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quinta-feira, 11 de julho de 2019

HISTÓRIA E LENDA DO TABACO (fumo) - Nicéas R. Zanchett

              Uma bela lenda, muito antiga, melhor nos fará compreender como o Tabaco surgiu entre os homens e, neste suposto bem, nos proporciona o mal que ocultamente nos causa. 
                  O velho Maomé ia passando com sua carava por uma longa estrada, quando foi surpreendido por uma serpente que lhe disse: 
                - "Maomé, tenho frio, e morrerei se não conseguir me aquecer."
                Ouvindo essas palavras, o profeta desceu e apanhou a serpente, colocando-a dentro de suas vestes, bem perto do peito. Depois que a cobra se aqueceu, disse ao profeta: 
               - Lamento, Maomé, mas agora que já estou bem aquecida quero picar-te". 
               Admirado com aquela ingratidão, Maomé retorquiu-lhe:
               - "Ingrata! Tinhas frio e eu te aqueci junto ao meu peito e agora que te sentes bem confortável, queres picar-me?"
              Sem dizer uma única palavra a cobra picou-o no braço, saltando logo a seguir. Então Maomé, sentindo-se picado, sugou o local em que a serpente lhe inoculara o veneno e, logo após, deixou cair na terra o veneno e sua saliva. Momentos depois, naquele lugar nascia o primeiro pé de Tabaco. 
                Realmente o Tabaco possui o veneno da serpente e a saliva do profeta. Vicio social, o tabaco já dominou o homem, as mulheres e as crianças adolescentes e, em breve dominará toda a humanidade que, cada dia mais ávida por prazeres o transformou num ídolo.
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              Costumamos chamar erroneamente  o Tabaco de Funo. Na verdade  o Tabaco é nome de uma planta da família das Solanáceas, e cujas folhas, depois de secas, são empregadas de diversas maneiras, sendo a mais comum o fumo ou fumaça. 
                O Fumo, propriamente dito, é uma mistura de gases, vapor de água e partículas mais ou menos tênues, que se desprendem durante a combustão de grande número de substâncias existentes nas folhas do tabaco. As folhas dessa planta, que erroneamente chamamos de fumo, tem enorme capacidade de sedução, tanto pelo sabor diferente, como pelo odor, ora como distração ora como vício, embora causando maior ou menor dano ao nosso organismo.
              É irmão mais benevolente do ópio, e não nos deixa de  arrastar aos grandes sofrimentos que todo o vício impõe, desde a economia, obrigando-nos à sua aquisição diária, prejudicando enormemente a saúde, que muitas vezes se abala pelo abuso sempre crescente. E ainda usamos quando, já sensível o nosso organismo, por uma causa  qualquer, teimamos,procurando adaptá-lo á nossa vontade, sem nos incomodarmos com sua maléfica ação. É o traidor que nos agrada pela sua traição, é uma espécie de Santo Demônio, que nos deleita e ilude, na falsa suposição de um ventura, mas que, lentamente nos vai intoxicando com seu veneno disfarçado no fumo que se evola, e com ele nosso pensamento.
          Antes da descoberta da América, o tabaco não era conhecido na Europa. Quando Colombo desembarcou em São Salvador, alguns indígenas puseram-lhe aos pés longas fulhas de cor escura, que emanavam forte aroma.
               Durante  s exploração da Guanabara, os franceses de Villegaignon viram, no interior do país, indígenas que tinham na boca rolos de folhas secas, aspirando-lhe ávidamente  a fumaça. 
           A planta do tabaco atinge, geralmente entre um e dois metros e apresenta haste cilíndrica, folhas alternadas, simples, quase sempre fixos, algumas vezes pecioladas, de várias grandezas e formas; as inflorescências são terminais. O fruto é uma cápsula oval ou globosa, contendo pequeníssimas sementes. 
              Se u nome científico é Nicotina Tabacum, podendo reunir-se suas espécies  em três grupos: Nicotina Tabacum, Nicotina Rustiva e Nicotina Petunioides. A espécie mais importante, da qual provém a maior parte do tabaco comercializado, é a Nicotina Tabacum, que deuorigem às variedades mais notáveis, conhecidas pelos nomes de Nicotina Virgínia, Nicotina Brasiliensis, Nicotina Havanensis, Nicotina Macrophilla, Nicotina Lancifolia e as numerosas formas e raças cultivadas. 
              Comercialmente falando, chamamos Tabaco às folhas convenientemente preparadas de algumas espécies de plantas do gênero Nicotina, das Solanáceas, originária do nosso continente e introduzida na Europa, em meados do século XVI, sendo hoje cultivada em quase todo o globo, principalmente nas Américas, nas Antilhas, na Índia Oriental e na Ásia Menor. 
              A composição química das folhas de tabaco varia muito segundo a planta de que deriva, da procedência, dos métodos de cultura e dos cuidados dispensados em seguida á sua colheita e depois da mesma. Em todas as folhas de tabaco, encontramos celulose, substâncias albuminóides, amido, assucar, substâncias gordurosas, nicotina e pequeníssima quantidade de outros alcaloides (nicoteína, nicotina, nicotelina), amoníaco, ácidos orgânicos e sais (citrato, oxalato e potássio), nitratos, resinas, cera e óleos etéreos. A substãncia indicada com o nome nicozianina ou cânfora de tabaco é uma mistura dos compostos de nicotina com vários ácidos orgânincos. 
               De todos os componentes do tabaco, é a nicotina o mais característico, encontrando-se nos estados de sais orgânicos e principalmente devido à sua ação nociva sobre o sistema nervoso e sobre o coração. A quantidade de nicotina contida nas folhas de tabaco, tal como o encontramos no comércio, varia segundo os tipos, podendo oscilar de 0,5 a 10% e, mais comumente, de 1 a 8. Verdade é que uma parte notável de nicotina se elimina pelos diversos processos por que passa antes de seu uso, sendo pequena, então, a quantidade contida nas diversas formas empregadas para o consumo, como vício. O Brasil possui as melhores e mais favoráveis condições para a cultura do Tabaco. Nasce espontaneamente em seu solo, crescendo, em muitos de seus pontos,com a mesma liberdade e abundância que qualquer erva do campo. Não requer condições especiais de clima, uma vez que esteja sujeito a geadas. Todavia, numa temperatura média de 25º C, atinge, o tabaco, sua maior perfeição. O solo que mais lhe convém é o argiloso, rico em sílica e húmus. 
            Cresce em todos os Estados do Brasil, embora levem mais vantagem os Estados da Bahia, Minas Gerais, Goiás, onde é grande sua cultura, e, em menor escala, São Paulo, Mato Grosso, santa catarina, Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Rio Grande do Sul, Ceará, e mais alguns Estados. 
               Com a chegada dos portugueses ao Brasil, já o uso do tabaco era conhecido dos índios, o que despertou, mais tarde, a atenção do pregador Andre de Thevenet, membro da expedição de Villegaignon, existindo dele uma minuciosa descrição sobre o uso que do tabaco faziam os selvagens da região. Tal fato causou impressão aos primeiros europeus chegados ao Brasil, sendo, logo, por eles enviados pés de tabaco, para serem plantados em Lisboa, havendo, ainda, documentos que provam a sua cultura com sementes levadas daqui, em 1559, no jardim de Jean Nicot, embaixador francês na capital portuguesa. Do nome desse diplomata foi que o grande naturalista Linneu tirou a palavra nicotina, para designar um gênero botânico que compreende grande número de variedades. 
                Quanto aos centros de cultura, pé realmente o Estado da Bahia, por grande diferença, o mais importante. Na época da descoberta do Brasil, em 1500, segundo provas irrefutáveis, já havia cultura de tabaco nesse Estado. O tabaco baiano é principalmente empregado na fabricação de charutos, que se tornaram famosos no mundo inteiro. Os municípios mais "charuteiros" são Cachoeira de São Félix, onde estão instaladas fábricas moderníssimas. Nem toda produção de tabaco baiano, porém, é usada exclusivamente em charutos, por também é empregada em cigarros e fumo em corda (em rolos). 
            Goiás também produz grande quantidade de tabaco, principalmente para cigarros, sendo ele grandemente apreciado, devido ás suas qualidades aromáticas. 
             O Brasil produz, anualmente, mais de 554 milhões de quilos de tabaco e somente os estados Unidos e a Rússia lhe superam a produção. Não há estado do Brasil onde a cultura do fumo não disponha dos mais preciosos elementos para se conseguir produtos de qualidade superior e fartos rendimentos. Na Bahia, o fumo é cultivado em 81 municípios. 
               Com o tabaco e suas fulhas preparadas, diversos produtos se obtêm para consumo dos que se viciam, constituindo objetos de comércio importante. Charutos, cigarros, rapé, fumo em rolo, constituem, em nosso meio, artigos cuja matéria prima é o tabaco, em suas folhas inteiras, picadas, em delgados fios ou reduzidas a pó para aspiração nasal. 
               O tabaco pode ser adulterado com folhas diversas, de mistura com folhas verdadeiras. Pode conter, além disso, quando para aspiração nasal (rapé) substâncias estranhas, tais como cromato de chumbo, areia, pó de madeira, terra, etc. Tais adulterações podem ser, umas descobertas pelo microscópio e, outras, substâncias minerais, pela análise das cinzas. Quanto ao rapé, a mais comum é o chumbo, proveniente de seu empacotamento ou da caixa que o conserva, tabaqueira, quase sempre com esse metal forrada, o que tem dado lugar a lentas intoxicações, desafiando, muitas vezes, a ciência e a sagacidade do médico. 
             O tabaco, entretanto, entrou oficialmente no mundo civilizado não como objeto de prazer, mas sim como medicamento, tanto é verdade que se chamou, a princípio, "erva-do-embaixador" e "clysterium nasi". Era usado para casos de torcicolo, fastio, doenças da pela, asma, bronquite, malária e tantos outros achaques. Sua fama de medicamento durou bastante e, ainda em 1665, na Inglaterra, quando ali grassava a terrível epidemia de peste bubônica, os estudantes eram obrigados, antes de entrar em aula, a fumar tabaco como desinfetante. Aqui mesmo, no Brasil, muita gente costumava por  pedaço de fumo  em corda na cavidade do dente para aliviar dores. 
               Quem introduziu o tabaco na Inglaterra foi o navegador Francis Drake e, depois dele, Walter Raleigh conseguiu torná-lo conhecido na corte. E com Releigh ocorreu um fato curioso. Enquanto estava fumando placidamente, em casa, um rudimentar charuto, chamou um servo para trazer-lhe cerveja. O criado, ao ver sair fumaça da boca e do nariz do patrão, despejou-lhe a cerveja na cabeça e saiu a gritar: - Fogo! Fogo! O cigarro apareceu só muito mais tarde. os viciados e os elegantes preferiam aspirar rapé ou fumar cachimbo. 
             Na Holanda, em 1570, fumou-se pela primeira vez na Europa, em tubos de folha de palmeira. No reinado de Luiz XIV, na França, havia penas severíssimas a quem fosse apanhado fumando. Na Abissínia, a igreja copta publicou um édito, advertindo que os fumantes teriam as mãos cortadas. 
              Outra história pitoresca a respeito do tabaco e o nascimento do cigarro, é relatada desde a guerra turco-egípcia, em 1832, precisamente durante o cerco de São João de Acre. Era uso, então, colocar nos canhões turcos cargas de pólvora envolta em papel-manteiga.
                 Certo dia, um muntaz (cabo, teve seu narguilê quebrado, e lhe veio a idéia de enrolar o tabaco naquele papel. Ibrahim paxá, do Egito, que comandava o cerco soube do caso e achou aquilo original. Por isso, prometeu, aos sábados, dar-lhe todo aquele papel e o tabaco que quisessem, se lhe abrissem rapidamente uma brecha nas muralhas da cidade sitiada. Dois dias depois, a brecha estava aberta e Ibrahim manteve a promessa. 
              A involuntária invenção passou, em seguida, para a Inglaterra, onde encontrou acolhida favorável de todos os fumantes. E também as damas passaram, ao poucos, a fumar, provocando, de início, verdadeiros escândalos. Na América, chegaram até a prendê-las, quando compareciam em público de cigarro na boca. 
              Hoje existem máquinas poderosas, verdadeiros prodígios de técnica, capazes de confeccionar milhares de cigarros por minuto, controlando-lhes o peso, o grau de umidade, a perfeita execução e empacotamento. Os cigarros, atualmente, representam, em todo o mundo, 45 %  do consumo do tabaco, ao passo que 20% pode ser atribuído aos charutos e 35% para cachimbos, rapé, etc. 

