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quinta-feira, 11 de agosto de 2016

O CIDADÃO DE UMA DEMOCRACIA - Discurso de Teodoro Roosevelt


O PAPEL INDIVIDUAL DO CIDADÃO
Este discurso foi pronunciado na Universidade de Paris em 1910. 
               Hoje ocupar-me-hei do papel individual do cidadão, assunto que entre todos é de uma importância capital para vós, meus auditores, para os meus compatriotas e para mim, porque vós e nós somos cidadãos de grandes repúblicas democráticas. Uma republica democrática  como cada uma das nossas - que faz esforço para realizar, com toda a força da expressão, um governo do povo pelo povo, e para o povo, - representa a mais gigantesca de todas as experiências sociais possíveis, aquela que, por muitos motivos, tem o dom de conduzir ao maior dos bens ou ao pior dos males. 
               O sucesso ou o insucesso de republicas como a vossa  ou como a nossa, é o triunfo ou a desgraça da humanidade; e para vós como para nós, a questão da qualidade do cidadão considerado como indivíduo, domina todas as outras. Sob outras formas de governo, sob o domínio de um homem ou de um reduzido número de homens, a qualidade dos governantes é a primeira de todas. Se, em tais governos o número desses últimos é suficientemente elevado, o país pode conhecer durante gerações uma carreira brilhante e aumentar a massa do que marca no mundo, por mais medíocre que possa ser o nível do cidadão ordinário; porque o cidadão ordinário é uma quantidade quase desprezível na elaboração dos resultados a que conduz este tipo de grandeza nacional. 
               Mas para vós e para nós o caso é diferente. Para vós aqui, e para nós no meu país, o sucesso resultará, no fim de contas, da maneira como o homem vulgar, a mulher vulgar cumprem o seu dever, primeiro nas situações quotidianas e habituais da vida, mais tarde na hora destas grandes crises que reclamam o concurso das virtudes heroicas.
               Afim de que as nossas republicas alcancem bom êxito é preciso que o cidadão vulgar seja nelas um bom cidadão. 
               A corrente não será capaz, em circunstâncias normais, de se elevar mais alto que a sua fonte originária, e a fonte originária da potência nacional e da grandeza nacional acha-se no valor médio do cidadão. Convém pois que nada  descuremos para que o nível do cidadão vulgar fique elevado, e este nível não pode ser elevado senão quando o dos chefes o é muito mais ainda. 
              Em todas as repúblicas, em todas as democracias acontece que uma grande proporção entre os chefes provém, muito naturalmente, das classes representadas hoje neste  auditório; mas com a condição que estas classes possuam a simpatia do povo e a dedicação a um ideal superior. Vós, e aqueles como vós, tendes gozado de vantagens especiais; tendes-vos encontrado todos em situação de receber uma educação intelectual; tendes podido, na maior parte, aproveitar a vida mais largamente do que a massa dos vossos concidadãos. A vós e àqueles que como vós muito tem sido dado; muito deve ser de vós esperado.  Ha algumas vezes certos desânimos contra os quais convém que os homens  de instrução e de cultura, os homens que herdaram uma fortuna e uma posição social, se ponham eles mesmos em guarda, porque a isso são eles os mais naturalmente inclinados ; e se eles cedem, as suas possibilidades - as vossas possibilidades - de ser uteis, ficam reduzidas a nada. 
               Que o homem de saber, que o homem de ócios letrados, se defenda da singular e mesquinha  tentação de tomar diante dos olhos e diante de si próprio atitudes de cínico, de homem que se elevou acima das emoções e das crenças, e para quem o bem e o mal é tudo a mesma coisa. A pior maneira de encarar a vida é encará-la com a zombaria nos lábios. Há muitas pessoas que tiram um orgulho doentio do seu cinismo, muitas pessoas que não sabem fazer outra coisa senão criticar a maneira como os outros realizam o que eles próprios não se arriscariam sequer a tentar.   
              Não há ser menos são; não há homem menos digno de respeito do que aquele que observa ou finge observar uma atitude de desdém irônico a respeito de tudo o que é grande e elevado, seja pelos resultados atingidos, seja pelo nobre esforço que, mesmo no caso de insucesso, vem em segundo plano, logo a seguir ao êxito pleno.
               Hábitos cínicos de pensamento e de palavra, uma constante disposição a criticar a obra que o crítico não tenha nunca executar, um intelectualismo distanciado que não seria capaz de aceitar o contato com as realidades da vida; todos esses traços são outros tantos sinais, não de superioridades, como o seu possuidor poderia julgar, mas de fraqueza... São a marca das pessoas incapazes de cumprir  como homens o seu dever na austera batalha da vida, e que procuram, afetando o desprezo pelo que os outros realizam, dissimular aos outros e a si próprios a sua própria debilidade. O papel é fácil, nenhum o é mais, salvo no entanto o do indivíduo que zomba ao mesmo tempo do crítico e do homem de ação.   
               Não é o crítico que marca; não é o indivíduo que mostra como o homem forte deu um mau passo ou como o autor de ações teria podido dá-los melhores. O crédito  pertence ao homem que desceu com a sua pessoa à arena, cujo rosto sujo da poeira, do suor e do sangue; que luta energicamente, que erra, sofre um revez, e outro ainda, porque não há esfôrço, sem acompanhamento de erro ou falta; mas que se esforça de maneira a fazer o que deve ser feito, que conhece os grandes entusiasmos, as grandes  abnegações, que se gasta por uma causa digna, que no caso de pleno sucesso conhece finalmente o triunfo da grande obra realizada, e que se acontece o pior, e sofre um novo revez, pelo menos naufraga no decurso dum vasto esforço; de tal modo que o seu lugar não será nunca ao lado destes seres tímidos e insensíveis que não conhecem nunca a vitória nem a derrota. Maldição ao homem  de gosto cultivado que deixa a sutileza de espírito produzir nele um desdém que o torna impróprio às rudes tarefas de um mundo laborioso! Entre os povos livres  que se governam por si próprios não há senão um campo de utilidade muito restrito para as pessoas de vida claustral a quem repugna o contato das outras pessoas. Há menos lugar ainda para aqueles que zombam ou depreciam a obra dos que suportam o peso da vida; ou para estes outros ainda que declaram constantemente que gostariam de se entregar à ação, se as condições da vida não fossem o que elas são. Irônico, pretensioso ou voluptuoso, todo o indivíduo incapaz de ação faz na história a mesma figura mesquinha. Nada há que fazer do indivíduo cuja alma tíbia ignora as grandes e generosas emoções, os grandes orgulhos, as crenças severas, o entusiasmo dos homens que subjugam o raio e dominam a tempestade. Felizes estes homens se conseguem vencer; menos felizes, mas felizes ainda, se sossobram, porque, pelo menos, ter-se-ão aventurado nobremente, com toda a sua força. É Hotspur, gasto pela guerra, esgotado pelo rude combate, Hotspur, de erros numerosos e de fim valoroso, de quem nos é grato evocar a recordação na nossa memória, e não o jovem Lord que , se não fosse estes vis canhões, teria sido soldado. 
               A França deu muitas lições  aos outros povos; seguramente uma das mais importantes é a que resulta de toda a sua história, isto é, que um alto desenvolvimento artístico e literário é compatível com uma notável mestria na ciência das armas e na do governo. O brilho da bravura do soldado francês é proverbial desde séculos, e durante estes séculos, em todas as côrtes da Europa os "franceses-maçons da moda" adotaram o francês como língua comum, enquanto que todos os artistas, homens de letras e de ciência capazes de apreciar este maravilhoso instrumento de precisão que é a prosa francesa, se voltavam para a França, pedindo-lhe apoio e inspiração. Alonga duração desta superioridade nas armas e nas letras é singularmente  manifestada pelo fato que a mais antiga obra-prima que conta qualquer das línguas modernas, é a esplêndida epopeia francesa narrando a catástrofe de Rolando e a vingança de Carlos Magno, no dia em que os chefes do exército franco caíram em Roncesvalles. 
              Que aqueles que tem o conservem, que aqueles que não tem se esforcem por atingir um alto grau de cultura e de instrução. Mas não esqueçamos que comparados a outros bens, estes não vem senão em segundo lugar. É preciso que o espírito seja são e o corpo mais ainda. Mas acima do espírito e acima do corpo há o caráter, aquilo em que se confundem as qualidades que nos vem  ao espírito, quando falamos a força e da coragem de um homem, da sua retidão e da sua noção de honra. Eu tenho fé nos exercícios físicos, contanto, bem entendido, que não esqueçamos que o desenvolvimento físico é um meio e não um fim. 
              Estou convencido, evidentemente, que uma boa educação deve compreender, além do saber tirado dos livos, muitos elementos para ser verdadeiramente boa. Não devemos esquecer que nenhuma acuidade  ou sutileza de inteligência, nenhuma delicadeza de maneiras, nenhuma habilidade poderia compensar a falta das grandes qualidades fundamentais. O domínio de si mesmo, o poder de constranger, o senso comum, a faculdade de aceitar a responsabilidade individual e no entanto proceder de colaboração com os outros, a coragem e a resolução; eis as qualidades pelas quais se reconhece um povo soberano. Sem elas nenhum povo se pode reger a si mesmo, nem a si mesmo evitar que seja regido de fora. 
               Eu dirijo-me a um auditório brilhante, falo no recinto  de uma grande universidade que representa a flor do mais alto desenvolvimento intelectual, Diante da inteligência  e diante de ensinamentos especiais e aperfeiçoados que recebe aqui a inteligência, eu me inclino. E não obstante isso tudo, eu sei que terei o assentimento  de todos vós que me escutais, se  acrescentar que de maior importância ainda são as qualidades comuns e as virtudes de todos os dias. 
                Estas qualidades comuns e de todos os dias compreendem a vontade e o poder de trabalhar, de combater se for preciso, e de ter muitos filhos saudáveis, A necessidade para o homem médio de trabalhar é tão evidente que não é preciso insistir nela. Em qualquer país há poucas pessoas nascida em tais circunstâncias que possam levar vida de qualidade. 
                 Estas mesmas podem desempenhar um papel útil se mostrarem, pelo seu exemplo, que a ausência  dum modo de vida não é sinônimo de ociosidade; porque uma parte do trabalho mais preciso de que a civilização tem necessidade não assegura nenhuma retribuição à queles  que a ele se dedicam, e é preciso naturalmente que eles sejam primeiramente tirados dos meios onde vivem os que não precisam se preocupar com as questões de retribuição. 
                Mas o homem médio deve ganhar sua vida. Deve ser educado com este objetivo e educado de maneira a compreender que fica numa situação digna de desprezo, se proceder de outra forma; que não é objeto de inveja se foram ocioso, qualquer que seja o grau de escala social que ocupe, mas um objeto de desdem, um objeto ridículo.

