a seguir, ser impressa no papel. Uma pinça apropriada lhe servirá, depois, para corrigir os erros eventuais (gatos) para o que extrairá da composição os tipos erradamente inclusos ou de cabeça para baixo, e os substituirá por aqueles certos. 
                  A composição feita baseada no texto original, que deve ser reproduzido e impresso. Executada a composição, o trecho, estreitamente ligado com barbante, para evitar que as letras fiquem fora de lugar, é colocado no tira provas, ou seja, um quadro de ferro, que os conserva bem apertados. Este, devidamente aplainado, é recoberto de tinta por um rolo adequado; em seguida, sobre a composição, se coloca uma folha de papel coberta por um papelão, Exercitando sobre o tira provas uma impressão por meio de um segundo rolo, se obtém a primeira impressão da prova, que serve para controlar o acerto da composição. Sobre a base da prova é feita a primeira revisão. Faz-se uma segunda prova, sobre a qual será feita segunda revisão, nem sempre definida. 

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                 É evidente que a composição manual resulta mais apurada, mas também mais longa e custosa, e por isso é intuitivo que, depois do advento da compositora mecânica, a indústria da imprensa se tenha voltado para esta, reservando o trabalho manuel para a composição de poucas linhas ou para publicações de luxo. As compositoras mecânicas são de dois tipos: uma que, simultaneamente, compõe e funde linhas inteiras escritas, e outra, que funde os tipos móveis e imediatamente depois compõe as linhas com tais caracteres. A primeira, indo pela ordem de tempo, é a Linotipo, aquela que revolucionou a impressão tipográfica. Até 1882, tinham sido registradas patentes para compositoras mecânicas (a primeira patente de invensão tinha sido concedida a Leroux, em 1843, por uma ideia rudimentar de compositora de fusão de tipos) realização, porém, nunca alcançou sucesso. Em 1886, um jovem emigrado da Alemanha, Ottmar Mergenthaler, então com trinta e dois anos de idade, realizou sua primeira experiência nas oficinas  da Tribune, de Nova Yorke. Ele bateu sobre o teclado da máquina, que, após um ronco e um estalo, deixou cair um minusculo e brilhante lingote de metal, quase da largura de uma coluna de jornal, no qual se viam oito palavras: O editor da Tribune exclamou, com entusiasmo: "A line o type!" (uma inteira linha impressa) frase com que foi batizada aquela portentosa máquina. 
                Na realidade, aquele milagre custara anos de estudos e de trabalho. Em 1867, Mergenthaler conhecera, em Baltimore, onde trabalhava numa fábrica de instrumentos de precisão, um indivíduo que, para seus trabalhos de copista, adquirira uma máquina litográfica (baseada na reprodução da escrita uma chapa de pedra) Isso sugeriu a Mergenthaler a ideia de que seria possível construir uma máquina de escrever que, imprimindo as letras em papelão, produzisse um modelo, sobre o qual, derramando-se metal fundido, se poderia formar uma linha de composição. 
              Mergenthaler, mesmo levantando muitas objeções quanto aos defeitos de semelhante sistema, pôs mão à obra e, durante dois anos, continuou a realizar experiências e a desenhar vários projetos, sem encontrar algum que o satisfizesse.  Improvisadamente, teve uma grande ideia: ao invés de papelão, passaria a usar um modelo de metal, pondo-o em contato com uma liga de chumbo para formar os caracteres. 
                 Mais dois anos de estudos, e a máquinas chegou a alcançar um notável grau de perfeição, mas somente no ano de 1886 ele pode sentar-se diante do teclado de sua criação que, naquela época, qualquer pessoa poderia chamar de "maquina pensante". Cada uma das noventa teclas comandava um tubo vertical onde se encontravam armazenados tipos de determinada letra, libertados cava vez que o teclado era premido, corriam ao longo de uma linha e iam formar, regularmente, a linha de composição. Neste ponto o metal fundido coava por uma fresta sob os moldes, dando lugar subitamente à impressão da própria linha. 
                Então, automaticamente, um braço metálico levantava os moldes para a parte superior da máquina e, afastando-os lateralmente, fazia-os recair cada um no próprio tubo-depósito. Dessa maneira, podiam ser impressas, com rapidez e de modo perfeito, uma linha após a outra. 