terça-feira, 9 de julho de 2019

A BELEZA E FASCINAÇÃO DO DIAMANTE - Nicéas R. Zanchett

              Todos conhecem as paixões que as jóias de diamantes tem provocado em todas as épocas. Dizem que o nome diamante deriva do Árabe "adamas" (o indomável), outros que seu nome deriva da palavra "daemos"(o tentador).
                  Seu brilho, semelhante ao das estrelas, que contemplam impassíveis lá do alto o passado e o futuro, só foi revelado quando o homem o trouxe à luz. Durante milhões de anos, as gemas ficaram sepultadas na profundidade da terra, sob a areia ou no coração da montanha, sempre ocultando seus fulgores. 
                 O estudante de química mineral certamente o encontrará definido simplesmente como "carbono puro" em estado cristalino. Também certamente o conhecerá também como algo muito raro, infundível e refratário aos ácidos e que, na escala de rigidez, ocupa o mais alto degrau e possui um peculiar poder refulgente, com efeitos muito mais esplêndidos e fulgurantes quanto maior e bem lapidada for a pedra. São essas características que justificam o valor atribuído à "gema entre as gemas" e também a dúplice versão que foi dada à origem de seu nome. 
                Dada á sua "indomabilidade", o diamante pode ser vencido somente por si mesmo, pois, para lapidá-lo, usa-se pó de diamante com óleo de linhaça, sobre uma mola de aço muito suave. Os fragmentos menores são despregados para cortar o vidro e gravar pedras preciosas. O diamante lapidado em dupla pirâmide truncada (cujos lados são divididos em 58 minúsculas facetas triangulares ou romboidais, que são lapidadas uma por uma) chama-se Brilhante",  e aquele cortado com apenas uma pirâmide e de base plana, com 24 facetas, chama-se Rosada. Os exemplares incolores predominam, mas encontram-se, também, diamantes cujos reflexos possuem tintas escuras, rosas, verdes, amarelas, e existe, ainda, muito raro, o "diamante negro". 
                O diamante, por seu brilho, dureza e, sobretudo, raridade, figura no primeiro plano das pedras preciosas, desde  remotas eras. Sua fórmula é C, peso específico 3,5 a 3,6, e pertence ao sistema cúbico. Suas faces são, por vezes, estriadas. Transparente ou incolor, também é encontrado amarelo ou amarelado e, mesmo, em outras cores, pois, como carbono puro, possui as propriedades químicas deste corpo. 
                Existem diversas qualidades de diamante: o incolor, considerado a primeira das pedras preciosas, sendo seu custo calculado na base do quilate (0,205 gr); o bort, de faces curvas, que serve para polir o anterior e, finalmente, o carbono negro, usado para perfurar rochas; esta variedade, a mais conhecida, é produto das jazidas da Índia, do Brasil e do Cabo, as primeiras, quase esgotadas. 
             Mas o que valoriza o diamante é a lapidação, que compreende três operações sucessivas: clivagem, lapidação e polimento. A primeira desembaraça o diamante da crosta que o envolve. A segunda dá-lhe a forma definitiva, de brilhante ou rosa. A terceira confere, à pedra talhada, o brilho e a transparência. Na clivagem, o clivador faz o diamante roçar sobre a pedra bruta, fazendo a crosta destacar-se. Isto feito, o lapidador, com a maça, martelo cônico, e uma lâmina de aço, bate pancadas secas na pedra, fendendo-a segundo as faces da clivagem. A seguir, procede-se a lapidação e polimento. 
                 O primeiro centro produtor de diamante foi a Índia, que dominou o mercado até a descoberta dessas pedras no Brasil, no começo do século XVIII, pois ainda não se conheciam os diamantes da África. Duzentos e cinquenta anos depois da descoberta do Brasil, este passou a ser o maior produtor de diamantes do mundo. Em meados do século XVIII, ocorreu a descoberta de grandes aluviões diamantíferos na Colônia do Cabo, em Orange e Transvaal, hoje ultrapassadas pelo Congo Belga, que somente em 1955 produziu cerca de 12 milhões de quilates. Em 1950, a produção mundial foi de 15.300.000, dos quais o Brasil contribuiu com 200.000, ou seja, a proporção de 1,3%. De 1950 em diante, porém, melhorou algo a nossa posição, devido aos grandes esforços de cientistas que se dedicam com afã a esse problema, nas regiões diamantíferas. Os diamantes, no Brasil, têm sido encontrados somente em rochas secundárias. Em Minas Gerais, no itacolomito, na Bahia, nos quartzitos da Chapada Diamantina, nas áreas de conglomerados e cascalhos inconsolidados, nas  formações metamórficas da Serra do Espinhaço e regiões a oeste do Rio São Francisco, em Minas Gerais. Os primeiros diamantes descobertos no Brasil foram por Bernardo da Fonseca Lobo, no riacho Caeté-Mirim. De início, não se atribuiu muita importância ao fato, pois a atenção estava toda voltada para o ouro. Mais tarde, iniciou-se a exploração intensificada, em Diamantina, junto ao rio Jequitinhonha, Abaeté e Grão-Mogol. Jazidas importantes surgiram também em Goiás, Bahia e mato Grosso. os maiores diamantes, todavia, eram reservados à Coroa de Portugal, que auferiu grandes lucros, e os menores eram vendidos a negociantes, por contrato. O primeiro contratador de diamantes foi Gil de Mester, que explorou tal serviço até 1866. Os contratadores de diamantes eram pessoas importantes e de grande prestígio. O mais famoso deles, Felisberto Caldeira Brandt, inspirou ao maestro paulista Francisco Mignone a bela ópera "O Contratador de Diamantes". Exercia ele sua atividade no Tejuco, onde se desenrolaram fatos históricos. A região do Alto Araguaia e do rio das Garças, na zona limítrofe entre Goiás e Mato Grosso, fornece pedras de alto valor, pela sua pureza, sendo grande a população garimpeira que ali trabalhara. 
                 O famoso diamante "Estrela do Sul" foi encontrado, em 1853, por uma escrava que estava lavando roupa no rio Bagagem. Pesava, em estado bruto, 261,88 quilates, passando a 128,8, depois de lapidado. É um brilhante muito puro, levemente rosado, e foi vendido por 400.000 dólares ao Gaekwar de Baroda, após lapidado por Coster, de Amsterdã. 
                Segundo estatísticas recentes, em 1940, passaram pelo Serviço de Classificação e avaliação de Pedras preciosas da casa da Moeda, 460.868 quilates métricos de diamantes em bruto, provindo as maiores pedras de Minas gerais, embora a maior produção fosse de mato grosso. Os dados de Pandiá Calógeras e outros estimam a nossa produção, entre 1728 e 1947, em 6.065.434 quilates, sendo  quew, no período de 1727 a 1847, foi de 1.977.419 quilates, e, de 1938 a 1947, de 1.818.015. Os maiores diamantes do Brasil são, pela ordem: "Presidente Vargas", Coromandel" (Minas 1938), 729,6; "Darcy Vargas" (Minas, 19939), 460; "Coromandel 2º" (Minas 940; "Tiros", 354; "Patos", 261,4; "Carmos do Paranaíba", 238; "Abaeté", 238; "Coromandel 3º" 228; todos eles encontrados no estado montanhês.Em 1906, falou-se muito no  "Goiás", de 600 quilates, mas há dúvidas a esse respeito. 
             Os maiores diamantes do mundo são "Cullinan", Transvaal, 1905, com 3.160 quilates; "Excelsior", com 993,7; "África do Sul", com 1893; Gão Mogol", Índia de 1640, com 807,2; "Joncker", África do Sul, 726; "jubileu", 1895, com 649,8; "Premier", 525,8; "De Beers", 5515; "Premier 3º", 499,3 e "Premier 4º" com 470,2, todos estes da África do Sul. 
             Em poder de um Hotentote, às margens do rio Orange, na África do Sul, foi encontrado o famoso diamante "Estrela da África do SUL", um dos maiores do mundo. 
              O diamante, cujo valor, muitas vezes é inestimável, possui o poder de despertar nos homens  a cupidez. A história também cita muitos diamantes célebres, ligados a peripécias tão romanescas que beiram à lenda. Além da famosa "Montanha de Luz", goza de larga fama o "Regente", que pertenceu a Felipe de Orleãs e depois ao rei Luis XVI. Desapareceu durante a revolução Francesa, porém, encontrado, mais tarde, foi ornamentar a espada de Napoleão Bonaparte. Dizem que, após a glória napoleônica entrar em ocaso, a gema também se ofuscou. Hoje encontra-se no Museu do Louvre, em Paris. O Grão Mogol  e o Orloff (este doado pelo Conde de Orloff, favorito de Catarina da Rússia, à sua soberana amada) eo Grão-Duque de Toscana figura entre os diamantes famosos, que inspiraram romancistas e poetas. 
Outras pedras preciosas
               O emprego de pedras preciosas é igualmente, como objeto de luxo, de origem antiga. Todos certamente já ouviram falar do luxo asiático, onde tanto homens como mulheres se ataviavam exageradamente com pedras preciosas. O tesouro de Mitridates é igualmente lendário. Os romanos imitaram-nos. Os processos de lapidação, com exceção dos do diamante, que datam de 1479, já eram bastante conhecidos. Na Idade Média, as pedras preciosas eram privilégio das mulheres, dada a introdução, pelos cruzados de grande número de gemas, (resultado de saques que promoviam, às quais se atribuíam virtudes maravilhosas e misteriosas, segundo a superstição daquela época. Assim, o diamante era ótimo contra feitiço ou mau-olhado, o rubi um tônico para a alma, a safira proporcionava riqueza, a esmeralda tornava seu possuidor virtuoso, e dai por diante. E, ainda hoje, há quem atribua às inocentes pedras poderes ocultos, pois cada mês tem a sua gema protetora... 
                 As gemas subdividem-se em pedras preciosas propriamente ditas: diamante, rubi, esmeralda, safira, topázio, ametista e granada, todas muito empregadas pelos joalheiros de luxo, dado o seu valor e raridade, e são denominadas orientais,por causa de seu belo oriente ou transparência. 
                  As demais, conhecidas como pedras finas, de muito menor importância, são usadas em joalharia barata e nas artes decorativas. As principais são: calcedônia, sardônia, cornalina, ágata, turquesa, opala, etc. Em Mineralogia, podemos citar as principais, pelo gênero: o diamantino (carbono), o corindon (alumina), o quartzo (sílica), o espinela (aluminato de magnésia), as esmeraldas (silicatos de alumínio e de glucínio) , as turmalinas (borossilicatos de alumínio), as granadas (silicatos de outro tipo). As pedras são, quase todas, variedade de sílex mais ou menos (ágata, ônix, calcedônia), por vezes hidratado (opala),  feldspatos (obsidiana, pedra-da-lua, etc.). 
            As pedras, segundo sua variedade e cor, podem ser assim classificadas: Incolor: diamante (carbono), safira branca (corindon), topázio incolor do Brasil ou gota-d'água (topázio), cristal de rocha (quartzo. Vermelho: rubi oriental  (corindon), espinela-papoula, rubicelo, rubi-palheta (espinela), granada de Boêmia ou carbúnculo, granada oriental (granada), rubi da Boêmia (quartzo), topázio-queimado (topázio).  Azul: safira horizontal, safira índigo (corindon), água -marinha (esmeralda), turmalina dos Estados Unidos (turmalina), safira-d'água (silicato magnesiano), turquesas pedregosas e ósseas (fosfato de alumínio), azul-opaco. Verde: esmeralda oriental (corindon), esmeralda do Brasil (turmalinas), crisópraso (quartzo). Azul-esverdeado: água-marinha oriental (corindon), topázio amarelo do Brasil (topázio, água-marinha junquilho (esmeralda), zircão, topázio da Boêmia (topázio). Amarelo-esverdeado: peridoto oriental (corindon), crisoberilo (cimófana de glucínio), peridoto de Ceilão (turmalina). Violeta: ametista do oriente (corindon) e ametista (quartzo).
                Foram as esmeraldas que inspiraram o nosso grande poeta Olavo Bilac para compor o maravilhoso poema "O Caçador de Esmeraldas", onde nara em versos lapidares a odisseia do grande Bandeirante Fernão Dias Paes, que andou pelo Brasil afora em busca daquelas pedras, morrendo em plena mata, na ilusão de have-las encontrado. 
              Um belo colar de pedras brasileiras foi presenteado á rainha Elisabeth II da Inglaterra, por motivo de sua coroação, e que foi bastante admirado naquela corte. 