OS DEVERES PARA COM A NAÇÃO 
               O homem de bem, por outro lado, deve ser forte e destemido, isto é, capaz de combater, de servir o seu país como soldado se se apresentar a ocasião. Há filósofos de boas intenções que declamam contra a iniquidade da guerra. Tem razão contanto que seja somente contra a iniquidade que eles insistem. A guerra, é uma coisa horrível, e uma guerra injusta é um crime contra a humanidade, mas é  um crime porque é injusta e não porque é guerra. A escola deve ser sempre a favor do direito, quer a alternativa seja a paz ou a guerra. A questão não deve ser simplesmente: Vai haver paz ou a guerra? A questão deve ser: o bom direito deve prevalecer? As leis da justiça serão mais uma vez observadas? E a resposta de um povo forte e viril será: "Sim. seja qual for o risco." Nenhum esforço honroso deve nunca ser omitido para evitar a guerra, da mesma maneira que nenhum esforço honroso nunca deve ser omitido pelo indivíduo, na vida privada, para evitar uma questão e conservar-se afastado de disputas; mas nenhum indivíduo que se respeita, nenhuma nação que se respeita, devem submeter-se à injustiça. 
                Enfim, de maior importância ainda que a capacidade de trabalho, de maior importância que a capacidade de combater se for preciso, é, para todas as nações a lembrança de que nenhuma vantagem é comparável para ela, há de deixar herdeiros do seu sangue para ocupar a sua terra. 
                Era a benção suprema nos tempos bíblicos e é-o ainda hoje. O pior de todos os flagelos é o flagelo da esterilidade, e as mais rigorosas de todas as condenações devem perseguir a esterilidade voluntária. A mais essencial de todas as necessidades, em qualquer civilização, é que o homem e a mulher sejam pai e mãe de filhos robustos, de maneira que a raça cresça em lugar de decrescer. Se não acontece assim, se sem nenhuma culpa da sociedade, falta o aumento de população, é uma grande desgraça. Se esta falta é de vida a causas calculadas e voluntárias, não é então simplesmente uma desgraça, é um destes crimes de relaxação, de egoísmo, de temor pelas dificuldades, pelo esfôrço e pelo risco, que, com o tempo, a natureza pune mais duramente do que nenhum outro. Se nós, homens de grandes repúblicas; se nós, nações livres, que nos lisonjeamos por nos termos emancipado do jugo da injustiça e do erro, atraímos sobre as nossas cabeças a maldição que fere a esterilidade voluntária, será para nós o mais vão gasto de palavras vangloriar-mo-nos dos nossos altos feitos, e celebramos as obras que temos realizado. Nenhum refinamento de vida, nenhuma delicadeza de gosto, nenhum progresso material, nenhum amontoado sórdido de riquezas, nenhum desenvolvimento encantador da arte e das letras pode,a qualquer respeito, compensar a perda das virtudes fundamentais, e destas virtudes fundamentais a maior é o poder da raça de se perpetuar. 
                O caráter deve transparecer da maneira como o homem cumpre o seu dever para consigo mesmo, e seu dever para com o Estado. O primeiro dever do homem diz respeito a ele e à sua família, e não pode cumpri-lo senão ganhando a sua vida e fornecendo aos seus o indispensável para o  bem estar material; é somente depois que pode esperar construir sobre sólida fundação material  uma alta superestrutura; é somente depois que ele pode ajudar  aos movimentos para o bem geral. Deve encarregar-se, em primeiro lugar, do seu próprio fardo, e só depois disso , o excedente da sua força poderá servir para o conjunto do público. não há nenhum proveito em provocar este riso amargo que significa desprezo, e o desprezo é o que nós experimentamos para com o indivíduo cujo entusiasmo em socorrer a humanidade é tal, que se torna pesado aos outros;que entende fazer grandes coisas pela humanidade em geral, mas é incapaz de assegurar o conforto da sua mulher e a educação dos seus filhos. 
                 Não obstante isto, e dando toda a importância a este ponto, e não somente constatando, mas insistindo no fato de que deve haver, para o indivíduo e para a nação, uma base de bem estar material, insistamos não menos fortemente sobre este outro ponto que o bem estar material não é mais do que uma fundação, e que a fundação, ainda que indispensável, não adquire o seu valor senão quando se lhe constrói em cima a superestrutura de uma vida mais alta. É por este motivo que eu me recuso a reconhecer o multimilionário, considerado em mesmo, o homem que não é senão riqueza, como o valor no ativo de qualquer país, e especialmente do meu. Se ele ganhou ou empregou a sua riqueza de uma maneira que faz dele um homem proveitoso e útil, e é muitas vezes o caso, então, evidentemente, figura no ativo da nação. Mas é a maneira como a riqueza foi ganha e empregada, e não a riqueza por si mesma, que lhe assegura este mérito. 
                  São precisas em negócios como em quase todas as formas da atividade humana, grandes inteligências diretoras. 
                  Nenhum número de inteligências menores poderia substituir aquelas. 
                  Convém que os seus serviços sejam amplamente reconhecidos e recompensados. Mas fujamos de atribuir à recompensa a admiração que devemos ao ato recompensado; e se o que deveria ter sido uma recompensa existe sem que o serviço tenha sido prestado,  a admiração virá então apenas das pessoas de alma inferior. 
                  A verdade é que, depois que uma certa porção de sucesso ou de recompensa material foi obtida, a questão de a aumentar diminui constantemente de importância em comparação com o resto que há de fazer na vida. É mau para uma nação oferecer à vista e admirar um falso gênero de sucessos, e nenhum outro há mais falso do que supor que a divinização do bem estar material em si mesmo e por si mesmo, ofereceria um exemplo a seguir. 
                  O homem que, por qualquer motivo que lhe seja imputável, deixou de prover às suas necessidades e às das pessoas que dependem dele, deve ter presente que falhou lamentavelmente no primeiro dos seus deveres. Mas o homem que, depois de ter ultrapassado o limite do que é necessário para o corpo e o espírito de si mesmo e dos seus, amontoa uma vasta fortuna, para a aquisição ou conservação da qual ele não assegura em troca, a favor da nação, nenhuma vantagem equivalente, esse homem deveria ser forçado a compreender que longe de ser na comunidade um cidadão invejável, é um indigno; que não pode ser admirado nem invejado; que os seus compatriotas de pensamentos retos o colocam muito abaixo na escala dos cidadãos e o abandonam à admiração daqueles cujas aspirações são de um nível ainda mais baixo do que as suas. 
                 De fato, é essencial, sob o ponto de vista da boa qualidade do cidadão, que seja bem compreendido que há certos méritos que nos outros, membros duma democracia, somos levados a admirar em si mesmos e por si mesmos, quando com verdadeira justiça ser julgados dignos de admiração ou o contrário, somente segundo o uso que se faz deles.  Em primeiro lugar entre estes colocarei dois dons muito importantes: o dom de saber ganhar dinheiro e o dom oratório. Do primeiro, do ganho material já falei. 
                 É uma qualidade que, restrita a limites modestos, é essencial. 
                 Também pode ser útil elevada a um alto grau, mas somente quando for acompanhada por outras qualidades; e sem o predomínio destas últimas, aquele que a possui tende a tornar-se um os menos simpáticos que uma democracia moderna pode possuir. 
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BREVE BIOGRAFIA DE Teodoro Roosevelt
             Teodoro Roosevelt, escritor e estadista norte-americano, nasceu em Nova York a 27 de Outubro de 1858 e faleceu em 06 de Janeiro de 1919. Tomou parte na assembléia do Estado Republicano de Nova York (1882 x 1884); em 1886 viu derrotada a sua candidatura à Governador do Estado de Nova York; de 1880 a 1895 foi comissário do serviço civil dos Estados Unidos; de 1895 a 1897 exerceu a presidência do Conselho Superior de Comissários de Polícia; de 1897 a 1898 foi Secretário-Suplente da Marinha. Tenente Coronel do primeiro regimento voluntário de Cavalaria  (Rough Riders), combateu em Guaximas a 24 de Junho de 1898 e em São João a 1 de Julho daquele ano, sendo promovido coronel em 8 de Julho do mesmo ano. Eleito finalmente Governador de Nova York em Novembro de 1898 e vice-presidente dos Estados Unidos  em 1900; e pela morte do presidente Mac Kinley, assumiu a presidência em 1901.  Em 1904 foi eleito para continuar na presidência por mais quatro ano, recudando-se a se recandidatar em 1908. Entre outras obras escreveu: A Guerra Negra de 1912 e as Notas de Tomás H. Benton e do Gouverneur Morris. 
Nicéas Romeo Zanchett 