                  A linotipo de Ottmar Mergenthaler foi, a princípio, combatida pelos tipógrafos, porque executava o trabalho de sete compositores, mas bem cedo se demonstrou bastante providencial, pois deu vida a centenas de indústrias, propiciando trabalho a milhões de operários e empregados.  Ela tornou possível, outrossim, maior difusão da cultura, contribuindo para diminuir o custo da impressão. 
                  Em 1889, Mergethaler criava um modelo aperfeiçoado da Linotipe de 1866, mais veloz e bem mais resistente. E é este tipo de máquina, pouco incômoda e bastante silenciosa, que compõe, hoje, a maior parte dos nossos jornais e revistas. 
              O segundo tipo de máquinas atualmente em uso é a Monotipo, que, diferentemente da Linotipo, compõe-se de duas partes bem distintas: o teclado e a compositora-fundidora. Inventada, nos primeiros anos de nosso século, pelo americano Tolbert Lanston, ela assinala, realmente, um passo adiante na arte tipográfica, pois permite a correção da composição, sem que sejamos obrigados a refundir a inteira linha. 


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               Voltemos agora às provas de impressão, que foram enviadas ao revisor ou ao autor, para revisão. Procedida a correção definitiva, o chefe da oficina passa o trabalho impresso ao paginador, dando-lhe as instruções necessárias para providenciar o formato regular dos "pedaços" da composição. Estes são postos em colunas e distribuídas na página, com oportunos intervalos e espaços para iluminação, títulos, subtítulos e eventuais frisos ou molduras, segundo o desejo do cliente ou o modelo fornecido pela redação, quando se trata de jornal ou revista. 
                Agora, vamos a um olhar retrospectivo nas primeiras máquinas de impressão. A prensa de madeira, a mão, criada pelo próprio Gutemberg, ao qual foi sugerida a ideia ao ver um espremedor de uva, pontificou, com sucessivas, mas não muitas modificações, por mais de três séculos. 
                 Em 1805, o editor do grande diário londrino "Times" convidou dois mecânicos alemães, o Koenig e o Bauer, para estudarem um novo tipo de máquina, que tornasse mais célereo trabalho de impressão. Os dois atiraram-se à obra com o maior empenho, e a primeira impressora foi inaugurada, com êxito, em 1811. Ela sofreu novas e várias modificações, que a tornaram bastante apreciável. Koenig e Bauer voltaram para a Alemanha e abriram, nos locais de um antigo convento bávaro, a primeira fábrica de máquinas impressoras. E foi dessa fábrica que saíram, também, as primeira impressoras a cilindro. Ainda hoje a firma Koenig & Bauer é uma das mais importantes do mundo, quanto à produção de material tipográfico. 
                 Atualmente, as máquinas para impressão tipográficas são de múltiplos modelos, dos quais daremos aqui uns leves traços. 
              Suponhamos agora que uma folha (popr exemplo, um manifesto) deva ser impresso somente na face anterior. Nesse caso, bastará preparar uma única forma, que imprimirá apenas a página desejada. Este tipo é muito usadonas tipografias pequenas, porque serve unicamente para impressos de uso corrente (ou para cartas, envelopes, listas, manifestos etc.) A mais simples é a denominada platina, de um plano, em que é colocada a folha de papel para impressão. Esta se fecha como um livro sobre a composição e torna a abrir-se, para permitir a extração da folha impressa. A composição é novamente banhada de tinta, por meio de rolos, que recebem a tinta de um disco de metal ou de um cilindro de ferro e a redistribuem sobre os tipos, antes da impressão de cada folha. 
                Quando uma folha, ao invés, deva ser impressa em ambas as faces, para não ser passada duas vezes pela impressão, empregam-se máquinas capazes de conter as duas composições, isto é, aquela da face anterior (verso) e aquela da face posterior (anverso). Estas máquinas são usadas especialmente para a impressão de livros (máquinas planas ou a cilindro). 