segunda-feira, 8 de julho de 2019

UM POUCO DA HISTÓRIA DE PARIS - Nicéas R. Zanchett

               Naquele local já havia uma aldeia quando Júlio Cesar, durante sua triunfal campanha de conquista, chegou à Gália. A hoje cidade cosmopolita, para onde voam todos os pensamentos dos turistas do mundo inteiro, tem origens antiquíssimas. 
               Ela é a queridinha do mundo e fica às margens do Sena, o rio mais amado pelos parisienses. 
                Pelo coração de Paris, corre lenta e placidamente o famoso Rio Sena. Insinua-se sob as pontes, contempla os jardins do Trocadero e das Tulherias, titubeia entre os bulevares, rodeia o majestoso conjunto do Louvre, acompanha em surdina os cantos dos estudantes do Quartier Latin, e finalmente circunda, com sua humilde carícia, a pequena faixa onde surge a magnífica catedral de Notre Dame, na ilhota da Cité, hoje ligada á terra firme por numerosas pontes e na qual viviam, aos tempos de César, os Parisii.
              Defendida contra os inimigos pelas águas do rio e pelos grandes pântanos, que se estendiam pelas suas margens, a cidade, que se denominava, naquela época, Lutécia; era um ótimo centro para a navegação fluvial e provisório ponto de coligação entre a região dos Celtas e a dos Belgas; e quando os romanos conquistaram a Gália, aprestaram-se a dar-lhe ordem e, em troca da liberdade perdida, a paz e o bem-estar. A Lutetia Gollorum cresceu em habitantes e extensão e, embora a capital da província Lugdunense fosse Sens, cônsules e prefeitos elegeram para sua residência a cidade dos Parisii
               Estendeu-se, então, Lutécia para a terra firme; do acampamento romano, o novo núcleo fez seu sistema e eixo, e traçou a nítida determinação das ruas e estradas; floresceram, à margem esquerda do Sena, os foros e os templos, mais intensa se tornou a navegação fluvial, enquanto o antigo nome de Lutécia ia sendo substituído pelo de Oppidum Parisiorum
                 Fecunda de mártires foi a cidade quando, no século I, a "Novela de Cristo" se espalhou por toda a Gália; longas filas de vítimas foram encaminhadas, nos tempos da perseguição cristã, para a colina que surge à direita do rio. Hoje, aquela colina, abençoada pelo sangue dos milhares de inocentes, está recoberta de casas e é um dos bairros mais populosos da cidade. Centro de reunião de artistas, de boêmios e homens do povo, talvez poucos dos parisienses saibam que o bairro de Montmartre, um dos mais pitorescos da Paris moderna, local preferido dos artistas, tem seu nome derivado daquele antiquíssimo de "mons martyrum". 
              Embora a cidade se houvesse ampliado, a sede da autoridade militar e civil permaneceu na parte mais antiga. No século II, o imperador Constâncio Cloro, a quem fora confiada a prefeitura de todas as Gálias, ali fez construir o faustosos palácio. 
             Mas eis que, a partir do século IV, as pacíficas populações das Gálias foram convulsionadas pelo ferro e pelo fogo das invasões barbáricas. Germanos, Visigodos, Vândalos, Hunos, alternaram-se no solo francês, tudo destruído e arrasado, e os romanos, impotentes ante aquele ímpeto sanguinário, foram obrigados a abandonar a doce terra que, graças a eles, conhecera a propriedade material e os limites de uma civilização superior. 
                   Os Hunos, guiados por Átila, "O Flagelo de Deus" chegaram a Paris, mas não a violaram. Eles haviam invadido parte da Gália e ameaçavam Paris de perto. Genoveva, uma suave adolescente, reanimou o povo espavorido e exortou-o a opor-se aos invasores.  
              Quase cinquenta anos depois, o filho de Chilperico, Clodoveu, fundador da dinastia merovíngia, era coroado rei, em Reims. Ele escolheu Paris para capital de seu reino, instalando a Corte no antigo palácio de Constâncio Cloro. Foi o primeiro artífice da unidade do reino da França. Após numerosas e clamorosas vitórias sobre o inimigo, converteu-se ao catolicismo (é que ele havia desposado a bela senhora católica Clotilde) e, em 497, foi coroado rei.
            Iniciou-se, então, para a cidade, uma nova era, conheceu outra civilização e contribuiu também para formá-la, gozou dos faustos e das desventuras dos reis que se sucederam e, por toda a França participou das vicissitudes que, através dos séculos, foram aparecendo, terminando com a formação de um grande reino unitário, cuja capital ficou sendo Paris. Cada rei quis deixar à capital e aos parisienses um testemunho de seu próprio iluminado governo e do seu gosto inato pelas artes. Surgiram, assim, em todo os pontos da cidade, os maravilhosos monumentos que fizeram de Paris, juntamente com  Roma, a cidade mais bela da Europa. Felipe Augusto deu grande incremento às instituições universitárias e aos recursos comerciais, apoiando, em plena Idade Média, a classe burguesa. Luis IX construiu a universidade de Sorbonne (uma das mais antigas, com as de Bolonha e Toledo) e a Santa Capela, onde, segundo a lenda, foi custodiado um dos espinhos da coroa de Cristo. Felipe, o Belo, em 1302, com a convocação dos Estados Gerais, admitiu o povo parisiense a decidir dos negócios do Estado. Luis VII, que foi cognominado o "Pai do Povo", protegeu as artes, o comércio, e melhorou a justiça. Francisco I foi um dos grandes protetores das artes e das letras (e realmente chamou à sua corte Leonardo da Vinci, Cellini e Andrea del Santo, fundou uma segunda universidade, o Colégio de França e deu incremento á imprensa). 
                  De seus reis, Paris aprendeu o valor da cultura e da liberdade; deles a burguesia adquiriu a consciência de sua capacidade, compreendeu que era sobre ela que se concentrava todo o poder e a riqueza da França. E foi essa cidadania parisiense que não conheceu, como as repúblicas italianas e as cidades dos Países Baixos, o regimento do governo comunal, foram esses súditos, que por mais longo tempo sofreram as rédeas da monarquia, que ensinaram aos países da Europa e da América os princípios de um governo republicano e democrático. E ensinaram-nos com o sangue derramado pelas ruas de Paris, quando, brutal e vandálica como todos os movimentos provocados pela exasperação da alma popular, deflagrou a Revolução Francesa.  