sábado, 21 de fevereiro de 2015

COMO FORAM CRIADOS OS DOZE MESES DO ANO -Nicéas Romeo Zanchett


               A criação do calendário que utilizamos surgiu com o aparecimento do Cristianismo. O Imperador Constantino acabou com as crenças pagãs e obrigou a todos seguirem os novos princípios de uma única religião, o Cristianismo. 
               Apesar das determinações do imperador a memória dos deuses e deusas ainda vive em muitas formas e tradições. 
               A contagem do tempo está estritamente ligada aos costumes e instituições dos romanos. Em  nosso calendário, estabelecido por Júlio César, podemos encontrar as línguas árabe e o hebreu que não derivaram os nomes dos doze meses dos deuses romanos. 
Deus Jano.
               O primeiro deus aparece na figura estranha de duas caras, um deus que olha para diante e para traz, e que segura na mão esquerda uma chave: é Jano. Os romanos adoravam Jano num templo que estava aberto durante as guerras e que se fechava quando havia paz. Era o deus dos princípios e dos fins; sempre que um romano devoto pretendia começar ou acabar bem alguma coisa implorava a proteção de Jano. Esse deus  era também o porteiro do céu, e os romanos o tinham como protetor das suas portas e portões. Como a  ano tem doze meses, assim o seu templo tinha 12 portas. A ideia surgida para representar o deus Jano foi muito interessante  e feliz; e assim surgiu o mês de Janeiro. Esse mês é a época em que todos nós olhamos para o passado e planejamos o futuro; pensamos nos erros e acertos para uma vida melhor. 
Februa - a deusa das purificações
                 No segundo mês do ano celebravam-se festas especiais em honra de Juno e Plutão, rei dos infernos; havia lugares especiais para aplacar as almas dos defuntos. Estas festas eram também para espiação para o povo, e chamavam-se februaes (latin). Os romanos consideravam a festa como uma purificação espiritual. Fevereiro é o mês mais curto do ano com 28 dias nos anos comuns e 29 nos anos bissextos. (NOTA- De cada 4 em 4 anos é necessário juntar-se um dia a mais porque o ano realmente tem 365 dias e "6 horas"; 6 x 4 = 24 horas). Portanto essa é uma "conta de chegar". Para se chegar a essa conta, Julio César chamou a Roma o astrônomo Sosigenes que morava na Alexandria. Ele então fez os cálculos e sugeriu que a cada quatro anos se acrescentasse mais um dia no menor mês. 
Marte - deus da guerra. 
                  Marte, o deus da guerra foi escolhido para representar o mês de março. Esse deus é uma figura que passa no cortejo em cima de uma carro de guerra puxado por dois cavalos cujos nomes são Terror e Fuga.  Trata-se de um guerreiro ameaçador, manejando uma comprida lança, levantando para o céu um escudo brilhante e erguendo a sua cabeça divina de forma altiva, iluminada pelos raios do seu capacete. 
                  Para os romanos, Marte era mais que um guerreiro, era um deus que podia conseguir tudo pela sua grande força. A ele pediam chuva e tudo mais, além de consultarem-no sobre suas vidas em particular, sacrificando em seu altar um carneiro, cavalo, lobo e até mesmo abutre. Quando os soldados iam para a guerra sempre levavam galinhas consagradas a Marte; eram aves consideradas sagradas, e antes dos combates davam-lhe milho, que às vezes era comido com avidez e outras vezes eram rejeitados; se comessem era sinal de que Marte os protegeria, mas se rejeitassem estavam indicando má sorte. Marte era associado ao trovão e ao relâmpago, mas estavam convencidos de que era a pequena ave chamada "Pica-pau" que ao bater o tronco da árvore com seu bico barulhento estava confirmando que o deus Marte havia aceito suas súplicas.
Primavera - Sandro Botticelli 
                   O quarto mês do ano é Abril, que na Europa é o período em que se renova a vida nos campos, as árvores cobrem-se de folhas e flores. "Omnia aperit!", exclamavam com admiração, que significa "abre tudo!". Portando não é um deus nem uma deusa, mas sim um um anjo da primavera. Gracioso delicado, meigo e bom, espalhando lindas flores por toda a terra. Os romanos perceberam que neste mês renasciam todas as coisa que haviam desaparecido com o vento e o inverno rigoroso. Diziam "abre-se tudo". E assim surgiu o mês de Abril, na tela acima representado pelo pintor Sandro Botticelli. 
Deusa Maia 
                Depois de Abril vem a deusa Maia, sentada num trono de luz. Seu pai chamava-se Atlas e supunha-se que sobre seus ombros assentava o mundo inteiro. Esse deus tinha sete filhas e a mais célebre era Maia, cujo filho era mercúrio  que imaginavam ser o portador das ordens dos deuses para a terra. Júpiter, o pai de todos os deuses, levou Maia e as suas irmãs e colocou-as como estrelas no firmamento (céu). Supunha-se serem elas formadoras de um grupo de estrelas chamado "as Plêiadas". Portanto, como vemos,  o nome de Maio foi dado em homenagem à deusa Maia. 
Juno - rainha do céu e esposa de Júpiter.
               O mês de Junho tem uma história bem interessante. São duas figuras disputando o sexto lugar. Uma  era a deusa Juno e a outra é um homem, Júnio. Ainda hoje há divergência de opiniões sobre este nome: uns supõe consagrado a Júnio, e outros, que são a maioria, à deusa Juno, esposa de Júpiter. Seu trono de ouro estava junto ao seu marido. Todos os deuses lhe prestavam homenagem quando se apresentavam no palácio de Júpiter; tinha poderes superiores, pelos quais exercia domínio nos fenômenos celestes, produzia trovões nas alturas, desencadeava ventos e mandava nos demais astros. Gostava de passear pelos bosques sagrados num carro puxado por pavões. 
Júlio César - Imperador romano. 
                O sétimo mês do ano foi dado em homenagem a um dos maiores homens que já existiram; foi um grande guerreiro estrategista, imperador de Roma Júlio César. Aqui cabe lembrar uma curiosidade: Houve um tempo em que o ano começava em março e, portanto, este era o quinto mês do ano; os romanos chamavam-no de "quintilius", que significa o quinto. Júlio César não apenas foi um grande guerreiro conquistador de nações, como também criador de leis celebres e escreveu livros imortais. Foi ele que fez uma reforma no calendário já em estado deplorável. É que o tempo e os meses já não se correspondiam como antigamente; a primavera da Europa, por exemplo, vinha em Janeiro e o inverno nos meses que deveriam corresponder à primavera. O mês "quintilius" foi eliminado em sua honra, tomando seu nome, Júlio. 
Otávio Augusto - Imperador 
              O mês de Agosto foi dado em homenagem ao sobrinho de Júlio César, Augusto. Seu nome era Otávio, mas foi mudado e governou os romanos com Marco Antônio e Lepido. Por fim foi imperador e fez muito para o engrandecimento do Império Romano. O povo, na intenção de lhe agradar, mudou seu nome para Augusto, que significa nobre. Nessa circunstância o oitavo mês do ano foi chamado de Augustus. Aqui existe também uma curiosidade; como o mês de Júlio tinha  31 dias e o mês de Agosto só 30, os romanos ficaram preocupados com um possível desagrado a Augusto; assim sendo tiraram um dia do mês de Fevereiro e puseram-no em Agosto.  Por essa razão Julho e Agosto tem 31 dias. A escolha se deu porque os romanos precisavam de uma data para celebrar os feitos de Augusto. No mês de Agosto ele foi eleito cônsul, também por sua dedicação acabaram as guerras e foi neste mês que ele conquistou o Egito. O seu reinado recebeu o nome de "Idade do ouro" porque trouxe paz ao mundo já cansado de tantas guerras; além disso foi um período em que floresceram a arte e a literatura. É bom lembrar que os poetas HORÁCIO E VIRGÍLIO viveram nessa época; fundaram-se então livrarias e construíram-se templos por toda a parte dominada pelo império. Foi no reinado de Augusto que, longe, na Síria, nasceu a criança JESUS MENINO, cujo reinado ainda não acabou e cujo nascimento criou novos costumes e uma nova era. E assim, os dois grandes imperadores romanos ficaram com essa homenagem que chegou até nossos dias. Quanto a Jesus continua imperando e mantendo a cruz de seu sacrifício que é o marco de separação entre o reinado de Augusto e o começo da religião cristã. 