              Há vários tipos de máquinas a cilindro. As mais Modernas são aquelas de carrinho, para grandes formatos. Nestas, a composição, devidamente entintada, corre para cima e para baixo, num plano horizontal, imprimindo as folhas, que são postas em contato com ele, e enrolando-as em torno de um cilindro fixo à medida que o pega-folhas as retira. 
                As máquinas para imprimir em várias cores diferem das demais, quanto à estrutura, por isso devem ser consideradas máquinas múltiplas. Nestas, a composição é dividida em dois ou mais blocos separados, cada um dos quais é umedecido com tinta da cor desejada. 
                Estas máquinas permitem poupar tempo na execução do trabalho, porque, imprimindo sucessivamente, na mesma folha, as várias partes diferentemente coloridas, evitam ter que repassar diversas vezes a folha na máquina, para cada cor. Em tal modo, conseguem-se todos os efeitos desejados, alcançando, além disso, uma alta precisão (máquinas planas para duas cores). 
               As rotativas, finalmente, constituem um tipo de máquina moderna, que serve para a tiragem rápida de jornais ou revistas de grande difusão. Tais máquinas ocupam um lugar especial no grande conjunto da técnica tipográfica. De fato, para imprimir nas rotativas, a composição não é executada com caracteres móveis, mas segundo o sistema de estereotipia. Trata-se de um processo um tanto simples. Sobre macios cartões, são impressas, a forte pressão, as páginas da composição. Obtêm-se, assim, as matrizes, chamadas flans, sobre as quais é derramado o chumbo derretido. Conseguem-se, então, páginas de composição de uma só peça e da espessura de cerca de 5 milímetros, que, montadas em blocos de alumínio, servem para imprimir. Estes cilindros, entintados pelo sistema contínuo, giram incessantemente sobre o papel (contido numa espécie de bobinas enormes), que é celeremente levado a contato com eles. Obtida a impressão, as folhas são mecanicamente cortadas e dobradas na maneira desejada. E o jornal está feito! 
                   O título de qualquer publicação faz parte desta. E nenhum periódico se pode publicar sem que todos os seus números insiram, bem no alto da primeira página, os nomes do diretor, editor e proprietário, indicação da sede da administração e do estabelecimento onde foi impresso. 
                E, nos países livres, a todos é lícito manifestar livremente seu pensamento, por meio da imprensa. 
                Esta é a história da imprensa, linguagem viva e universal, porque difunde de um canto a outro do globo o pensamento, as ideias e os conhecimentos humanos. Ao operário e ao seu humilde prelo, cabe, portanto, o privilégio de serem erigidos a símbolo da moderna civilização.
              Existem ainda outros processos empregados na imprensa, tais como a Litografia, ofsete  etc., mas desses falaremos oportunamente em outro documentários. 


sexta-feira, 12 de julho de 2019

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO VIDRO - Nicéas

               Os Fenícios descobriam o vidro por acaso, quando acamparam às margens do rio Bélus e procuraram preparar uma refeição.
             Dois povos disputam a primazia da invenção do vidro, os Fenícios e os Egípcios. A história contada pelos Fenícios é mais convincente. Eles dizem que, ao voltarem à pátria, vindo do Egito, pararam em Sidon. Ao chegarem às margens do rio Bélus, pousaram os sacos que traziam às costas, que estavam cheios de natrão. O natrão era carbonato de sódio natural, que eles usavam para tingir lã. Acenderam o fogo com lenha, e empregaram os pedaços mais grossos de natrão para neles apoiar os vasos onde deviam cozer os animais caçados. Depois, comeram e deitaram-se; adormeceram e deixaram o fogo aceso. Quando despertaram, ao amanhecer, em lugar das pedras de natrão encontraram blocos brilhantes e transparentes, que pareciam enormes pedras preciosas. 
                A primeira ideia que lhes ocorreu foi de ter havido um milagre. Afinal os antigos povos viviam procurando milagres em tudo o que a natureza mostrava. 