CONHECENDO O TIBETE - Nicéas R. Zanchett

                Desde os tempos do rei Ptolomeu do Egito, tinham-se vagas notícias de terras distantes e inacessíveis no coração do  continente asiático. Algumas noções mais pormenorizadas surgiram ainda na Idade Média, graças a alguns europeus, que viajaram através da Mongólia, entre eles o veneziano Marco Polo, que mencionou o Tibete em seu livro"O Milhão". Também podemos citar João da Pian del Carpine, um dos primeiros companheiros de São Francisco de Assis e fecundíssimo pregador, que foi enviado às terras asiáticas para ali difundir a religião de Cristo e chegou até á corte Grã-Cã dos Tártaros, onde teve oportunidade de conhecer, embora superficialmente, a região tibetana. Mas, o primeiro europeu que penetrou no interior do Tibete foi Odorico de Pordenone, lá pelo ano de 1300. Desde essa época, somente no século XVII, e exatamente no ano de 1631, os europeus, (jesuítas e franciscanos) puderam penetrar novamente no Tibete, naquele interminável planalto de cerca de 2.600 quilômetros de comprimento por 1.300 de largura.
                 Circundado e sulcado por cadeias de montanhas orientadas na direção dos paralelos terrestres, imensas rugas da crosta terrestre, encimadas por geleiras colossais, das quais a mais comprida, é a de Siacen que mede nada menos que 75 quilômetros, no coração asiático, mais  precisamente no norte da península indiana. Ali estende-se longinquamente a mais vertiginosa cadeia de montanhas do mundo, o Himalaia, que se eleva a quase 9.000 metros com o pico do Everest (8.860 m), somente há poucos anos atingido, pela primeira vez, por criaturas humanas. Além daquela imensa cadeia montanhosa, encontra-se o mais imponente sistema de terras altas do mundo, ou seja, o planalto do tibete, que se limita com a Índia, China e Rússia, e cuja elevação média beira os 5.000 metros acima do nível do mar. 
                O nome Tibete parece que deriva do árabe Tibat ou Tolbat, proveniente, por sua vez, da antiga denominação chinesa  Tu-pat ou Tu-pang. No entanto, os tibetanos chamam seu país de Bod. 
                Chamado poeticamente pelos indígenas como "país das neves" e também conhecido como Telhado do Mundo, ou seja, o limite o limite entre o passageiro e o eterno, entre o humano e o sobrenatural; e realmente emana daquela imponente paisagem, que supera toda e qualquer imaginação de solenidade e majestosa grandeza. Um lugar onde os peregrinos religiosos tem o sentimento de proximidade com Deus, de uma passagem da caduca fraqueza humana para o eterno poder do criador. 
                No planalto, assolado por tempestades e percorrido por gélidos ventos, a temperatura chega, no inverno, a té a 40 graus abaixo de zero, embora se conservando, em média, nessa estação, a 15 graus abaixo de zero. Nas estações mais quentes, atinge, excepcionalmente, 25 graus acima de zero, mas, ao cair da noite, quase sempre cai novamente a zero. 
              Uma ralíssima vegetação brota nesse terreno rochoso ou coberto de calhaus, devido à desagregação de algumas rochas; e somente em certas zonas protegidas da ventania, por mérito das altas montanhas marginais, uma ou outra planta pode medrar e viver. A falta da necessária irrigação contribui para tornar mais difícil a vida dos vegetais, ainda mais porque os numerosos lagos que se acham na região são todos de água salgada e muitas das nascentes constituídas de água quente, o que é muito curioso. Apesar desses obstáculos, nessa área de 1.204.320 quilômetros quadrados, que se diria não poder abrigar as débeis criaturas humanas, vive uma população de cerca de oito milhões, que uma atávica adaptação às condições mesológicas ou um singular e corajoso esforço de ambientação torna-as alegres e serenas, mesmo em meio a provações e às lutas impostas pela natureza hostil.  Onde as condições de clima se demonstram melhores, e relativamente mais propícias, surgiram aldeias e pequenas cidades, a população se tornou mais sedentária e entrega-se ao cultivo de dificultosas plantações e pequenas hortas. Nos vales protegidos das terríveis monções e relativamente cálidos, conseguem-se  obter até árvores frutíferas, tais como maçãs, nozes, pêssegos e damascos. Entre os cereais, destaca-se a cevada, mas também é cultivado o fermento, o trigo sarraceno e o milho. Tudo isso parece inacreditável num local tão difícil. 
               Um quinto da população, ao invés, vive em estado nômade, exercitando o pastoreio; mas reina, ali, uma condição de notável penúria, um nível muito baixo de vida, e as regras da higiene são quase inexistentes. 
             A população é do tipo mongólico, possui tez morena, mais clara sobre o tórax. São homens pequenos, de cabelos negros, rígidos e retos, olhos também negros; somente em alguns casos parecem estranhos, mas que se encontram apenas nos anciões, as pupilas possuem uma cor cinza-esverdeado. Uma barba muito rala ornamenta-lhes os rostos, sempre risonhos, e cabeleira igualmente pouco abundante, e usada comprida, também pelos homens, que a prendem em rabicho, sobre a nuca. As mulheres, ao contrário, separam os cabelos em número infinito de tranças, que prendem depois ao "pegu", espécie de gancho-suporte, grande arco enfeitado de corais, turquesas e, nas mais ricas, com pérolas. Trata-se de amplo e complicado ornamento, que constitui o objeto mais singular de atavio feminino e cuja riqueza é completada pelos anéis, brincos, quase sempre formados de um aro de ouro ou de prata, tendo ao centro uma turquesa. Os homens também usam brincos, ou melhor, um só brinco, precisamente no lóbulo da orelha esquerda. 
                O ouro e a prata não são escassos na região, mas são extraídos ainda por processos rudimentares, de acordo com as possibilidades de um povo cuja natureza de terreno e o isolamento por este provocado deixam-nos ainda bem para trás, na escala da civilização, ainda que os recursos naturais pudessem, ao invés, torná-los mais ricos para gozo de bem-estar. 
            E não é somente o homem que, no Tibete, luta contra as asperezas e as intempéries. Muitas variedades de animais lhe compartilham a dura vida. Alguns mais úteis, outros menos. inúmeros realmente lhes são nocivos como, por exemplo, o tigre que, embora apresente vários exemplares, acrescenta a insídia de sua ferocidade àquelas já numerosíssimas que possui e que exigem tanto cuidado, quanto ao clima, as avalanchas, as tempestades. Menos feroz, e mais numeroso do os tigres, outro felino habita as desertas planícies do Tibete; é o lince, animal de porte regular, com espesso pelo acinzentado e manchas negras; e, ainda, veados de topete, carneiros selvagens, gazelas, antílopes e macacos. Alguns animais são realmente úteis aos tibetanos, como o almiscareiro (moschus muschiferus), espécie de ruminante de um metro de comprimento e meio de altura, que vive em grandes altitudes e fornece, em seus exemplares masculinos, uma substância odorosa, o "almíscar", que os tibetanos exportam. Há, ainda, os minúsculos cavalos, chamados pones, conhecidos em todo o mundo, habilíssimos em grimpar pelos íngremes atalhos, onde, sem seu auxílio, o homem jamais poderia passar. Montados nesses cavalinhos, os Tibetanos disputam suas partidas de polo, esporte hoje tornado célebre e praticado em toda parte. 
               Realmente providencial para os habitantes do Tibete é o iaque, espécie de boi negro e anão, que vive tanto no estado selvagem como doméstico, e tão útil que seu próprio excremento é aproveitado como combustível, após seco. Também este é animal de grandes altitudes, pois, na verdade, não é encontrado nunca abaixo de dois mil metros e oferece, aos Tibetanos, alimento, como seu leite e carne, agasalho, com a lã tecida com seu espesso pelo, e habitação, porque as tendas dos nômades são feitas justamente com peles desse animal. É aproveitado, ainda, no trabalho, porque se adapta docilmente a puxar arado; serve para carga, porque carrega as mercadorias que as lentas e intermináveis caravanas transportam, duas vezes por ano, até aos mercados limítrofes da China e serve, outrossim, de cavalgadura paciente e robusta. 
               As caravanas tibetanas se enriquecem, porém, de mais outros animais de carga, não usados em outros climas para tal fim. São os carneiros que, conduzindo pequenas cangalhas, transportam o sal mineral, de que é riquíssimo o planalto, até aos mercados chineses, onde serão tosquiados, e sua lã logo vendida, ali mesmo. Em troca dos produtos que trouxeram de seu gélido país, os Tibetanos adquirem, nesses mercados, seda, tabaco, armas, e diversas bugigangas. A simplicidade e escassez da sua alimentação (carne de iaque e carneiro, farinha de cevada, de fermento ou de milho, simplesmente embebida de água, é compensada pelos Tibetanos por uma quantidade notável, até dez por dia, de taças de chá, que é uma espécie de monopólio, mas não um chá como o que estamos habituados a tomar; é uma bebida, ao invés, extraída de longa fervura de folhas finamente trituradas e à qual ajuntam bastante manteiga e sal. É talvez desta mistura que os Tibetanos auferem a energia necessária para viver e trabalhar num clima tão hostil. Ou talvez sejam auxiliados pelo "cian", licor obtido da fermentação de cevada e pouco alcoólico, do qual são gulosíssimos. 
               A uniformidade dos trajes entre homens e mulheres deriva, quiçá, da necessidade de bem se protegerem dos rigores do frio, necessidade que os faz deixar de lado qualquer preocupação de ordem estética. Nos "ciuba", usados pelas mulheres, o longo casaco de lã bruta, vermelho escuro, sua rusticidade está suavizada por desenhos tecidos em cruz, de vários matizes. Uma faixa de lã ou de seda lhes cinge a cintura e quase sempre de sob os casacos despontam as calças, meio compridas, tanto para os homens como para as mulheres. As altas botas, de couro de iaque ou de tela escarlate, apresentam, às vezes, a singularidade de dividir os vários dedos dos pés, assim como as nossas luvas separam os das mãos. Os chapéus masculinos são uma espécie de gorro, mas quase sempre enriquecidos, aos lados, com duas grandes abas, que são baixadas quando o gelo se demonstra muito forte. 
              Nos cumes mais altos e inacessíveis, sobre as mais resplandescentes geleiras, os Tibetanos situaram a sede de suas divindades, seja atualmente, quando professam o lamaísmo, religião muito semelhante ao budismo, e deste derivada, seja quando, em séculos distantes, professavam a religião bonpo. Em cada passagem, é crença que ali seja a morada de um espírito protetor) os caravaneiros deixam, como agradecimento, farrapos de roupa ou pedras, e recitam fórmulas de preces. Segundo a tradição religiosa, o centro do mundo está situado exatamente no monte Kailasa, de cerca de 7.000 metros de altura, e considerado, pelos Tibetanos, como a mais alta manifestação divina. Eles o denominam Pilar do Céu ou Joia de Gelo. 
               Nos templos estão guardado muitos ídolos preciosíssimos, que representam as inúmeras divindades e os espíritos protetores. Diante deles, os Tibetanos recitam fórmulas e preces. Cumbum, templo de Chianzé, com 100 mil imagens. A ciclópica construção, de maravilhosa arquitetura, está enfeitada por belas e vivazes pinturas. 
                  No Tibete, pontificam a superstição e o fanatismo religioso, mantidos sempre vivos pelos feiticeiros, que deles auferem grandes vantagens. Alguns feiticeiros sempre dançam disfarçados com horríveis e enormes máscaras que muito impressionam os fiéis.
                Cada ano, caravanas intermináveis giram vagarosamente pela base do monte, por uma vereda natural, que parece cavada para isso, para a lenta marcha dos peregrinos, que avançam rezando. Mas é uma estranha maneira de orar, essa dos Tibetanos. Muitas vezes, eles se contentam em confiar suas orações, escritas em papel, a certos cilindros, a que chamam moinhos das rezas, que são girados a mão. As palavras da oração, ao se desenrolarem os rolos, sobem ao céu, sem que o crente tenha sequer o trabalho de ler as fórmulas. Algumas orações estão escritas em folhas de papel presas a altos cajados, fincados nas proximidades das casas, de modo que o vento, fazendo tremular as bandeirolas, obtém o fim desejado, ou seja, expulsar os espíritos adversos. Não é este, porém, no Tibete, um modo lícito de aproximar-se das divindades, porque, o verdadeiro, o empregam amplamente  os próprios lamas, os sacerdotes de cabeça completamente rapada. 
                 O título de lama significa mestre e modelo de santidade, mas é usado, no Tibete, por qualquer sacerdote. Grande é o número desses lamas, pois toda família tibetana ambiciona ter um, em seus conventos, que são frequentemente enriquecidos com pintura antigas e preciosos manuscritos. Há lamas de duas diferentes seitas, aqueles de gorro amarelo e aqueles de gorro vermelho. Os "amarelos", aos quais pertence o Gã Lama, (Dalai Lama) ou chefe supremo da religião, são os prosélitos de uma reforma assaz recente. os "vermelhos", ao invés, são os adeptos da tradição antiga. Mas, como os Tibetanos acreditam na reencarnação das almas, quando morre o Grã Lama, vão logo em busca de uma criança nascida no mesmo instante em que ocorreu o passamento, e, se o recém-nascido corresponde a certos outros requisitos e sinais desejados, é logo levado para a cidade santa, Lassa, que é a capital política e espiritual do Tibete, e criado naquele grandioso convento, onde o adoram como uma divindade viva. E ele se torna, então, para toda a vida, o chefe supremo do Tibete, embora o povo não possa subtrair-se à influência e domínio dos Chineses. 
              Superstição e fatalismo tornam vantajosa a posição dos feiticeiros, que são consultados, sempre, em qualquer ocasião. Nos casamentos, para saber se o destino dos noivos é reciprocamente conveniente; nas enfermidades, para saber se o doente se restabelecerá. E quando o parecer do feiticeiro é desfavorável, o doente é entregue, com indiferença, ao seu destino. Caso morra, sendo rico, é cremado em cerimônia, mas se for pobre, e não pode pagar o luxo de uma fogueira, seu corpo é entregue, para alimento dos animais selvagens que abundam nas redondezas dos cemitérios. 
               Misto de ingênuas superstições e de adoração ao eterno príncipe criador, é o lamaísmo que comporta danças de lamas, disfarçados nas já mencionadas horríveis máscaras e, ao mesmo tempo surgem também como ioques, repletos de misterioso poder, dominando a vida material; poder ante o qual ficamos perplexos e espantados, só em pensar nesse ascético e espiritual recolhimento, que domina o espírito quase infantil de certas crenças realmente bárbaras e absurdas. Basta imaginar que, entre os Tibetanos, mesmo estando em vigor a monogamia e a poligamia, regra que impõe à mulher casada a obrigação de viver não só com o homem que a desposou, mas igualmente com todos os irmãos dele. 
                Rico e belíssimo é o convento, que surge em Lassa, cidade de cerca de cem mil habitantes, em sua maioria lamas; mas existem, ainda, no Tibete, outros templos de maravilhosa arquitetura que, infelizmente estão em ruínas devido à incúria e abandono, como é o caso do templo de  Cumbum (o nome quer dizer literalmente templo das 100 mil imagens; sua ciclópica construção recorda em seu estilo os cumes e a projeção das montanhas para o céu, em suas majestosas agulhas. No entanto, os mosteiros não são as únicas construções religiosas tibetanas. Nuito menores, mas também muito mais numerosos~são os ciorten, que coservam relíquias e livros sagrados. Junto ao templo de Toling, contam-se centenas e oito deles, que é o número simbólico para o lamaísmo. 
                    Também as habitações estão encastoadas nos íngremes declives, seguindo e, juntas, desafiando o ríspido flanco das montanhas. O material que forma as casas consta de blocos de barro, misturado a ramos (pau-a-pique) secados ao sol; as janelas acham-se situadas bem ao alto, quase junto ao telhado, que é todo circundado de uma barra vermelha contra o mau olhado, assim como enfeitados de vermelho, de trapos de lã, se encontram os arados puchados pelos iaques. 