              O primitivo calendário romano tinha apenas dez meses e  começava em março; dessa forma o sétimo mês era Setembro donde vem o nome. Os romanos escreviam VII. Este número lia-se em latim "sptem", de onde derivou September, que em português é o nosso Setembro. 
Calendário Romano

               O nome Outubro vem da palavra oito, cuja origem é o latim "octo". Outubro era o mês das colheitas, em especial da vindima para fabricação de vinhos. No calendário de hoje é o décimo mês, mas no romano, que começava em março era o oitavo. Foi o rei de Roma, Numa, que fixou o princípio do ano no dia 1 de Janeiro; mas, mesmo assim, Outubro continuou tendo o mesmo nome. Tanto os romanos como os gregos celebravam muitas festividades neste mês, principalmente para homenagear as boas colheitas, cujas frutas eram oferecidas às divindades. Em uma destas festas era costume atirar, aos poços e fontes, coroas tecidas de flores e ervas; um tributo às ninfas, a quem tais festas eram consagradas. 
                 Novembro também tem origem no número que é nove -Antigo calendário romano- chamava-se "November". Contava-se entre os mais importantes do ano pelo respeito Á festividades e ritos religiosos; estava consagrado a Diana -deusa das montanhas, dos bosques e da caça -. As festividades começavam com um banquete dedicado a Júpiter e com jogos circenses, chamados assim porque se realizavam no circo. No mesmo mês se celebravam os jogos "plebeus", instituídos para comemorar a reconciliação de patrícios, ou nobres, e plebeus; se ofereciam sacrifícios a Netuno, deus dos mares; nesse mês se faziam as festas "brumaes" (latin), ou do inverno, por começar o tempo chuvoso, nevoento, frio e desagradável na Itália. 
                 O mês de Dezembro era o décimo mês no calendário romano e chamava-se "December" de "decem", dez - o último mês. Dezembro é um mês característico do frio inverno nos países da Europa, e por isso é representado numa paisagem desolada, com caminhos cobertos de neve. Hoje é costume figurá-lo por um velhinho de barbas brancas, que traz brinquedos para as crianças na época de Natal. Para muitos esse velho representa São Nicolau, que viveu no século IV e é considerado como patrono das crianças. Esta ideia origina-se numa lenda segundo a qual São Nicolau teria feito ressuscitar três crianças que haviam sido assassinadas por um bandido. 
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Nicéas Romeo Zanchett 

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O COMBATE DO CANHÃO - Por Victor Hugo