               Caíram de joelhos, acreditando que, durante a noite, algum gênio desconhecido realizara aquele milagre, mas o sábio Zelu, chefe da caravana, percebeu que, sob os blocos de natrão, também a areia desaparecera. Os fogos foram, então, reacesos e, durante a tarde, uma esteira de líquido rubro e fumegante escorreu nas cinzas. Antes que a areia incandescente se solidificasse, Zelu plasmou, com uma faca, aquele líquido e com ele formou uma ampola tão maravilhosa, que arrancou gritos de espanto dos mercadores fenícios. O vidro estava descoberto!
                 Esta é a versão, um tanto lendária, que nos transmitiram as narrativas de Plínio. Mas, notícias mais verossímeis sobre o conhecimento do vidro surgiram lá pelo ano 4.000 a.C., apos descobertas feitas em túmulos daquela época. Entre tesouros de inestimável valor, que eram postos ao lado das múmias dos faraós e dos grandes sacerdotes, foram encontradas, também, pérolas de vidro de muitos cores, magnificamente trabalhadas, que até imitavam pedras verdadeiras. Julga-se, entretanto, que os Egípcios principiaram a soprar o vidro em 1.400 a.C., dedicando-se, acima de tudo, às produção de pequenos objetos artísticos e decorativos, adquirindo, na sua colaboração, uma aperfeiçoada tecnologia de cores, como foi apurado ante as amostras descobertas nos túmulos de Tel-El-Amam. Os Egípcios e os Fenícios, tornados mestres consumados e competindo entre si na produção e comércio das vidrarias, absorveram os mercados então conhecidos e forneceram aos poderosos reis e graciosas princesas, colares e adornos que nada tinham a invejar, dada sua perfeição e luminosidade, às pedras preciosas. 
               A história do vidro tem suas raízes em lendas distantes, mas, ainda hoje, como há milhares de anos atrás, a fabricação desta útil matéria requer constante sacrifício e um estudo incalculável para torná-la mais perfeita nas múltiplas aplicações modernas. 

O comércio do vidro na antiguidade
                Os florescentes mercados Fenícios serviram para reunir e exportar os objetos de vidro. A destreza e a força pulmonar dos vidraceiras eram e ainda são postas a duras provas. 
                O Império Romano, naquele tempo, principiava a expandir-se com aquela marcha possante que ninguém conseguia obstacular e, após sujeitar também o Egito, reduzindo-o a uma província de Roma, fez-se pagar uma grande parte de tributos em objetos de vidro e em mão de obra, transferindo os melhores mestres vidraceiras para a Cidade, onde passaram a produzir incessantemente. 
                   O gosto pelo belo e pelo requintado começou a espalhar-se também nas severas casas romanas, e os patrícios competiam entre si, para revestirem paredes com chapas resplandescentes. Parece estranho que, mesmo usando vidro para múltiplas finalidades, não tivessem compreendido a utilidade de aplicá-las também nas janelas, que permaneceram, mesmo nas mansões mais luxuosas, simples buracos com chapas fixas de vidro, ou amplas aberturas, que se fecham com persianas inteiriças de madeira. O uso de janelas de vidro surgiu no fim do século I. 
               A entrada triunfal do vidro, considerado unicamente artigo de luxo, continuava, levado pelos Romanos, à medida que ocupavam novas terras. Gália, Espanha, Reno, Portugal, Bretanha, floresceram de indústrias, mas, com a queda do imperio ocidental, no  século IV, o preparo do vidro transferiu-se para o oriente, especialmente perto do porto de Bizâncio, que manteve tal predomínio até aos albores da Idade Média e mais além. A Síria consolidou sempre mais o rendoso comércio e é bastante provável que os Venezianos, geniais e intrépidos navegantes que eram, tivessem aprendido dos Sírios o segredo do difícil e preciosos preparo do vidro. 
               A primeira indústria de Veneza nasceu no século Ve teve seu maior esplendor no século XIV. Pelos fins do século XIII, o Conselho dos Dez ordenou que as fábricas fossem relegadas á ilha de Murano, a fim de evitar que os segredos da fabricação fossem divulgados. A profissão de oficial vidreiro, transmitida de pai a filho,tornou-se um título honorífico e assumiu foros de celebridade, quando um veneziano inventou o sistema de fabricação de espelhos, lá pelo ano 1317. Mas os países nórdicos não permanecem indiferentes a esta nova indústria, tão rica, e com um emissário do rei da França, pagando regiamente a um mestre vidreiro, conseguiu descobrir os processos de fabricação. Da França, à Alemanha, à Boêmia, o segredo foi-se expandindo e surgiram novas e poderosas indústrias em concorrência com Murano, cuja decadência coincide com o início da nova era histórica. 