domingo, 7 de julho de 2019

A HISTÓRIA DO PAPEL - Nicéas R. Zanchett

                   A princípio, escrevia-se em peles de animais: as cabras, os carneiros, os antílopes, os cães e até as cobras forneceram aos homens primitivos os meios para transmitir-nos suas memórias e conhecimentos. 
                Milhares de anos transcorreram, desde quando nossos ancestrais procuravam um material adequado para receber a escrita. Pouco a pouco chegou-se a fabricação do papel, de que tanto uso e consumo fazemos. 
                    O processo de fabricação do papel, inventado pelos chineses, e guardado ciosamente dentro de sua poderosa muralha, foi conhecido por acaso pelo árabes. Estes, lá pelo século XI, divulgaram na Itália e na Espanha. A partir de então iniciou-se a maravilhosa marcha para todo o mundo. 
               O homem, sempre engenhoso e movido pela ansiedade de conhecer os infinitos recursos da natureza, estudou pacientemente a maneira de empregar vegetais a serviço da escrita. 
               A primeiro folha de papel vegetal nasceu em Mênfis, em remotíssimos tempos. Tratava-se do papiro (Cyperus Papyrus); uma árvore com tronco triangular e liso, com altura de 4 a 5 metros terminado em um penacho que, luxuriantemente aparecia orgulhosa nos pântanos próximos do Nilo, fornecendo aos Egípcios uma rica matéria prima. As camadas que formavam a casca desta planta eram postas a secar ao sol; depois ficavam estendidas, uma sobre a outra, como a trama de um tecido, e coladas com a própria água limosa do Nilo; finalmente, eram prensadas e envernizadas. O Egito fez grande consumo de papiros; estes resistiram ao poder destruidor do tempo, como que para auxiliar-nos a desvendar seus segredos do passado, tão rico e milagrosamente conservados na areia do deserto, que nos revelaram a grandeza de uma civilização que floresceu muito antes da vinda de Cristo. 
              Um rei da família dos Ptolomeus, com ciúmes de Eumenes, rei de Pérgamo, e da riqueza de suas bibliotecas, proibiu que, durante seu reinado, o papiro saísse de suas terras; na impossibilidade de encontrar em outro lugar a preciosa fibra, os cidadãos gregos recorreram, então, às peles de cabra e de carneiro, como já haviam feito nossos distantes ancestrais, e as tratavam com tanta habilidade, tornando-as tão resistentes, que até podiam usá-las de ambos os lados como ótimo material para escrever. Nasceu assim o Pergaminho
                  A busca do material ideal para a escrita era tarefa de todos os povos "civilizados"  da época. Roma adotou o papiro, preferindo-o ao pergaminho e às tábuas enceradas. A princípio adquiriu papiros já usados no Oriente que, após lavados e livres das escritas anteriores, ficavam aptos a receber os textos latinos; depois, conquistado o Egito, passou a usar definitivamente o papel papiro (papel "macrocola") para sua escrita e (papel "emporético") para embrulho; distinguiu-se o "macrocola" em vários tipos de papel, subdividindo-os com nomes diversos, segundo a localidade egípcia de que provinham e, afinal, instalou-se fábricas para a produção em massa do papel do Egito na Itália. 
                  Mas quando, no século VII, os Árabes se apoderaram do Egito, cessou o comércio de papiro com Roma e com o Império de Constantinopla, e então foi preciso recorrer de novo ao pergaminho. 
                  Foram os árabes que introduziram na Europa a fabricação de um novo tipo de papel que, já aperfeiçoado, apresentava a qualidade mais comum e ainda é usado até hoje.
            Os vários meios usados para escrever até aquele tempo eram tabuinhas, papiros, pergaminhos; e eram de tão boa qualidade que conservam intacta a estrutura da matéria prima com que eram preparados. O papel introduzido pelos árabes, ao invés, tal como o que se fabrica hoje, não mais apresentava o aspecto e as características exteriores das matérias primas fibrosas de que ele é preparado, porque o material empregado era diferente, e sobretudo outro o processo de fabricação. 
             Os Árabes tinham aprendido tal processo dos Persas, que por sua vez, haviam conhecido o segredo dos Japoneses e dos Chineses; foram estes últimos, realmente, os verdadeiros inventores do papel propriamente dito. 
           Quando, ainda na Ásia e na Europa se debatiam nas extenuadas experiências de fabricação do papiro e do pergaminho, a China, isolada do mundo circunstante, pela sua inata desconfiança contra os estrangeiros, já fabricava, desde muito tempo, o papel com materiais dos mais diversos, tal como trapos, resíduos de seda, cânhamo, palha de arroz, cascas de amoreira, etc. O processo empregado pelos chineses permitiu aproveitar grande número de matérias primas, e com grande vantagem econômica.  Eles maceravam em água fervente as matérias primas, obtendo com isso, uma pasta densa, e folhas finas, que transportadas para cima de formas apropriadas (chapas quentes de gesso ou feltros) eram postas a secar. Obtidas as folhas com as dimensões e espessuras desejadas, tratavam de colocá-las de duas em duas, pelo lado ainda em bruto, a fim de obter um tipo de papel resistente e suscetível de ser usado em ambas as partes. 
               Os Árabes adotaram o processo de fabricação dos Chineses, preferindo como matéria-prima, restos de tecidos de linho e de algodão e avantajaram-se na fabricação, mediante a invenção de um aparelho especial chamado "pilha de malho", para a preparação da polpa do papel. Tamanha foi a aceitação do papel fabricado pelos Árabes, que sua fabricação foi considerada monopólio do governo. 
           Muito colorida foi a indústria de papel no século XIII, onde se fabricava grande quantidade de papel branco, derivado de trapos brancos, pois os Árabes não conheciam, como também nós, nenhum sistema para descolorir a matéria prima reciclada.
                 No século XII, os Árabes implantaram as primeira fábricas de papel na Sicília e na Espanha; entre os primeiros países, foi a Itália, no pequeno povoado de Fabriano, que fabricou uma quantidade de papel especial e introduziu melhoramentos no  material e nos métodos de produção. Fabriano foi um dos centros mais famosos na fabricação de papel. Entre os primeiros mestres desta indústria, já então florescente, distingue-se especialmente Pace da Fabriano, que em 1340 fundou fábricas de papel em Pádua e em Treviso. 
                 Do ano 1000 em diante, sucederam-se as invenções e aperfeiçoamento deste material que, justamente por ser considerado precioso,  ainda não atingira a perfeição. Além disso, o trabalho manual obrigava a processos lentos e conservava bem alto o preço do papel; realmente alto demais para um produto, cujas infinitas possibilidades de aplicação exigiam mais rapidez e menores despesas. 
               Foi o desenvolvimento das indústrias e o consequente ritmo de descobertas, no campo da técnica e da ciência, a perfeição da maquinaria, que determinaram a enorme produção e o imenso consumo que se faz  atualmente do papel. E grande mérito deve-se atribuir ao operário francês Louis  Robert,  que em 1799 descobriu uma série de engenhos mecânicos capazes de fabricar, em pouco tempo e com mínima despesa, folhas de papel de determinada largura, mas de ilimitado comprimento. Tal invenção deu um maravilhoso impulso na indústria de papel, mas acarretou, porém, carestia de matéria-prima: os trapos. 
               Um alemão, Frederico Keller, estudou os vários tipos e sucedâneos dos trapos e chegou a uma extraordinária descoberta; eles podiam ser substituídos pela própria madeira. Teve início, então, em 1845, uma nova era nesse ramos da indústria. 
                Os troncos, já descascados, são reduzidos a uma pasta por pesadas "moedeiras". Esta pasta se junta à celulose pura, em quantidade variável, segundo o tipo de papel que se deseja obter.  O produto, denso e alvo, é depois passado pelas "refinadoras" onde se acrescenta a cola de resina, para tornar o papel apto a receber a tinta. Depois disso a pasta é passada pela máquina chamada "contínua", que através de sucessivas elaborações, a transforma em papel. A máquina "contínua" consiste, essencialmente, no "depurador" que elimina todas as impurezas da pasta, na tela mecânica, sobre a qual ela se expande, tomando depois a forma de papel nos cilindros enxugadores, onde a folha é secada a vapor. O papel, já pronto, e acondicionado pelos rolos recolhedores.  
                 O papel já atingira um alto grau de perfeição; servia para escrever, para a imprensa e para uma infinita gama de aplicações. Invadiu a Europa e a América, foi preferido a outros materiais, devido à acessibilidade do preço e tornou-se o mais usado e também o mais desperdiçado.
               A primeira fábrica de papel, no Brasil, foi fundada em Salto do Itu, Estado de São Paulo, em 1888, e pertencia á firma Melchert & Cia., com 36 operários.   
                  Em 1890, Coronel Antônio Rodovalho fundou a Companhia de Melhoramentos de São Paulo, para a exploração dessa indústria, e uma segunda fábrica foi fundada, logo depois, em Caieiras. Na mesma época, o operário italiano Narciso Sturlini explorava, em Osasco, o fabrico de "papelão". Este modesto empreendimento data de 1889 e deu origem à posterior Companhia Industrial de Papéis e Cartonagem. Atualmente no brasil existem centenas de fábricas de papel, representando elevado capital. 
                A Refinaria Paulista  S/A., em São Paulo, foi a primeira na industrialização do bagaço de cana para para o fabrico de celulose de papel. 