O COMBATE DO CANHÃO 
Por Victor Hugo
               Boisberthelot não teve tempo de responder a La Vienville, porque, antes de acabar de falar, foi bruscamente interrompido por um grito de desespero. Ao mesmo tempo ouviu-se um ruido diferente de todos os ruídos costumados; aquele grito e aquele ruido vinham do interior do navio. O capitão e o tenente precipitaram-se para a entre-ponte, mas não puderam lá chegar porque todos os artilheiros subiam, assustados.  Um dos canhões da bateria, uma peça de vinte e quatro, desprendera-se das amarraduras. É este, sem duvida nenhuma, o mais terrível acontecimento que se pode dar no mar; nada mais horrível pode suceder num navio de guerra, quando em marcha no alto mar. 
                O canhão que quebra as suas amarras, transforma-se bruscamente numa espécie de fera sobrenatural; é uma máquina que se torna monstro; é uma massa que se agita sobre as suas rodas, que tem movimento de bola de bilhar, que se inclina ao transportar-se d'um lado para o outro, que se encava quando choca, que vai, vem, se demora, parece que pensa, recomeça a correr, atravessa como uma flecha o navio d'um extremo ao outro, salta, foge, empina-se, bate, destroça, mata, extermina.  É um ariete que bate por sua vontade na muralha, com a diferença que este ariete é de ferro e a muralha de madeira. É a matéria que se liberta; e parece que esse escravo eterno quer vingar-se; parece que a malícia dos que chamamos objetos inertes, se revolta e rebenta de súbito; parece que perde a paciência e tira a sua desforra. É poderosa a cólera do inanimado. Esse pedaço de ferro forjado dá saltos de pantera, tem o peso do elefante, a agilidade do rato, a dureza do machado, o inesperado das ondas, a velocidade do raio e o silêncio do sepulcro. O seu peso é enorme e salta como uma bola ou torce bruscamente, cortando em ângulo reto a linha que acaba de traçar. Que se há de fazer? Como se pode educar esse monstro? A tempestade acaba, o ciclone passa, o vento acalma-se, o mastro quebrado pode substituir-se, tapa-se o rombo por onde entra água, o incêndio apaga-se; mas que fazer  com essa enorme fera de bronze? De que meios lançar mão? Pode-se ensinar um cão de fila  espantar um touro, matar um tigre, fascinar uma bola, enternecer um leão, mas não há meio algum de subjugar esse monstro que se chama canhão desamarrado. Não se pode matar porque está morto; no entanto, vive uma vida sinistra que faz com que destrua tudo. Tem por baixo de si o chão do navio que balança e que faz mover-se, e o mar faz mover o navio e o vento faz mover o mar. Esse instrumento de destruição e de morte não é mais do que um joguete do navio, das ondas e dos ventos;de tudo isso junto, nasce a sua vida pavorosa. Como se pode alguém livrar-se de semelhante máquina? Como manobrar aquele monstruoso maquinismo de naufrágio? Como adivinhar cada um dos seus golpes que podem afundar o navio? Como evitar um projétil que varia de direção, que se move, avança, recua, fere para a direita e para a esquerda, corre, passa, desconcerta a previsão, atropela os obstáculos e mutila os homens? O aterrador de tal situação depende da mobilidade do solo; não é possível combater um plano inclinado que tem caprichos. O navio tem, por assim dizer, dentro de si, prisioneiro, o raio que tenta evadir-se; uma espécie de trovão sobre um tremor de terra. 
                Nim instante pôs-se em movimento a tripulação inteira; a falta fora cometida pelo cabo que se esquecera de encravar a corrente da amarra e atou mal as quatro rodas do canhão. Uma pancada na porta da bateria fizera com que o canhão, mal amarrado, recusasse, quebrasse a cadeia, começando a rodar d'um modo formidável pela entre ponte. No instante em que rebentara a amarra, os artilheiros estavam na bateria, em grupos ou separados, ocupados nos trabalhos do mar que os marinheiros efetuam na previsão do desempacho de combate. O canhão, atirado pelo balanço do navio, foi logo contra um dos grupos e esmagou quatro homens; depois, outro balanço levou-o para o outro lado, onde cortou ao meio outro infeliz e, indo contra uma peça na amurada de bombordo, destroçou-a. Isto produziu a exclamação de angústia que acabamos de ouvir. Toda a tripulação correu para a escada, e, num momento, a bateria ficou deserta. 
                A enorme peça encontrou-se só, entregue a si mesma, podendo fazer  o que quisesse. Era dona do navio. A tripulação, costumada a rir durante as batalhas; tremia cheia de medo. 
                O capitão Boisberthelot, e o tenente La Vienville, que eram dois valentes, pararam no alto da escada, e, mudos, pálidos, hesitantes, olhavam para a entre-ponte. Um homem separou-se com o cotovelo e desceu; era o passageiro, o paisano de que estavam falando momentos antes.  Chegando ao fim da escada, parou. 
                O canhão ia e vinha pela entre ponte, como se fosse o carro vivo do Apocalipse; a lanterna oscilando sob a roda da bateria acrescentava a esta visão uma vertiginosa alternativa de sombra e de luz.  A forma do canhão desaparecia na violência da carreira e ora aparecia negro na claridade, ora com vagos reflexos brancos nas trevas. 
                Continuava causando estragos no navio; já destruíra mais de quatro peças e abrira nos costados do barco duas brechas que por fortuna se encontravam acima da linha de flutuação, mas pelas quais entraria água apenas sobreviesse um temporal. Abordava com frenesi contra os costados do navio; a madeira resistia, mas aquela massa enorme fazia-a ranger, batendo-lhe com uma espécie de ubiquidade insuportável, em toda a parte ao mesmo tempo. Um grão de chumbo agitado numa garrafa não produz uma percussão tão incessante e tão rápida. As quatro rodas passavam e tornavam a passar sobre os cinco homens mortos, esborrachavam-nos, cortavam-nos, despedaçavam-nos, e dos cinco cadáveres tinham feito vinte e cinco pedaços que rolavam pela bateria, e rios de sangue corriam pelo chão. Os costados avariados do navio entreabriam-se já em certos pontos, e em todo o barco reinava um pavor indescritível. 
                 O capitão, tendo recuperado a serenidade, mandou lançar à entre-ponte tudo que pudesse amortecer e evitar a correria desenfreada do canhão; os canhões, as redes, velames, rolos de cabos, os sacos da equipagem e pacotes de papel moeda falsificada de que o navio levava um carregamento, porque essa infâmia inglesa era considerada um ardil de guerra. 
                 Esses trapos de nada serviam porque ninguém se atreveu a descer para os dispor convenientemente; em poucos minuto ficaram reduzidos a estilhas. 
                 O mar estava como devia estar para que este desgraçado acidente fosse o mais completo possível. Se houvesse uma tempestade, talvez o canhão fosse derrubado, votado e, de rodas para o ar, poder-se-hia evitar aquele perigo. Mas não sucedeu assim e o estrago continuava; viam-se rombos e fraturas nos mastros, que, embebidos na madeira da quilha, atravessavam os diferentes andares do navio e desempenhavam o papel de pilares. As pancadas convulsivas do canhão tinham rachado o mastro do traquete; o mastro grande sofrera já bastante; a bateria desconjuntava-se. De trinta peças, dez estavam fora de combate; as brechas aumentavam e o navio começava a meter água. 
                O velho passageiro que descera à entre-ponte parecia um homem de pedra colocado no fim da escada; olhava com tranquilidade aquela cena de devastação; estava imóvel. 
                Cada movimento do canhão fazia agora prever o afundamento do navio; se aqueles estragos continuassem. o naufrágio era inevitável; era preciso, ou conter o desastre, ou morrer; tomar uma determinação, mas qual? Com haviam de apoderar-se daquele combatente? Tratava-se de segurar um doido furioso, de prender um raio, de derrubar um monstro. 
                Todos se calavam presenciando o perigo. Do lado de fora as vagas batiam o navio, respondendo às pancadas do canhão com o quebrar do mar, produzindo o efeito de dois martelos alternados. 
                De repente aquela espécie de circo inabordável, onde saltava o canhão, viu-se aparecer um homem com uma barra de ferro na mão. Era o autor da catástrofe, o culpado do abandono e causa do acidente, o cabo encarregado de vigiar os canhões. Tinha causado o mal e queria remediá-lo; leva uma barra de ferro numa das mãos e, na outa, uma corda com nó corrediço. Assim armado entrou na entre-ponte. 
                Começou então um espetáculo titânico e feroz; o combate do canhão contra o artilheiro; a luta entre a matéria e a inteligência; o duelo do objeto inanimado contra o homem. 
                O homem colocou-se num ângulo, com a barra e a corda nas mãos, imóvel sobre as pernas que pareciam dois pilares de aço e, lívido,tranquilo e trágico, esperava, como se estivesse enraizado no solo. Esperava que o canhão passasse perto dele. O artilheiro conhecia o seu canhão e confiava em que este o conhecesse também, tendo vivido com ele tanto tempo; metera-lhe muitas vezes as mãos na boca; era um monstro familiar; e começou a falar-lhe como um cão. 
               "Vem cá", dizia ele. 
                Desejava que o canhão viesse ter com com ele, mas isso era a perdição; porque, como evitaria que a fera o esmagasse? Todos os homens do navio admiravam, aterrados, aquele espetáculo; ninguém respirava à vontade, a não ser o velho que estava na entre-ponte como sinistra testemunha daquele combate, e ao alcance da peça de artilharia que podia triturá-lo d'um instante para o outro. No entanto não se mexia. Por debaixo daqueles homens as ondas movediças dirigiam o combate. 
               No momento em que, aceitando o espantoso desafio, veio o artilheiro provocar o canhão, um acaso no  balanço do mar fez com que o canhão ficasse um instante parado e como estupefato. "Vem aqui!", dizia-lhe o homem; e ele parecia entender. De repente, caiu sobre o artilheiro que esquivou a pancada. E principiou a luta inaudita do frágil atacando o invulnerável, do combatente de carne atacando a fera de bronze; a força está da parte desta, a inteligência da parte do outro. Sucedia isso na penumbra; era como a visão confusa d'um prodígio. 
                Parecia que o canhão também tinha alma; porém uma alma cheia de rancor e de raiva; parecia estar dotado de vista aquele monstro que acossava o homem; acreditava-se que havia uma certa astúcia naquela massa, porque escolhia os seus momentos de ataque; era qualquer coisa como um gigantesco inseto de ferro que parecia ter uma vontade diabólica. Havia momentos em que aquela lagosto colossal saltava ao teto baixo da bateria e depois caia sobre as suas quatro rodas como um tigre sobre as suas quatro patas, e logo corria direto ao homem; este, flexível  ágil e esperto, torcia-se como uma cobra, esquivando-se aos movimentos daquele raio; evitava os choques, mas as pancadas a que fugia recebia-as o navio, que continuava a demolir-se. 
                Apesar de tudo, o homem continuava a lutar, e algumas vezes chegava a atacar o canhão, arrastando-se ao longo do costado do navio com a barra de ferro e a corda nas mãos, e o canhão retirava-se, como se percebesse que o artilheiro fazia aqueles movimentos para lhe armar um laço. Então este perseguia-o. 
                O canhão parecia dotado de feroz premeditação. Subitamente precipitou-se sobre o artilheiro, mas este deixou-o passar, furtando-se mais uma vez e gritando-lhe a sorrir: "Vá lá a ver outra vez!"  O canhão, furioso, quebrou uma peça de bombordo.  Depois lançou-se a estibordo sobre o homem, que novamente lhe fugiu. Quebrou mais três peças. O canhão, cego e não sabendo já o que fazia, virou as costas ao artilheiro, rodou de traz para diante e foi abrir uma brecha no muro da proa. 
                O homem refugiara-se ao pé da escada, a poucos passos do velho, tendo sempre nas mãos a barra de ferro e a corda. O canhão parecia vê-lo e, sem dar ao trabalho de se virar, recuou sobre o homem com a rapidez de uma machadada. A tripulação pensou que o homem estava perdido, e soltou um grito. O velho, até então imóvel, atirou-se com rapidez selvagem sobre um pacote de papel moeda, e correndo perigo iminente de ser esmagado, conseguiu lançar-se sobre as rodas do canhão; este movimento arriscado e decisivo foi executado com tal certeza e precisão como se aquele homem fosse bem conhecedor de todos os exercícios escritos na obra de Dorosel sobre a  manobra do canhão de marinha. 
                 O pacote fez o efeito d'uma bucha. Um calhau faz parar uma roda, um ramo de árvore separa uma avalanche. 
                 O canhão tropeçou; o artilheiro, aproveitando aquela terrível conjuntura, meteu a barra de ferro entre os raios d'uma das rodas traseiras e o canhão parou. 
                 Estava inclinado, e o homem, com o movimento de alavanca que imprimiu à barra, derrubou-o; a pesada massa caiu com o ruído d'um sino tombado, e o homem, deitando-se sobre ele coberto de suor, passou o nó corrediço pelo pescoço de bronze do monstro, estendido no chão. Assim finalizou o combate, ficando vencedor o homem. A formiga triunfou do mastodonte. 
                 Os soldados e os marinheiros plaudiram; a tripulação precipitou-se sobre o canhão, munida de cabos e correntes, e em um momento o amarraram à amurada. 
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BREVES COMENTÁRIOS
Victor Hugo, admirado como um dos maiores poetas da França, é também celebre como dramaturgo e conhecido no mundo inteiro pelos seus romances.  No entanto, pode-se dizer que os seus romances e contos pertencem também à poesia, por ser neles tão exuberante a imaginação que transporta o pensamento para fora das realidades da vida, elevando-se ao domínio da fantasia. Victor Hugo é portanto um grande poeta, mesmo quando escreve uma prosa, pois os seus romances encerram sempre uma grandeza verdadeiramente poética. O seu célebre romance "Noventa e três" é uma narrativa dramática na qual se descreve o ano terrível de 1793, quando a Revolução Francesa chegou ao auge do seu furor. Nenhum outro autor traduziu tão bem a agitação daquele período; e ao ler o "Noventa e três", chega-se a acreditar que o autor viveu naquele tempo, de maneira tão viva ele o pinta. A seguinte descrição de uma peça de artilharia que se desamarra na bateria d'um navio de guerra, é extraída desse famoso romance. 
Nicéas Romeo Zanchett - Pesquisador 
    