               O vidro não ficou sendo unicamente uma prerrogativa dos ricos, pois, quando, no ano de 1876, o americano Weber inventou uma máquina para produção semi-automática das garrafas, todas as famílias puderam ter, para uso doméstico, vários objetos de vidro. 


Agora conheça a composição do viro
             É chegado o momento de saber exatamente o que é esse estupendo produto chamado vidro. 
                 As matérias primas que compõe o vidro podem-se dividir em três grupos: Os vitrificantes - os fundentes e estabilizantes.
        Os vitrificantes são indicados para dar maior característica a massa vidrosa e são compostos de anídrido silícico, anídrido bórico  e anídrido fosfórico. 
               Os fundentes possuem a finalidade de facilitar a fusão da massa silícea e são compostos de óxido de sódio e óxido de potássio. 
              Os estabilizantes têm a função de impedir que o vidro, composto de silícico e álcalis, seja solúvel, e são: óxido de cálcio, óxido de magnésio e óxido de zinco. 
               A sílica, matéria prima essencial, apresenta-se sob a forma de areia; de pedra cinzenta, de quartzo e siles, e encontra-se no leito dos rios e das pedreiras. Pedreiras importantes desse material são encontradas na Itália (especialmente na Toscana), na França, nas proximidades de Fontainebleau-Chantilly, na Alemanha e em outros países do mundo. O Brasil, por exemplo, é riquíssimo dessa matéria prima, principalmente em Minas Gerais e Goiás. 
                 Depois da extração das pedras, da areia e moenda do quartzo, procede-se à lavagem, a fim de eliminar-se as substâncias argilosas e orgânicas; depois, o todo é posto em grandes cadinhos ou panelões de matéria refratária, para ser fundido. 
               A mistura vitrificável alcança o estado líquido a uma temperatura de cerca de 1.300 graus e, quando funde, as substâncias não solúveis surgem à tona e são retiradas, como se faz com a espumadeira para o caldo. Depois da afinação, a massa é deixada para o processo de repouso, de assentamento, até baixar a 800 graus, para ser trabalhada. 


A complexa e minuciosa elaboração
           Ao entrarmos em uma fábrica de vidro, temos a impressão de haver mergulhado num dos círculos do Inferno de dante. Da clássica fornalha em forma de cúpula elevam-se altas chamas e o calor é deveras insuportável. No  interior do forno, se encontram os cadinhos ou panelões, onde a mistura vítrea está se fundindo, para tornar-se quase líquida ou maleável, apresentando a cor da gema de ovo.  Hoje, em muitos países, existem fornos a eletricidade, muito mais práticos do que aqueles a carvão e lenha. 
              O operário de uma vidraria é um verdadeiro artista. Ele imerge no cadinho, onde se fundiu o vidro, uma cana de ferro (1,230 a 1,50 de comprimento) e retira-a rapidamente, após dar-lhe uma voltas, trazendo, na sua extremidade, uma bola de matéria incandescente. 
                Agora, a bola incandescente deve ser transformada num ampola. O operário gira-a de todos os lados sobre uma placa de ferro chamada marma, fá-la voltear de todos os modos, equilibrando-a, e sopra-lhe no interior, por meio do canal existente no interior da cana, enquanto a bola ainda se encontra incandescente. A bola vai-se avolumando, torna-se oca, até que assume a forma desejada pelo vidreiro, que pode dar-lhe o modelo necessário, a mão ou pondo-a num molde adequado. 
            Finalmente, a peça manipulada vai para uma têmpera, a seção de resfriamento gradativo e, assim, ficará pronta para ser usada. Neste extenuante trabalho, perigoso e insalubre, o vidreiro empregou não somente sua habilidade - adquirida em anos e anos de práticas, pois um vidreiro não se improvisa -, mas também todo seu senso artístico. Além disso, seus olhos e seus pulmões foram postos a duríssima prova, naquela escaldante atmosfera. 