sexta-feira, 5 de julho de 2019

HISTÓRIA DA MORALIDADE SEXUAL - Nicéas R. Zanchett

Neste espaço vamos procurar compreender como são as "Relações pré-maritais, A Castidade, A Virgindade, A moral dupla, A prostituição, A relatividade da moral, O adultério, O papel biológico do pudor, O divórcio, O aborto, O infanticídio, A infância e o indivíduo.

                O maior trabalho da moral sempre foi a regulação sexual, porque o instinto reprodutor cria problemas não só dentro do casamento, como antes e depois dele; e a cada instante ameaça perturbar a ordem social com sua persistência, a sua intensidade, o seu desprezo à lei e as suas perversões. O primeiro destes problemas diz respeito às relações pre´-maritais - devem ser livres ou restritas? Mesmo entre os animais o sexo não é completamente livre; a rejeição do macho por parte da fêmea, exceto nos períodos do cio, reduz o sexo a um papel muito mais modesto do que tem ele em nossa espécie. Como disse Beaumarchais, o homem difere do animal por comer sem ter fome, beber sem ter sede e fazer amor em todas as estações. Entre os povos primitivos encontramos algo análogo às restrições animais no tabu da mulher durante o período menstrual.  Fora daí, o intercurso pré-marital é quase sempre livre, nas sociedades mais simples. Entre os índios norte-americanos e também em algumas tribos brasileiras, os jovens uniam-se livremente, sem que mais tarde esse fato constituísse impedimento para o matrimônio. Entre os papuas a vida sexual começava muito cedo e a promiscuidade pré-marital era regra. A mesma coisa acontecia entre os soyots da sibéria, os igorots das Filipinas, os os nativos da Alta Burna, os cafires e boxinames da África, as tribos da Nigéria e da  Uganda,  da Nova Geórgia, das ilhas Murray, das Andamanes, do Taiti, da Polinésia, do Assam, etc. 
                  Sob tal regime não seria de esperar muita prostituição. A "mais velha das profissões", portanto, é relativamente nova; só aparece com a civilização, com o advento da propriedade e o desaparecimento da liberdade pré-marital. Aqui e ali encontramos jovens que se vendem por algum tempo a fim de reunir dote, ou levantar fundos para templos religiosos e outras instituições associativas; mas isto só ocorre onde o código moral aprova, como um piedoso sacrifício para ajudar os pais pobres ou os imaginários "deuses famintos". 
               A castidade vem depois. O que a moça primitiva mais temia não era a perda da virgindade, mas sim adquirir a fama de estéril; com frequência a aprendiz pré-marital constituía uma ajuda, em vez de um embaraço para o casamento, porque provava a fecundidade da mulher. Antes do advento da propriedade as tribos mais simples tinham em má conta a virgindade, achando-a indicativa de impopularidade (uma mulher desinteressante e não desejada). O noivo Kamchadal que na noite de núpcias encontrava a sua noiva virgem, enfurecia-se, e insultava-lhe a mãe pela maneira negligente com que educara a filha. Em muitos lugares a virgindade era considerada como barreira para o casamento, porque punha a cargo do noivo a desagradável tarefa de violar o tabu que lhe proibia derramar o sangue da tribo. Às vezes a moça se oferecia a um estrangeiro desconhecido, como meio de livrar-se desse tabu; outras se violavam de maneira artificial, geralmente com algum legume assemelhado ao falo. No Tibete as mães ansiosamente procuravam um homem que lhes pudesse deflorar as filhas; no Malabar as moças cercavam nas estradas os passantes e lhes pediam o grande favor, porque "enquanto fossem virgens não encontrariam casamento". Em algumas tribos a noiva era obrigada, no dia do casamento, a dar-se aos hóspedes vindos à festa, antes de entregar-se ao marido; em outras o noivo contratava um homem para lhe desvirginar a noiva; entre certas tribos das Filipinas havia um funcionário público, muito bem pago, incumbido de poupar aos noivos esse incômodo. 
                O que foi que transformou a virgindade, dum defeito que era, em virtude, e tanto a elevou nos códigos morais das altas civilizações? Indubitavelmente, a instituição da propriedade. A castidade pré-marital apareceu como extensão às filhas do sentimento de propriedade com que o macho patriarcal olhava para sua mulher. A valorização da virgindade sobreveio quando, no casamento por compra, a noiva virgem começou a alcançar melhor preço que a não virgem; trazia um atestado referente ao seu passado e uma promessa da fidelidade marital, agora tão cara para os homens receosos de que seus bens se fossem para filhos sub-reptícios (gerado às escondidas por outros machos).
             Os homens nunca pensaram em aplicar estas restrições a si mesmos; não aparece na história nenhuma sociedade estabelecendo a castidade pré-marital do macho; língua nenhuma ainda cunhou a palavra designativa do "homem virgem", a não ser publicitariamente. A aura virginal reservava-se unicamente para as moças. Os tuaregues puniam com a morte a irregularidade; os negros da Núbia, da Abissínia, da Somália, etc., praticavam nas menias a cruel arte da infibulação, isto é, a colocação de um anel nas partes genitais, de modo a impedir a cópula; em Burma e no Sião essa prática subsistiu até nosso dias. Formas de separação surgiram, por meio das quais as meninas eram impedidas de ser tentadas. Na Nova Bretanha os pais ricos confinavam as filhas, durante os cinco anos considerados mais perigosos, em cabanas guardadas por velhos negros; dali não podiam sair e só os parentes as visitavam. Algumas tribos de Bornéu também guardavam as moças solteiras em rigoroso confinamento. Destes primitivos costumes ao purdah dos muçulmanos e hindus, só vai um passo - o que mostra quão perto da selvageria está esta civilização. 
               O pudor sobrevêm com a virgindade e o patriarcado. Ainda hoje vemos muitas tribos em que não há o menor vexame na exposição do corpo nu; mas envergonham-se de usar roupas. África inteira não se cansou de rir quando Livingstone pediu aos negros que o hospedavam para porem alguma tanga por ocasião da vinda de madame livingstone. A rainha de Balonda apresentou-se completamente nua ao receber esse explorador. Em certo número de tribos os pares copulavam publicamente, sem o menor pensamento de vergonha. No começo o pudor é para a mulher o sentimento de que ela é tabu nos seus períodos menstruais. Quando surge o casamento por compra e a virgindade das filhas começa a dar lucro aos pais, a separação e a compulsão à virgindade começam a criar nas meninas o senso do dever de castidade. De novo o pudor mostra-se como sentimento na mulher que, comprada, sente-se em obrigação financeira para com o marido, e refreia-se de gratuitas relações sexuais com outros.  É nesse ponto que surge o vestuário, caso ainda não aconteça por proteção do corpo contra perigos e intempéries; em muitas tribos as mulheres só passam a andar vestidas depois do casamento, como sinal do seu estado e como meio de afastar a galanteria; o homem primitivo não concorda com o dizer de Anatole France, que é o cobrir o corpo que produz a luxúria. A castidade, entretanto, não revela nenhuma necessária relação com a roupa; contam alguns viajantes que na África a moral varia em razão inversa à quantidade das roupas. É claro que o que envergonha os homens depende unicamente dos tabus e costumes locais do grupo. Até recentemente a chinesa envergonhava-se de mostrar o pé; a mulher árabe, de mostrar o rosto; e a tuaregue (sul da Líbia) de mostrar a boca; mas antigas egípcias, as hindus  do século 19 e as mulheres de Bali do século 20 (antes que ardentes turistas começassem a aparecer por lá), nunca sentiram a menor vergonha em andar com os seios à mostra. Eles foram a grande inspiração do pintor francês Gauguin. 
                Não devemos concluir que a moral perde o valor pelo fato de assim variar no tempo e no espaço, e que seria revelação da nossa cultura em história o desembaraçar-nos dos costumes morais do grupo em que vivemos.  Antropologia em doses muito pequenas é coisa perigosa. Não há a menor dúvida que a moralidade, como diz Anatole France, "é a soma dos preconceitos dum grupo"; e que, como disse o grego Anacarsis, se fôssemos juntar todos os costumes considerados sagrados em algum grupo, e depois retirar dele tudo quanto fosse considerado imoral em outro, nada restaria deles. Mas isto não prova a desvalia da moral; só prova de quantas maneiras diferentes pode a ordem social ser preservada. Essa ordem é indispensável à vida dos grupos; não há jogo que possa ser conduzido sem regras; o homem necessita saber o que lhe pode vir de outro, nas circunstâncias ordinárias da vida. Daí a unanimidade com que os membros duma sociedade praticam o código moral, coisa tão importante como o conteúdo desse código. Nossa heroica rejeição dos costumes e da moral da nossa tribo, quando na adolescência descobrimos a relatividade moral, apenas revela imaturidade de julgamento; com o passar de décadas e aquisição de mais sabedoria, deixaremos de lado muitos preconceitos do código moral que condenávamos, pois que ele consolida a experiência de gerações anteriores. Cedo ou tarde nos vem a percepção de que mesmo o que é para nós incompreensível pode ser verdadeiro. As instituições, convenções, costumes e leis que formam a completa estrutura duma sociedade provém do trabalho de centenas de séculos e de milhões de espíritos; um só espírito não pode esperar compreendê-lo durante apenas uma vida, e muito menos aos vinte anos de idade. Temos de concluir que a moral é relativa, mas indispensável para a vida em sociedade. 
                 Desde que os velhos costumes básicos representam a seleção duma série de modos de agir durante séculos de experiência e erro, podemos esperar descobrir alguma utilidade social, ou valor de sobrevivência tanto na virgindade como no pudor, a despeito da histórica relatividade dessas instituições, da sua associação ao casamento por compra e das suas contribuições para as neuroses. O pudor era a retirada estratégica que permitia à moça melhor escolha de um companheiro, ou o forçava a mostrar-lhe as suas mais belas qualidades antes de vencê-la; os embaraços que o pudor levanta contra o desejo do homem geram aqueles sentimentos de amor romântico que elevam a mulher aos seus olhos. A  orientação impositiva da virgindade destruiu a naturalidade da primitiva vida sexual; mas, com o diminuir da precocidade do sexo e a maternidade muito prematura, diminuiu também o espaço entre a maturidade sexual e a econômica. Provavelmente serviu para fortalecer o indivíduo no físico e no mental, prolongando a adolescência e a educação, e desse modo elevando o nível da raça.