sábado, 24 de agosto de 2013

A VIDA DE CAMÕES - Por Nicéas Romeo Zanchett


A VIDA DE CAMÕES 
Por Nicéas Romeo Zanchett
                 Ninguém sabe ao certo onde ele nasceu, nem a data exata; os historiadores dizem apenas que foi no ano de 1542. Se ele tivesse sido um português comum, ninguém estaria preocupado com isso. Mas ele é, e tudo indica que sempre será, o maior poeta português de todos os tempos. 
                  Lisboa reivindica para si, dizendo-se o berço natal do grande poeta. O mesmo fazem Coimbra, Alenquer e Santarém. Cada uma dessas cidades lusitanas quer para si a glória de ser a terra de nascimento do cantor dos "Lusíadas". 
                  Quando ainda era menino, morava na capital do reino. Seus pais, pertencentes a uma nobre família galiciana, estavam estabelecidos em Lisboa. Ali passou a infância e na juventude foi para Coimbra, onde funcionava, havia muito tempo, a célebre Universidade, um dos grandes núcleos do Velho Mundo.  Naquela irriquieta "cidade dos estudantes", também estudou. Foi ali que fez seu curso de humanidades. 
                  Luiz de Camões era um moço elegante, forte, rijo, com belo rosto e brilhante inteligência. 
                  Ainda em seu inicio estudantil, já compunha primorosas poesias. Sabia se expressar muito bem, falando com desenvoltura e arrojo. Era muito hábil em medir os versos e sonorizar as rimas com vigor e arte. Como sempre acontecia, além de admirado era invejado. Tinha amigos sinceros, amigos fingidos e inimigos declarados, que, não raro, o provocavam. Como o jovem poeta não era de levar desaforos para casa, sempre se metia, mesmo sem querer, em rixas e pugilatos.  
                  Depois de ter completados os estudos em Coimbra, voltou a residir com sua família em Lisboa.
                  Portugal estava sob o reinado de D.João III, filho de D. Manuel, "O Venturoso".  A Corte desse monarca resplandecia de luxo e riqueza. Por ser um nobre homem de letras, teve logo entrada nos esplendorosos serões do palácio real, entre outros nobres e damas da mais alta hierarquia. 
                  No paço de D. João III cultivava-se a arte com decididos ardores. A poesia, principalmente, era acolhida com entusiasmo, que a própria época - a Renascença - acendia na alma da gente culta. 
                  Nesses elegantes saraus palacianos, tocava-se música, havia representações, recitavam-se poemas e sonetos. 
                  A figura esbelta e vigorosa de Luis de Camões tinha realce entre aqueles nobres cortesões. Seu talento era ofuscante. Sua coragem extrema e suas maneiras viris atraiam as atenções, criando amigos,  admiradores e inimigos invejosos.  Recitava suas composições com sabedoria e graça. 
                  Naquele ambiente luxuoso conheceu uma linda moça, Catarina de Ataíde, que apaixonou-se por ele.  Ele também apaixonou-se por Catarina, mas por inveja, foi caluniado e incompreendido,  a ponto da família dela opor-se ao seu casamento. 
                  Enojado com as intrigas da Corte, as hipocrisias e maldades que se tramavam nos salões e corredores do paço, Camões abandonou os saraus de arte, afastou-se das luxuosas reuniões, não frequentando mais o palácio de D.João III. Apesar disso sua amada Catarina continuava fiel e esperançosa. 
                  Foi justamente naquele momento que surgiu a guerra na Africa entre lusos e mouros. Em Lisboa abre-se o voluntariado.  Camões, desiludido com a vida que levava, alista-se marcha para o continente Africano. Seu pai o acompanhou nessa aventura incerta. 
                  Na África, Luiz e seu pai lutam lado a lado. Ali travava-se uma batalha horrível. Nos turbilhões do embate, entre espadas, lanças, azagaias e cimitarras, que soltam faíscas, cortam, furam e decepam. Setas mouriscas, muitas envenenadas, riscavam os céus  e uma delas dirigia-se ao peito do seu progenitor. Camões, em sadio impulso de amor filial, antepõe o escudo. A seta ricocheteia e lhe vasa um olho. Assim foi que perdeu uma vista, mas seu pai saiu sem nenhum ferimento. 
                     Em 1549, Camões vota a Lisboa.  Continua a escrever poesias, mas já não tem os mesmo júbilos de antes, pois a visão defeituosa e a desesperança de casar-se com Catarina, o tornam recolhido e melancólico. 
                     Sentindo necessidade de alguma distração, é visto frequentemente passeando sozinho pelas ruas de Lisboa. 
                     Nesse tempo, como ainda hoje, havia em Lisboa do dia do Corpo de Deus (Corpus Christi), que se comemoravam em grandiosa procissão. 
                     Numa dessas manifestações de fé, quando ia em meio à procissão, trava-se uma forte rixa entre lacaios de um fidalgo e os do coche do rei. Luiz de Camões presencia a rixa a certa distância. Mas, vendo que a razão estava do lado dos lacaios do fidalgo, desembainha sua espada (que como nobre tinha o direito de usar) e fere com ela um lacaio real. Embora fosse um "gentil-homem" e tivesse agido com justiça, apesar de violenta, foi detido, e dias depois condenado. 
                    Na escuridão de uma infecta masmorra, põe-se a ler a Primeira Década do historiador João de Barros, seu contemporâneo, obra em que são narrados  os feito militares  dos portugueses nas terras do Oriente. Foi ai que despertou em seu espírito a ideia de escrever, a respeito, um poema épico sobre esses sucessos e que daria o nome de "Lusíadas". 
                    Assim começa, na prisão, a escrever os seus extraordinários versos. Não pode, porém prosseguir na obra sem conhecer os lugares que serviram de teatro aos heroicos feitos lusitanos. As imagens escritas por João de Barros fervilhavam em sua imaginação. 
                    Tão logo saiu da prisão, em 1553, embarcou cheio de esperanças e  idéias para a Índia, aportando em Goa. Nessa possessão portuguesa, Camões, que tomara parte nas lutas contra os inimigos de Portugal, é mal visto pelos nativos que costumavam hostilizar os colonizadores lusitanos. 
                     Mesmo com alguma dificuldade, retoma sua produção poética e escreve a peça "Filodemo",  para ser levada à cena nas festas da posse de D. Francisco Barreto no cargo de Governador da Índia Portuguesa. 
                     Em 1558, Camões é nomeado para um cargo oficial - o de provedor mor de defuntos e ausentes - para a remota colônia de Macau, colônia portuguesa encravada na China. 
                     Foi em Macau que teve tempo para escrever mais assiduamente. Todas as tardes, após o trabalho, recolhia-se a uma gruta (a Gruta de Camões - como passou a chamar-se depois) e ali passava para o papel os vigorosos e empolgantes versos do seu extenso poema, a sua obra prima e máxima da língua portuguesa. 
                     Mas, o brilho de sua inteligência não tardou a despertar inveja e maldade; a calunia o perseguia.  Foi injustamente denunciado de apropriar-se do dinheiro do povo. 
                     Diante dessa injustiça, e para defender-se da acusação, embarca sem perda de tempo para Goa. Mas, ao chegar à Indo-China, junto ao rio Cambodja, sua embarcação sofria com o mar agitado e ondulado acabando por naufragar. 
                     Sem perder tempo, Luiz pegou os originais de seu poema  atirando-se ao mar revolto; com a mão esquerda  segurava sua obra acima das águas agitadas e com a direita dava braçadas, e assim foi nadando até a praia. 
                     Com sua obstinação e coragem salvou sua obra prima, "Lusíadas",   que o tornou conhecido como o maior poeta português. 
Nicéas Romeo Zanchett 
               