               O preparo do vidro plano é algo diferente. Em outra seção se encontra, também em estado de fusão, a matéria para vidraças. Igualmente apanhada por meio de uma cana, a bola de mistura incandescente é trabalhada pelo operário, que a faz rolar sobre a marma, onde ela assume o formato de um cilindro. Este deve ser cortado nas duas extremidades, enquanto um segundo operário o corta ao centro, com um ferro em brasa, fazendo ali cair aos poucos algumas gotas de água; s seguir, o cilindro é amolecido num forno e estendido sobre uma mese perfeitamente lisa, exatamente como se faz com a massa de farinha, com um rolo de madeira. A chapa vítrea está pronta. Agora, deve ser polida muito bem e cortada. 
                 Para esse trabalho são empregadas "rodas de ferro", cobertas de areia úmida, que afinam e dão brilho às vidraças. 
                  Em qualquer seção de vidraria que se entre, vê-se sempre uma nova maravilha. Eis, sentados diante de grandes mesas, os "vidreiros artistas", entretidos em criar figuras e arabescos, sobre frágeis copos. Para este trabalho, é necessário possuir um destacado senso artístico e mão firme. A minuciosidade de certas incisões lembra à nossa mente os preciosos e raros bordados em fios de ouro ou de prata, orgulho e paciência de nossas avós. O objeto a ser pintado é recoberto por camadas de cera e terebentina, sobre a qual os operários escrevem e desenham, e depois é exposto à ação do ácido fluorídrico, que corrói a parte gravada. E eis os copos, as garrafas, os vasos e toda a vasta gama de objetos decorativos, resplendendo sob nova luz, numa perfeição que parece quase fantástica. 
                 Não menos extraordinária é a habilidade do oficial vidreiro que fabrica termômetros. Ele sobra a bombinha vítrea pela cana, dando-lhe a forma de pera; um segundo operário gruda a ponta de sua cana á primeira e vai caminhando para trás, puxando o tubo, que o outro vai soprando, até se transformar num tubo muito fino, do comprimento de quase quarenta metros. 
             Estes tubos finíssimos são cortados na medida justa e possuem, em seu interior, um canal quase invisível, onde se coloca o mercúrio, depois de ali estarem gravadas as diversas temperaturas. 


Agora aprenda como se cria um binóculo
               Muito interessante é também a criação de um binóculo.
               Este maravilhoso instrumento foi descoberto por mero acaso. Um rapaz holandês, filho de um fabricante de óculos foi seu criador. O jovem estava brincando com duas lentes de óculos, uma côncava e outra convexa, e as pôs diante dos olhos, a fim de olhar para uma casa do outro lado da rua. De repente, emitiu um grito de admiração. A casa distante parecia estar bem perto dele! O pai, então, colocou as duas lentes  num tubo, após enegrecer as partes internas deste: a descoberta do maravilhosos binóculo estava feita; mas permaneceu em seu estado rudimentar, até que, em 1610, Galileu Galilei, usou, pela primeira vez, e aperfeiçoou o binóculo para poder estudar o mistério dos astros. 
              Longa, complexa e difícil é a produção do vidro para fins óticos. Escolhidas as melhores matérias, pela sua pureza e finura, coloca-se a massa num forno adequado, onde ela funde a uma temperatura altíssima e depois, no próprio cadinho, vai sendo arrefecida. Quando o vidro estiver solidificado, com um martelo, especial, é partido em pequeníssimos pedaços, para eliminar as partes que apresentam defeitos; a seguir, é amolecido lentamente. Quando a massa se encontra fundida homogeneamente, é despejada em moldes de várias medidas e espessuras, segundo o grau de ótica que se deseja obter. O primeiro que ideou máquinas para construir lentes para óculos foi Leonardo Da Vinci, que disso nos legou estupendos desenhos. 