                 À medida que a instituição da propriedade se desenvolveu, o adultério foi passando de "pecado venial a pecado mortal". As religiões aproveitaram-se desses sentimentos primitivos e os incutiram em suas regras à sua maneira. Metade dos povos primitivos não lhe atribuíam nenhuma importância. Mas o surto da propriedade não só levou à exigência da completa  fidelidade feminina, como gerou no homem o senso de domínio em relação à esposa; mesmo quando o marido emprestava a esposa a um hóspede, costume muito comum entre os esquimós, o que vemos é o uso dum ser que lhe pertence de maneira absoluta. O costume do suttee (comunidades hindus) veio completar esta concepção: a mulher era sacrificada e enterrada no túmulo do marido, com todos os pertences deste.  Durante o regime do patriarcado o adultério equiparou-se ao furto; equivaleria hoje à infração duma patente registrada. O castigo variava de grau, indo da indiferença, nas tribos mais simples, ao estripamento, observado em certas tribos da Califórnia, ou apedrejamento da adultera, hediondo costume entre os árabes. Após séculos de punição, a nova virtude da fidelidade da esposa estabeleceu-se firmemente e gerou uma consciência no coração feminino. Muitas tribos de índios surpreendem os conquistadores por considerar  irrepreensível  conduta das esposas; e certos viajantes lamentam que as mulheres da Europa e da América não possam se igualar em fidelidade marital as da Papuásia e da Zululândia (Reino Zulu)
               Essa fidelidade era mais fácil para as papuas, desde que entre suas tribos, como na maioria dos povos primitivos, poucos embaraços se levantavam contra o divórcio. As uniões raramente iam além de poucos anos, entre os índios da América. "Grande número de homens velhos ou maduros", diz Schoolcraft , "contam das muitas mulheres que tiveram, e dos muitos filhos espalhados pelo mundo, que lhes são desconhecidos". Eles se riem dos europeus por terem uma só mulher, e por toda vida; acreditam que o Espírito Bom os formou para serem felizes e não para permanecerem amarrados, salvo aos que o desejem por força da congenialidade. Os índios cherokees mudavam de mulher três ou quatro vezes por ano; os somoanos (de Samoa) eram bastante conservadores,  trocavam de mulheres de três em três anos, em média.  Com o advento da vida agrícola, as uniões se tornaram mais permanentes. Sob o sistema patriarcal o homem considerava antieconômico divorciar-se, porque de fato isso consistia em perder uma escrava. Como a família se tornara a unidade de produção social, o progresso vinha do tamanho e da coesão das famílias; era vantagem que a união se prolongasse até que o último filho estivesse criado. Mas quando essa época finalmente chegava, já pouca ou nenhuma energia restava aos cônjuges para um novo romance. O que de novo trouxe o divórcio ao mundo moderno foi a indústria urbana e a consequente redução do tamanho e da importância econômica da família. Em nossos dias, um dos principais fatores que freiam os divórcios é divisão dos bens; mas o homem moderno já encontrou uma nova forma de garantir os bens que considera seu através dos modernos contratos "pré nupciais".
               Em geral, através da história, os homens sempre quiseram muitos filhos, e por essa razão declaravam sagrada a maternidade; mas as mulheres, às quais cabia todo o peso da reprodução, secretamente se rebelavam, e usavam todos os meios para escapar à essa carga. Os homens primitivos não tratavam de restringir a população; as crianças eram elementos aproveitáveis, os homens só lamentavam que não fossem todas do seu sexo. Foi a mulher que inventou o aborto, o infanticídio e o repúdio à concepção, embora nas sociedades primitivas isso só acontecesse esporadicamente. Parece-nos espantosa a verificação da similaridade de motivos entre o "selvagem" e o "civilizado" quanto à evitação de filhos: fugir aos trabalhos da criação, preservar a frescura da mocidade, evitar a desgraça da maternidade extra-marital, medo da morte, etc. O processo mais simples de reduzir a maternidade consistia em negar-se a mulher ao homem no período da amamentação, a qual poderia ser prolongada por anos a fio. Às vezes, entre os índios Cheyenees, as mulheres adotavam o costume de se recusarem a ter um novo filho antes que o primeiro fizesse dez anos. Na Nova Bretanha as mulheres não tinham filhos até dois e três anos depois do casamento. Os Guaicurus do Brasil foram diminuindo de número porque as mulheres se recusavam a ter filhos antes dos trinta anos. Entre os papuas o aborto era frequente; "filhos são carga pesada", disse uma mulher; "nós andamos cansadas de filhos". Algumas tribos moaris usavam ervas, ou alternavam a posição do útero na tentativa de evitar a concepção.
               Quando falhava o aborto, vinha o infanticídio. Muitos povos admitem a matança do recem-nascido, se aparecia disforme ou doente, ou se era bastardo, ou ainda se a mãe morrera no parto. Outras tribos matavam os dados á luz sob más circunstâncias; os nativos de Bondei estrangulavam os que nasciam de cabeça; os de Madagascar abandonavam ao alcance de predadores, afogavam ou enterravam vivas as crianças que vinham em março ou abril, ou ainda nas quinta e sextas-feiras, ou na última semana de cada mês. Essas datas eram usadas como justificativas para o infanticídio. Se a mulher procriava gêmeos, isso era, em algumas tribos, prova de adultério, já que um homem não podia ser ao mesmo tempo pai de duas crianças; e por isso uma, ou até as duas eram condenadas à morte. A prática do infanticídio prevalecia sobretudo entre os nômades, aos quais o nascimento de crianças constituía embaraço durante as marchas. A tribo dos bangerangs (tribos da Áustria) matava no nascedouro metade dos filhos; os lenguas do Chaco paraguaio, só permitiam uma criança por família, em cada espaço de sete anos; os abipones (indígenas da Argentina) faziam como os franceses: apenas duas crianças em cada casa, e matavam as que vinham a mais. Quando ameaçadas de carestia, muitas tribos estrangulavam as crianças de peito, outras as comiam. Em regra as meninas eram mais expostas ao infanticídio; às vezes torturavam-nas até a morte a fim de induzir a alma quando de novo se reencarnasse a escolher o sexo masculino. 
           O infanticídio era praticado sem crueldade e sem remorso, porque logo que dá à luz a mãe não sente nenhum amor instintivo pelo filho. Se a criança vivia algum tempo, estava liberta desse destino; surgia o amor na sua primitiva simplicidade; e em muitos casos a dedicação das mães igualava à das mulheres modernas. Por falta de leite de vaca e outros alimentos adequados, a mãe amamentava o filho até dois anos, às vezes até quatro, e às vezes até doze; um viajante conta dum menino que já fumava e ainda não tinha desmamado; muitas vezes uma criança abandonava o brinquedo, ou até o trabalho, para ir agarrar-se ao peito materno. A mãe negra no trabalho traz o filho novo às costas, e amamenta-o jogando para trás o comprido seio. A disciplina primitiva era indulgente, mas não ruinosa; a criança ficava entregue a si mesma, tendo de enfrentar as consequências da sua estupidez, insolência ou pugnacidade (crianças belicosas, contestadoras); o aprender vinha por próprio no passo a passo. O amor filial e o paternal mostram-se muito desenvolvidos na sociedade natural. 
               Perigos e doenças abundavam, de modo que a mortandade infantil sempre foi alta. O perigo da mocidade era breve, porque as responsabilidades maritais e marciais começavam muito cedo, e os rapazes tinham de enfrentar os trabalhos de defesa dos grupos. Consumiam-se as mulheres no carregar de crianças, e os homens no prover alimentos. Quando o filho mais velho estava criado, os pais já velhos nada valiam;  pouco tempo sobrava para a vida individual, no começo ou no fim duma existência humana. Individualismo, como liberdade, constitui luxo da civilização. Unicamente com o albor da história encontramos homens e mulheres livres das cargas da fome, da reprodução e da guerra, aptos, portanto, para criar os valores do lazer, da cultura e da arte. 
              A sociedade de hoje, onde a cultura está altamente desenvolvida, enfrenta um novo problema. Os diversos métodos anticoncepcionais está largamente disponível às classes sociais mais elevadas. Já nas classes que vivem em lugares insalubres como as favelas e comunidades pobres, as jovens de pouca idade estão dando à luz bem cedo, muitas vezes na puberdade. Isto faz com que a menina abandone os estudos para cuidar do filho que geralmente é negado ou abandonado pelo pai. Há casos de jovenzinhas que sofrem estupro e não tem apoio dos pais, da sociedade, e nem mesmo do governo. Nas comunidades dominadas pelo crime as meninas muitas vezes são forçadas pelos criminosos  a ter relações na mais tenra idade; na maioria das vezes não recebem apoio nem dos pais que são intimidados pelos delinquentes. Isso forçosamente trás um grande aumento na natalidade nessas comunidades. Além do problema criminal e social, provoca o exponencial aumento da ocupação irregular do solo urbano. Como consequência temos uma explosão número de nascimentos nas classes mais baixas; enquanto que nas sociedades mais elevadas o número de nascimentos vem diminuindo drasticamente. Independentemente de analisarmos a genética dessas crianças (quem é o pai, qual a sua índole e seu nível intelectual), podemos concluir que fatalmente haverá declínio mental até pelo simples fato da falta de uma alimentação adequada e boas condições de saúde. Como consequência temos o aumento no número de crianças nas classes mais baixas e diminuição nas classes mais abastadas. O resultado final deixo para a imaginação do meu caro leitor. 