domingo, 11 de agosto de 2013

GAUTAMA BUDA


GAUTAMA BUDA 
Por Nicéas Romeo Zanchett 
                  Cerca do ano 1.000 a.C., no seio da civilização dos Árias, conquistadores do Pendjab e do alto do Ganges, surgia o Bramanismo, uma religião complicada, profundamente modificadora da posição social de seus fiéis, a qual situava em Brama a personificação do Absoluto, dizendo-o criador do mundo, dos deuses e dos seres em geral.  Junto a Brama, governavam o mundo, com iguais poderes o deus Vishnu, personificação do bem, além de Shiva, personificação do mal, portanto, da destruição. 
                   Sacerdotes do Bramanismo eram os Brâmanes que, na civilização dos Árias, tiveram enorme importância na vida social; porquanto eles constituíam uma casta privilegiada que, graças à sua a sapiência das coisas da religião, encontrava-se com maior autoridade sobre as outras três castas, em que estavam divididos os homens. Além destas quatro subdivisões, havia, ainda, os "párias", isto é, os impuros, considerados menos do que nada, na escala social. Foi neste contesto daquela civilização que nasceu Gautama Buda.  
                  Gado, agricultura e comércio tornavam rica a pequena e aristocrática república que se estendia aos pés do Himalaia, no Nepal, onde a estirpe dos Sakiya era responsável pela sorte de um milhão de súditos. Da capital, Kapilavatthu (índia), o regente Suddhodana, rico e nobre latifundiário, governava um exíguo número de pequenos senhores da aristocracia, orgulhosos de sua pele branca e das terras herdadas dos Arianos, uma vasta população de progressistas artesãos, um povo de servos da gleba, que o cativeiro obrigava à horrível humilhação de trabalhar por algum pagamento. Na sua corte, porém, não havia tristeza e o tempo  transcorria sereno, entre toda sorte de requintados prazeres. 
                   Em 567 a.C. Suddhodana teve, de sua esposa Maya, quando esta já passara dos 45 anos de idade e não mais esperava ser mãe, um filho ao qual pôs o nome de Siddhautta, mas que sempre foi chamado de Gautama, pois os Sakiya se orgulhavam de descender dos Gautâmidas. As lendárias biografias atribuem a maternidade de Maya a um milagre, e narram que a rainha vira , em sonho, sua criaturinha sob a forma de um pequeno elefante branco. E talvez seja esta a razão porque este animal, que é símbolo da mansidão no Oriente, e é sagrado aos budistas.
                   Gautama, como se o destino houvesse desejado que ele abrisse os olhos sobre aquela natureza que, na maturidade, iria amar muitíssimo, nasceu em um parque, quando Maya se encontrava de viagem para Koli. Uma semana depois, a mãe morreu e o menino foi entregue à sua madrinha Pajapati, que o criou e o amava tanto quanto aos seus dois filhos, um casalzinho. 
                   Por seu nascimento, Buda pertencia à casta dos kshatryas (guerreiros). Chamou-se Sákia para lembrar sua família e Gautama para recordar sua raça, cujo venerado pai era - diziam - o próprio Gautama. Só mais tarde recebeu o nome de Buda, assim como, provavelmente o de Sidarta, (aquele cujos desejos se realizam), embora se assegure que recebeu este nome quando menino. Perdeu sua mãe sete dias depois de nascer e foi confiado aos cuidados de sua tia materna, que também fora uma das mulheres de seu pai, antes da morte de Maya (Maiadevi). à medida que crescia, distinguia-se por sua formosura e sua inteligência extraordinária, e não tardou em ultrapassar a ciência dos mestres encarregados de instruí-lo. Recusava-se a tomar parte nos brinquedos próprios de sua idade com seus companheiros, e jamais estava tão contente como quando se retirava à solidão e se absorvia na meditação no fundo do bosque próximo à sua casa. Foi lá que seu pai o encontrou, um certo dia em que o supusera perdido; para impedir que se consumisse, assim, em sonhos, o rei resolveu casá-lo imediatamente. Quando os ministros lhe informaram sobre o desejo de seu pai, pediu sete dias para refletir; depois, tendo  adquirido a convicção de que nem mesmo o matrimônio poderia perturbar a calma de seu espírito, permitiu aos anciãos que lhe procurassem uma esposa. 
                   Quando o jovem príncipe, cujos lindos trajes lhe aumentavam o esplendor pondo em realce a sua beleza, completou 19 anos, casou-se com sua prima Yasodhá e com ela partilhou a sua vida real durante dez anos. 
                    De início, o pai da formosa jovem, Daudapani, não aceitou o casamento, porque haviam lhe falado do príncipe como um jovem entregue à moleza e à indolência; porém, apressou-se a dar seu consentimento, quando viu que Sidarta ultrapassava a todos os seus rivais nos exercícios do corpo e do espírito. Sua união foi das mais felizes; porém, depois, tal como antes de sua boda, o príncipe permaneceu mergulhado na meditação dos problemas da vida e da morte. "Nada há estável na terra", dizia; "a vida é uma fagulha produzida pela fricção da madeira, acende-se e apaga-se; não sabemos de onde veio nem para onde vai. A vida é como o som de uma lira, e o sábio se pergunta em vão de onde veio e para onde vai. Deve haver alguma ciência, na qual possamos encontrar o descanso. Se eu a alcançasse, poderia trazer a luz aos homens. Se fosse livre, eu mesmo poderia libertar o mundo". O rei observava atentamente à melancolia do seu filho, e tentava, mas em vão, todos os meios para afastá-lo de seus pensamentos tristes. 
                   Circundado pela afetuosa solicitude paterna, Gautama, aos 29 anos, ainda não havia conhecido nenhuma espécie de sofrimento. Mas, um dia, ao passar pelo parque com seu cocheiro Channa (assim narra a lenda), ele avistou subitamente um um velho enfermo, um pútrido cadáver, e um venerável monge mendigo; ficou muito impressionado, porque jamais imaginara que aos homens fossem reservados tamanhos sofrimentos. - Quem é esse homem? - perguntou de propósito o príncipe a seu cocheiro. É baixo e não tem forças; suas carnes e seu sangue secaram; seus músculos pegaram-se à pele, seus cabelos são brancos, seus dentes balançam, seu corpo está enfraquecido; apoiado em um bastão anda com dificuldade, tropeçando a cada passo. Isto é tipico de sua família, ou é a lei de todas as criaturas do mundo?"  "- Senhor - respondeu o cocheiro- esse homem está molestado pela velhice; todos os seus sentidos estão debilitados; o sofrimento destruiu sua força e seus parentes o abandonaram; encontra-se sem apoio; inabilitado para o trabalho, abandonam-no como á madeira apodrecia no bosque. E não é uma condição particular de sua família. Em toda a criatura a juventude é vencida pela velhice; vosso pai, vossa mãe, todos os vossos parentes e amigos terminarão pela velhice também; não há outra saída para as criaturas". "- Assim, pois - disse o príncipe - a criatura  ignorante e débil, com mau juízo, orgulha-se com a juventude que o embriaga e não vê a velhice que o espera. Quanto a mim, vou-me embora daqui. Cocheiro, faça logo voltar o meu carro. Eu, que também sou a futura residência da velhice, que tenho que ver com o prazer e a alegria?" E o jovem príncipe, voltando o seu carro, regressou à cidade, sem ir a Lumbini. 
                   Em outra ocasião, dirigia-se com numeroso acompanhamento, pela porta sul, ao jardim de recreio, quando percebeu no caminho um homem enfermo, abrasado pela febre, com o corpo marcado, sem companhia, sem abrigo, respirando com grande dificuldade, sufocado e obsessionado, ao que parece, pelo aumento da enfermidade e a proximidade da morte. Depois de haver se dirigido ao cocheiro e obtido a resposta que esperava, disse: " - A saúde é pois, como o capricho de um sonho, e o temor do mal  tem, pois, essa forma insuportável. Que homem prudente, depois de ter visto o que realmente é, poderá dai em diante ter a ideia da alegria e do prazer?" Em seguida, o príncipe fez que voltasse o seu carro e regressou à cidade, sem querer ir mais adiante. Mostrava-se profundamente decepcionado com avida que levava. 