A estranha história do VIDRO INQUEBRÁVEL
               Também o vidro inquebrável já era conhecido desde a antiguidade. Uma história atribuída a Tibério nos confirma sua existência entre os Romanos. Um oficial de vidreiro ousou apresentar a Tibério uma taça de vidro inquebrável, para resgatar a pena a que fora condenado. A taça, na verdade, atirada ao chão, não se partiu. Então Tibério perguntou-lhe: 
               - Você é o único que conhece esse segredo? 
               - Sim, sou o único - respondeu o incauto artista, julgando cair nas graças do imperador. 
               - Pois bem, já que é assim - retrucou o velho, irado -, será melhor que você morra, porque, se o vidro se tornar inquebrável, perderia seu valor e minhas indústrias ficariam arruinadas. 
               Hoje, este útil produto é usado para múltiplos fins. Ele é obtido mediante duas chapas de vidro frágil, entre as quais foi encaixado uma folha de xilonite, substância transparente, que se faz aderir ao vidro mediante um cimento especial, e forte tensão. De vidro inquebrável são feitos óculos para automobilistas e aviadores, vidros para trens e bondes, para aviões e navios, para prédios altos, evitando, assim, o perigo dos estilhaços durante colisões ou acidentes. è também muito utilizado para fins domésticos. Atualmente se utiliza muito os conhecidos blindex, que estilhaçam em pequenos pedados e, assim, evitam maiores danos. 
                    Os espelho, são superfícies vítreas de nobre qualidade e perfeito brilho.
           Outrora os espelhos eram placas lisas de metal, polidas com extremo cuidado, geralmente de bronze e, no caso de pessoas ricas, utilizava-se prata ou ouro. 
                  Hoje temos, no Brasil,  máquinas que produzem em pouco tempo, excelentes espelhos com o uso de pouca mão de obra. 


Outras interessantes aplicações do vidro
                 Ao lado da arte do vidro existe a arte dos vitrais de igreja. os resplandescentes vitrais, que admiramos em nossas catedrais, são compostos de vidros coloridos, unidos por pequenas tiras de chumbo (outros ligas também já são utilizadas). Eles formam artísticos quadros, transparentes, em que a luz de diverte a brincar em toda a magnificência de suas cores. Mas a cor não é dada ao vidro depois que ele se tornou chapa, mas sim misturada diretamente à massa em fusão, bem mesclada e tornada inalterável, mediante certos fundentes especiais. 
               A maior dificuldade, todavia, reside em transmitir os complicados desenhos aos vitrais, nos vários pedaços, antes que estes estejam ligados uns aos outros. Quando pensamos que os fragmentos dos mosaicos de vidro são milhares e milhares, podemos imaginar quão difícil e minucioso seja tal serviço. 
              Mas a aplicação do vidro não termina aqui. Depois de longos estudos, descobriu-se que ele é útil também nas construções, com um processo de preparação em vidro-cimento, que o torna translúcido, além de ótimo difusor de luz. Edifícios até à altura de dois ou três andares, foram elevados, com êxito lisonjeiro. O leito do rio Hudson possui, embaixo, uma extensa galeria, toda de vidro, em resistentes ladrilhos. Também as fibras de tecidos de vidro já passaram para o uso comum. Sua manufatura é fácil, mas requer bastante paciência. Apanha-se um bloco de vidro fundido; deixa-se aquecê-lo e cair uma gota do tubo rolante, que o reduz a fios. 
         Estes tecidos são úteis para revestimento de cabinas e servem como isolante nas construções, porque são péssimos condutores de calor.
              Ao ver a branca e espumosa massa reduzida a fios, parece quase impossível que, em sua origem, tenha sido um bloco de sílex  e quartzo, tão duro e uniforme. 
             A indústria de vidro figura em primeiro plano, em nosso país, nada devendo ás melhores do mundo. Aqui em São Paulo, é das mais antigas. Em princípio do século, o Conselheiro Antônio Prado e outros fundaram a Vidraria Santa Marina, tendo importado operários europeus especializados em vidro plano e garrafas, além de modernas máquinas para fabricação de "pirex". 
                   Contam-se, já, às dezenas, catedrais brasileiras ornamentadas com vitrais nossos. 
               Quantos prodígios puderam realizar os homens, com seu estudo e seu trabalho, visando ao progresso e  ao bem-estar das humanidade.