quinta-feira, 4 de julho de 2019

FATORES QUE MOLDAM A CIVILIZAÇÃO - Nicéas Romeo Zanchett

            Os principais fatores que moldaram, moldam e continuarão a moldar a civilização, indubitavelmente são as condições geográficas, geológicas, econômicas, raciais e psicológicas. 
              A civilização é a ordem social que está permanentemente promovendo a criação cultural.
               São quatro os elementos que constituem a formação civilizatória: 
               1 - A provisão econômica;
               2 - A organização política; 
               3 - As tradições morais; 
               4 - O acumulo de conhecimentos e as artes. 
                Tudo começa quando o caos e a insegurança chegam ao fim. Quando o medo é dominado, a curiosidade e a construtividade se vêem livres, e por impulso natural o homem procura a compreensão e o embelezamento da vida. 
             Certos fatores condicionam a civilização, podendo estimulá-la ou embaraçá-la. Primeiro, as condições geológicas. A civilização é um interlúdio entre as eras glaciais; a qualquer momento a corrente de congelação pode retornar a encurralar a vida num segmento da Terra. Esse fator, em nossos dias, está cada vez mais presente devido ao descontrole ambiental e consequente aquecimento climático. 
             O homem sempre teve que obedecer à natureza. As cidades foram construídas com permissão dos terremotos, por exemplo; pois eles podem simplesmente destruir-nos com a maior indiferença. 
                As condições geográficas têm enorme influência. O calor dos trópicos e os inumeráveis parasitos que os infestam revelam-se hostis à civilização; a  letargia, a doença e a precoce maturidade desviam das coisas não essenciais às energias que fazem a civilização e as enfocam unicamente no comer e no reproduzir-se; nada sobeja para o pabulo das artes e do espírito. A chuva é necessária; porque a água é o médium da vida, mais importante ainda que a luz do sol; o incompreensível capricho dos elementos pode condenar à seca regiões outrora florescentes, como Nínive e Babilônia, ou pode dar força e riqueza a cidades aparentemente fora das principais linhas de transporte e comunicação, como as da Grã Bretanha ou do Estreito de Puget. Se o solo é fértil em produtos agrícolas e minerais, se os rios oferecem fácil via de transporte, se a linha costeira é provida de portos bem abrigados, e se , acima de tudo, uma nação está situada no trajeto duma rota comercial, como Atenas ou Cartago, Florença ou Veneza, então a geografia sorri e nutre a civilização - embora não a crie. 
          As condições econômicas são mais importantes. Um povo pode possuir excelentes instituições, um nobre código moral, e mesmo o senso das artes, como os índios americanos; mas se se perpetua na estágio da caça, se para existência depende da precariedade dos animais nativos, esse povo nunca passará da barbárie à civilização. Um povo nômade, como os beduínos da Arábia, pode ser excepcionalmente vigoroso e inteligente, pode revelar qualidades de caráter, como a coragem, a generosidade, a nobreza; mas sem o sine qua non da cultura, que é a continuidade da alimentação, essa inteligência se desperdiçará nos perigos da caça e nas tricas mercantes, e nada ficará para as amenidades, as artes e os requintes da civilização. 
                  A primeiro forma de cultura foi a agrícola; quando o homem se fixou para cultivar o solo. Nesse estágio passou a acumular provisões para o incerto dia de amanhã, e acha tempo e razão para civilizar-se. Dentro deste estreito círculo de segurança - bom suprimento de água e alimento - o homem constrói sua cabana, seus templos e escolas; inventa instrumentos de trabalho, domestica o asno, o cão, o porco e por fim a si mesmo. Aprende trabalhar com regularidade e ordem, vive mais tempo e transmite mais completamente aos filhos à herança mental e moral da raça.  
               A cultura sugere a agricultura, mas é a civilização que sugere a cidade. Sob um aspecto, a civilização é o hábito da civilidade; e a civilidade é o refinamento só possível na cidade.  (A palavra civilização vem do latim -civilis - que pertence aos cidadãos civis e é comparativamente nova. Não aparece no dicionario do Dr. Johnson de 1772, ali ele preferiu usar a palavra civility.) Para o bem ou para o mal, é para a cidade que refluem as riquezas e os cérebros produzidos pelo campo; na cidade a invenção e a indústria multiplicaram o luxo, a comodidade, e o lazer. É na cidade que os mercadores se encontram e trocam mercadorias e ideias; nessa mútua fecundação dos espíritos, a inteligência se apura e é compelida a criar. Na vida urbana alguns homens se conservam fora do campo material e produzem ciência, filosofia, literatura e arte. Portanto, a civilização começa na cabana do camponês, mas só floresce nas cidades. 
              Estas são, portanto, as condições da civilização que independem da raça. Podem aparecem em qualquer continente e em qualquer cor: em Pequim ou Déli na Índia, em Mênfis ou na Babilônia, em Paris ou Londres, no Peru ou na península de  Iucatã  no México.  Isso prova que não são as grandes raças que fazem uma civilização, mas sim as circunstâncias geográficas e econômicas que criam a cultura e a cultura, por sua vez, cria os novos tipos.  Os ingleses não fizeram a civilização inglesa - esta é que fez o povo inglês; se ele a leva para onde vai, e se põe um "smoking" para um jantar no Tumbuctu ( cidade no centro de Mali), isso não quer dizer que lá está impondo sua civilização; está apenas admitindo que é a sua civilização que dirige seus atos. Qualquer outra raça faria o mesmo, se fosse beneficiada pelas mesmas condições materiais que beneficiaram os ingleses; o Japão, por exemplo, reproduz no século 20 a história da Inglaterra no século 19.  Portanto, a civilização se liga à raça unicamente no sentido de ser, com frequência, precedida pela fusão de várias estirpes, que gradualmente se assimilam num povo relativamente homogêneo. 
                 Essas condições físicas e biológicas não passam dos prerrequisitos da civilização; não a constituem, não a geram. Sempre entram em jogo fatores psicológicos muito sutis. É preciso haver ordem política, mesmo que quase se aproxime do caos, como em Florença e Roma durante o Renascimento; os homens têm que sentir que há mais algumas coisa no mundo além da morte e dos impostos que são inevitáveis. É preciso que haja alguma unidade de língua, para mediação do intercâmbio mental. Por meio da igreja, da família, da escola ou do que seja, é necessário que exista um código moral unificador, algumas regras do jogo da vida, aceitas mesmo pelos que as violam, que deem à conduta alguma ordem e regularidade, alguma direção e estímulo. Talvez também seja preciso unidade de fé - uma fé qualquer, sobrenatural ou utópica, que eleve a moralidade de mero cálculo à devoção, e que, a despeito da sua brevidade, dê à vida nobreza e significado. E finalmente, deverá haver educação, que é o meio de transmitir a cultura. É graças à iniciação, imitação ou instrução, transmitidas pelos pais, professores ou sacerdotes, que a herança mental da tribo transfere-se às novas gerações, como o instrumento que elevou o homem acima da pura animalidade. 
       O desaparecimento destas condições pode destruir uma civilização. Um cataclismo geológico ou profunda mudança climática; uma epidemia impossível de ser combatida, como a que abateu metade da população do Império Romano sob o reinado dos Antoninos, ou a Peste negra que pôs fim à Era feudal - (aqui lembro das superbactérias que pouco a pouco estão se firmando); a exaustão das terras ou a ruína da agricultura devida à exploração exagerada dos campos pelas cidades, o uso indiscriminado de agrotóxicos que contaminam e tornam imprestáveis as terras cultiváveis, resultando em precária dependência da importação de viveres de fora; a escassez de recurso naturais como combustíveis e matérias primas; uma mudança nas rotas comerciais, que deixa uma nação em desvantajosas condições de tráfego; a decadência mental e  moral devido ao urbanismo desordenado, que geram as conhecidas favelas, com a consequente queda da disciplina e a escalada da criminalidade. Podemos considerar também alteração étnica com uma desordenada permissividade sexual ou a uma filosofia pessimista ou quietista; a inferiorização da elite dirigente em virtude da esterilidade e do controle de natalidade pelos mais aptos, a relativa pequenez das famílias que melhor poderiam contribuir para a elevação da raça; uma patológica concentração da riqueza que determine guerra de classes, revoluções e exaustão financeira; eis alguns dos caminhos que levam as civilizações à morte. 
             Uma civilização não é coisa ingênita e imperecível, mas algo tem de ser de novo adquirido em cada geração, qualquer colapso no seu custeio ou na sua transmissão pode levá-la ao fim. O homem difere dos animais unicamente pela educação, a qual podemos definir como a técnica de transmitir a civilização. 
                As civilizações são gerações da alma racial. Como a família e a escrita ligam as gerações e passam a herança dos velhos para os moços, assim também a imprensa, o comércio e os meios de comunicação ligam as civilizações entre si, e preservam para as culturas vindouras todos os valores adquiridos. Antes que a morte sobrevenha, reunamos a nossa herança cultural e ofereçamo-la aos nosso filhos. 
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