                   Outra vez, quando também se dirigia pela porta oeste do palácio, ao jardim do recreio, quando no caminho viu um homem morto, posto no ataúde e coberto com um lençol. A multidão de seus parentes o rodeava, chorando, lamentando-se com gemidos prolongados, arrancando-se os cabelos, enchendo de pó a cabeça, batendo no peito e dando grandes gritos. O príncipe, voltando a tomar o cocheiro por testemunha daquele doloroso espetáculo, exclamou:  " - Ah! desgraçada a juventude que a velhice há de destruir! Ah! Desgraçada a vida na qual o homem permanece tão poucos dias! Ah! Desgraçada saúde que pode ser destruída por tantas enfermidades! Se não houvesse nem velhice, nem enfermidade, nem morte! Se a velhice, a enfermidade, a morte, fossem condenadas para sempre!" 
                   Depois, revelando pela primeira vez seu pensamento, o jovem príncipe acrescentou: "Voltemos atrás; tratarei de realizar a liberdade". 
                   Na corte, festejava-se, naquele dia, o nascimento de Ráhula, o primogênito de Gautama e de Yosodhá, e todos os cortesões tinham se apresentado com seus mais ricos e vistosos trajes, preparado suas mais eloquentes frases e o mais luminoso sorriso para festejar o grande acontecimento. Gautama, estarrecido ante aquilo que vira antes, não mais conseguia experimentar prazer algum, e uma intensa  mágoa o envergonhou por causa da vida que levava até então. 
                    Um último encontro acabou por decidi-lo a dissipar todas as vacilações  Saía pela porta do norte para dirigir-se ao jardim do recreio, quando viu um "bikson" (mendigo) , que parecia, em todo o seu exterior, tranquilo, disciplinado, contente, entregue às práticas de um "bramatchari" (encenação), com os olhos baixos, não fixando os seus olhares além da distância de uma jugada, com traje completo, trazendo com dignidade sua vestimenta de religioso e a bandeja de esmolas.  " - Quem é esse homem?" - perguntou o príncipe.  "- Senhor - respondeu o cocheiro - esse homem é um desses que são chamados "bikshous". Renunciou todas as alegrias do desejo e leva uma vida muito austera. esforça-se por dominar a si mesmo e faz-se religioso. Sem paixão, sem inveja, vi pedindo esmolas." "- isso é bom e está dito bem - respondeu Sidarta. Professar  numa religião sempre foi louvado pelos sábios. Será meu recurso e o recurso de outras criaturas. Será para nós fonte de vida, de felicidade e de imortalidade". 
                  Em seguida, o príncipe, tendo feito que seu carro voltasse, entrou na cidade sem ver Lantonin. Sua resolução estava tomada. 
                   Depois de haver declarado ao rei e à sua mulher a sua intenção de retirar-se do mundo, Buda preparou-se para abandonar o palácio. Na mesma noite, enquanto todos estavam dormindo, ele partiu; talvez, como diz a lenda, o fiel Channa acompanhou-o até as fronteiras do reino, talvez tenha seguido sozinho, dirigindo-se por entre as trevas até a atual Rajgir - (Rajagarra- Índia). Ali, na solidão, nas grutas circundantes à cidade, viviam numerosos acetas (homens que renunciam aos prazeres terrenos da vida) que, confiando na caridade do próximo, nutriam-se de esmolas e transcorriam as horas do dia  e da noite em perene penitência e forte meditação.  Abandonando os ornamentos reais, Gautama vestiu a roupa humilde do asceta, e a rica bagagem, que costumava levar consigo em suas viagens, substituiu por outra, bem mais simples, a de mendigo: uma caneca para esmolas, uma navalha, uma agulha e coador para filtrar água.  Assim vestido, ficou semelhante aos demais anocoretas (monges ou eremitas) ;com estes, ele também tinha em comum o desejo de uma vida mais espiritual, mas ainda não se sentia preparado para a vida religiosa.  E foi por este motivo que, nos primeiros tempos, Gautama quis ser discípulo de dois mestres da vida religiosa, dois "brâmanes", para que lhe ensinassem como chegar, através do martírio do corpo,  à "suprema clarividência"; este feliz momento, que nem todos os ascetas conseguiam alcançar, era um estado de alma estático, muito próximo da catalepsia e da inconsciência. 
                   À época em que Gautama Buda se entregou à vida religiosa, o Bramanismo estava passando por profunda crise, porque os homens mais evoluídos tinham começado a duvidar do poder dos sacerdotes, pois estes, na verdade, exercitavam artes mágicas que os faziam parecer mais feiticeiros de tribos primitivas do que expoentes de uma civilização superior; pretendiam saber dobrar à sua vontade os deuses, mas, ao mesmo tempo, nem sempre sabiam responder satisfatoriamente aos grandes interrogatórios sobre o BEM e o MAL, sobre a existência da alma e sobre a eternidade, dúvidas que sempre atormentaram e ainda atormentam  o espírito  do homem religioso.  Aconteceu, pois, que muitos jovens, frequentemente oriundos das melhores famílias, abandonaram a religião oficial, personificada pelos brâmanes, e procuraram, seguindo este ou aquele homem que julgavam mais sábio, alcançar  por si sós a explicação dos grandes problemas da vida. Aprofundando um princípio que já estava inscrito no Bramanismo, segundo o qual era necessário meditar longamente  e sacrificar o próprio corpo, para chegar à Verdade, eles se isolaram da sociedade, tornaram-se ascetas ou anacoretas, e passaram a mortificar de tal forma o próprio corpo, com jejuns e suplícios, que praticavam verdadeiros atos de heroísmo; somente assim, de fato, pensavam eles, sua alma seria totalmente purificada. 
                   Analisando a história, sem a influência das paixões, pode-se dizer que Gautama Buda foi um desses jovens que aderiu a uma nova forma de procurar a verdade absoluta na bondade infinita de Deus Universal. 
                   Buda, depois de muitos estudos, compreendera que nem as doutrinas nem as autoridades do brâmanes contribuíram em nada  para realizar a emancipação do homem nem para libertá-lo do temor da velhice, da doença e da morte. Depois de longas meditações e muitos êxtases, acreditou, por fim, ter chegado a essa compreensão suprema que descobre a causa de todas as mudanças inerentes à vida e destrói, ao mesmo tempo o temor a essas mudanças. A partir desse momento  tomou o nome de "Buda", que quer dizer "o iluminado". Hoje, passados mais de 26 séculos, podemos dizer, na verdade, que esse dia decidiu o destino de milhares de homens. Durante algum tempo, Buda perguntou-se, duvidando, se deveria guardar sua ciência ou comunicá-la ao mundo. Sua compaixão pelo sofrimento do homem foi mais forte, e o príncipe converteu-se no fundador de uma religião que, depois de tantos séculos, continua sendo seguida por milhões de seres humanos. 
                    O elemento mais importante da reforma budista sempre foi seu código social e moral, não suas teorias metafísicas. Esse código moral, considerado em si mesmo, é um dos mais perfeitos que se tem conhecido no mundo. O código budista não contém apenas os cinco grandes mandamentos de não matar, não roubar, não cometer adultério, não mentir, não embriagar-se. Encerra preceitos especiais contra todos ps matizes do vício, contra a hipocrisia, a cólera, o orgulho, as suspeitas, a avidez, as conversações ociosas, a crueldade com os animais. Entre as virtudes, cuja prática recomenda, o budismo, não somente encontramos o respeito aos pais, o cuidado dos filhos, a submissão à autoridade, o agradecimento aos benfeitores, a moderação na boa sorte, a resignação nos momentos de prova, a igualdade de espírito em todos os momentos; vemos também preceitos que não se encontram em nenhum outro código de moral como, por exemplo, perdoar as injúrias e não devolver o mal com o mal. 
                     Buda não rejeitava a crença na vida futura, que tem proporcionado armas tão poderosas para agir sobre os sentimentos religiosos e o comportamento dos homens. Tenho, para tanto, a convicção de que ele sabia que se esta vida, tarde ou cedo, há de acabar no nada, não valeria a pena  ter tanto trabalho e nem teria imposto tantos sacrifícios a seus discípulos. 
                     Somos todos parte de um universo em constante mutação. O mal que fazemos a qualquer ser, animal, vegetal ou mineral, repercutirá na nossa forma de vida.
Nicéas Romeo Zanchett 
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